
Tu me chamas ainda a tua vida -
- E a vida é só o que se escapa e corre...
Antes me chames alma: é mais exacto,
Pois que, como a alma, o meu amor não morre.
Byron - Trad de Jorge de Sena (poesia de 26 séculos; ASA)
Quando me fizerem as perguntas do fim, hei-de ter desculpa
-que, logo de manhã, espreito o sol e o bendigo e a tudo que vai ter luz
-que tiro o chapéu diante das alminhas da aldeia pintadas na pedra e com flores de plástico à frente
-que olho para o lado para que os namorados sigam o seu caminho e verdade
-que namoro com a verdade toda inteira.
Quando me fecharem os olhos, hei-de ter desculpa
-falei de alto aos abusadores
-bati nos vendilhões dos templos
-nunca me pus de joelhos
-não me ponho de cócoras, cuspo nos hipócritas e outros exploradores.
-A água das fontes é o meu espelho, "mesmo se é noite".
E se, naquela altura, não tiver desculpa, hei-de dizer:
-vossemecê não presta
-tem a ruindade da serpe que, em tempos, pôs no tal Éden.
Está a parecer-me que vou ser respondido assim:
anda cá, rapazinho
há muito tempo que ninguém me fala assim.
Vais-me desculpar.
E eu vou dizer:
já sabia!
e é lindo o entardecer, não é?
Bem-aventurados os pássaros,

O casulo da larva recebe a morrinha e o sol em silêncio igual. Vai ser voo e cor, visita da luz e das flores.
O coração conhece os cheiros e as cores e não se perde nos caminhos.
Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
(René Char)
Assim de madrugada, noite já cor de borboleta, sê casulo ainda que de borboleta nocturna e só de uma manhã.
- Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
- Verdes?
- Sim. Eu pensava…Pelo menos não podia pensar que não tivesses…E que não tivesses sido salva, por mim, do fogo!
- Do fogo?
- Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
- Enfermeira?
Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.
- Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo…Mas nada disso sucedeu.
Rosabianca apertou-lhe o braço com força.
- Giovanni! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
- E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
- Sim, se queres serei a tua enfermeira.
- Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado, que eu vou deitar fogo à casa.
(Augusto Abelaira; A Cidade das Flores - vigésimo nono quadro)
“Abro a minha boca * e o mar se regozija”
(Em “Louvada Seja – Áxion Estí”)
Abro os olhos e a água sem rugas traz desenhos que lhe desenhei, de pele lisa ainda, a minha. Julgava-os delidos.
O mar guardou-os e está a pôr uma a uma as pétalas no pé donde, bem-me-quer-mal-me-quer, em anos verdes as fui soprando em desenhos de abandono.
Se fosse de pôr flores no cabelo como os amantes, ainda iria recolhê-las, bem me quer.
Eu, amante imperfeito.
Água-céu de Faro, Áxion Estí.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
(Alberto Caeiro)
(…)
Quando tenho a alma suja,
já não vou pelos padres santos do deserto que
castigavam o corpo.
(Conheci um monge que me contou que, no tempo em que castigava o corpo, se sentia todo sujo e não sabia da alma.
Que tomava um banho e até pensava que a água era a alma a morar-lhe nos olhos.)
Às vezes a alma vai suja
como sangue violentado em linho que já foi limpo.
(O monge falou-me do Cântico dos Cânticos, mas dizia sempre “sabes, deve ter sido lindo, mas foi há muito tempo. Gosto de ler, mas basta-me a água que me lava”.)
Já experimentei:
- sentar-me a comer chocolates e a metafísica gargalhou…
- ficar no banco do jardim; as aves nem me viram…
- etc.
(Recordo-me de que o monge dizia sempre o que devia e não usava etc. Não precisava: um minutinho dele a falar era do tamanho da música das estrelas.)
Vou fazer assim:
amanhã, o Sol nasce como sempre fez
vou sentar-me a olhá-lo
atrás dele vêm os pássaros.
(Aprendi isto por mim.)
E ainda vou fazer:
deixar-me voar, voar e ir com eles:
eles viram quem me falta e novas me hão-de dar.
E a alma vai ficar limpa lençol de linho.
1
As manhãs andam coalhadas.
O códão é navalha a abrir a terra, mas a geada estende-se a receber o sol.
2
E também deve haver uma maneira quase matinal de fazer das palavras manto estendido onde se acorde criança a aprender a balbuciar os dias.
3
E também deve haver um banco de pedra no entardecer onde se goste de ver o dia todo, parando os olhos onde apetecer.
O miúdo que vende jornais naquela cidadezinha de província parada pacata patega é a primeira coisa que se vê na cidade, parada pacata patega. Quando chega o comboio da noite, a voz do pequeno ardina (que não tem pai nem mãe) corre pelas ruas e praças espanta a passarada bate nos prédios faz abrir portas e janelas fura a escuridão
saem gritos dos seus olhos a sua cara de menina pede beijos e carícias uma ternura diferente
as pessoas compram-lhe o jornal porque não podem comprar o silêncio do pequeno órfão e toda a cidade é um remorso inexplicável, inexplicável. Irás comigo, irmão, para a próxima jornada. Até ao Outro Lado, seremos dois.
