25.4.13

- Tenho andado por palavras novas
   as prendas da hora de acordar.

- Eu sou da família dos dias e das noites
  e das palavras conheço~lhes o ventre.

- Eu sou da penumbra
  lenta levedura de coisas por dizer.

- Ofereço-te os rios todos
- palavras que sabem a mar

- E eu dou-te a noite e suas estrelas
  pomar de maçãs de muitas cores.

- São essas as palavras novas
  as prendas desejadas.




18.4.13

ESTES POEMAS, DISSE ELA

Estes poemas, estes poemas,
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.

Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona

8.4.13

Ladainha

O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)

Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.

Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.

O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.

O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.

A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.