30.12.07

Os Amigos

(Klimt)

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,

a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria –
por mais amarga.

(Eugénio de Andrade)



20.12.07


a pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos

a andorinha bicou-a

sei um ninho e é azul

17.12.07


(Senhora com o Menino Salvador do Mundo-Cerejais)

Não choreis, belo Menino,
Se de amante vos prezais,
Porque amor que chora mais
É sempre amor menos fino.
Limpai o vosso rosto divino
A quem a minh’alma adora,
Que se a vossa Mãe vos chora,
Meu Deus, com tantos rigores,
É porque ao nascer das flores
Costuma chorar a aurora.

Jerónimo Vaía (n. 1620/30; m. 1688)


15.12.07

(Foto de Marco Pedrosa)

*
Os corvos têm andar pobre, mas voam com o brilho todo nas asas.

No fundo do quintal não há rumores de água, mas uma manhã de sol ainda vai trazer os solfejos esperados

mesmo nas asas dos corvos.

*
Dou sementes aos pássaros.
Acodem corvos de asa arrastada, mas voam brilhantes como música.

*
Todas as manhãs ponho a mesa e espero a música.

13.12.07

Nem brava, nem mansa. No fundo do quintal não há rumores de ribeira, mas as manhãs de sol ainda vão trazer solfejos de água.

Às manhãs duras hei-de dar diques;
assim mesmo: hei-de dar diques,

como quem diz: ide para o inferno.

11.12.07

São quinze horas e vinte minutos, dia 11 de Dezembro. Estava a ouvir Sócrates a falar do nosso ensino. Estou cheio de nojo. Dele e do que ele representa.
Vim aqui só para dizer isto. Que nojo...
Que nojo...

8.12.07

(Foto de Marco Pedrosa)

Em pequenito de escola, escondi debaixo do jornal que forrava a gaveta da cómoda um papel:

“…, gosto dos teus olhos e da maneira como andas” .

O papel não lhe chegou aos olhos (…a minha irmã mais velha ainda hoje diz que não foi ela – lá em casa dizia-se que eu ia para padre…) e deve ter sido bom.

Uma vez, olhei-a muito e disse-lhe pareces uma cigana.

Já sabia que não era só pelos olhos: era linda a andar e não soube dizer-lho.

Ela zangou-se e comecei a dar-me conta de que olhava para todos da mesma maneira.





4.12.07

(Foto de Marco Pedrosa)


Queria ter a posição dos claustros
A posição do monge antigo que os varre
A posição do moribundo que pergunta as horas
A posição das árvores quando as crianças sobem
A posição dos ramos quando os ninhos nascem
A posição de alguém que já não mora. Queria
Como se tivesse
A posição da casa e alguém me visitasse

Daniel Faria; Dos Líquidos