(Luiz Pacheco - Os Namorados)
Lembro-me bem.
O Menino Jesus tinha-me dado três berlindes. Um, muito vermelho; o outro, quase verde. Gostava mais do que tinha tantas cores como o vestido que a minha mãe às vezes levava à missa.
No chão estava uma manta para eu brincar.
Lembro-me de ter brincado como vou contar.
Segurava os berlindes na mão esquerda. Depois, poisava um e dizia o pai está aqui. Com muita atenção, media três palmos e punha outro que era a mãe. Antes, deixava um sopro em cada um. O outro era eu e não tinha sítio certo. Às vezes até ficava seguro nos dedos. Depois de olhar muitas vezes, ia pondo, aos saltinhos, o pai de encosto à mãe.
E, quase a dormir, lembro-me bem, levavam-me para a cama e olhava pelo canto do olho.
Os três berlindes estavam encostadinhos.

Jerónimo Vaía (n. 1620/30; m. 1688)
(Foto de Marco Pedrosa)“…, gosto dos teus olhos e da maneira como andas” .
O papel não lhe chegou aos olhos (…a minha irmã mais velha ainda hoje diz que não foi ela – lá em casa dizia-se que eu ia para padre…) e deve ter sido bom.
Uma vez, olhei-a muito e disse-lhe pareces uma cigana.
Já sabia que não era só pelos olhos: era linda a andar e não soube dizer-lho.
Ela zangou-se e comecei a dar-me conta de que olhava para todos da mesma maneira.
(Foto de Marco Pedrosa)quero pedir uma coisa
já é teu e não peças só isso
já temos duas coisas e o dia mal começou
as folhas andam a pôr o chão de muitas cores vemo-nos com as cores do chão estamos adolescentes vamos soprar leve sobre as palmas das mãos folha a folha vamos ficar da cor das romãs
e entramos ligeirinhos em casa
Tenho trato com o vento. Ele traz-me os cheiros do meu amor e leva-lhe os meus recados. E faz muito bem o que tem de fazer. Se a porta está fechada, pára e espera com muita paciência. Não vai pela janela, que não é entrada das pessoas. Quando a porta se abre, vai devagarinho e sem barulho pôr uma flor na cama do meu amor. Leva o meu cheiro e umas gotas a reluzir.
(Foto de Marco Pedrosa)- Escuta isto do Daniel Faria:
”Se acender a luz
Não morrerei sozinho."
- Está bem. Mas, se apagar a luz, vejo mais para dentro e não preciso de fechar os olhos…
- Mas, assim, não dou conta de que também estás a olhar para mim. E, se pelo rabinho do olho, entrar uma ponta de luz…
- E é preciso?
- Quem olha gosta de saber que está a ser olhado!
- Não era da luz do Daniel que estávamos a falar?
- Mas eu não mudei de conversa!
- Pronto, vou acender a luz.
A manhã soprou doce, o chão trouxe as lembranças dos primeiros desejos e a tarde vai calma.
Vamos para o areal, para o sítio onde é costume chegar a ponta da maré. Aquela curva da rocha, onde, a princípio, a manhã nos acordava; era lá que vinha uma onda atrevida fazer cócegas nos corpos. Ríamo-nos: o mar a pensar que tínhamos gasto as forças todas e a querer continuar as carícias.
Vamos para o areal, por desejos que abençoem a tarde.
um pão que saiba a pão,
se a alegria não sabe,
um pão que saiba a sol
e ao mar do sal.
um pão que saiba a chão,
se a amor não sabe,
um pão que saiba a seiva
e a lábio de mulher.
um pão que saiba à mão
de quem o faz.
um pão que saiba,
mesmo que pouco, a paz.
António Rebordão Navarro, Longínquas Romãs e alguns animais humildes - Selecção e prefácio de Francisco Duarte Mangas - ASA
Dois gregos estão a conversar: talvez Sócrates e Parménides.
Convém que nunca saibamos os seus nomes; a história, assim, será mais misteriosa e mais tranquila.
O tema do diálogo é abstracto. Aludem por vezes a mitos, de que ambos descrêem.
As razões que alegam podem abundar em falácias e não chegam a um fim.
Não polemizam. E não querem persuadir nem ser persuadidos, não pensam em ganhar ou em perder.
Estão de acordo apenas numa coisa; sabem que a discussão é o não impossível caminho para chegar a uma verdade.
Livres do mito e da metáfora, pensam ou tentam pensar.
Nunca saberemos os seus nomes.
Esta conversa entre dois desconhecidos num lugar da Grécia é o facto capital da História.
Esqueceram a oração e a magia.
Jorge Luís Borges, Atlas; trad. de Fernando Pinto do Amaral (Obras Completas, vol. III. Editorial Teorema)
Hoje, comecei assim: no rosmaninho estava um passarinho morto. Pelas penas, era pintassilgo e deve ter sido caída dos primeiros voos.
Veio à memória aquilo de Catulo “passer mortuus est meae puellae”. Mas não, que aqui as bicadas dos pássaros querem-se na fruta das árvores e nas amoras…
Plantei o corpito ao lado do diospireiro; aquele que não chegou a ser músico é alimento da árvore trigo dos deuses.
E os diospiros que estão a tomar corpo devem trazer alguma música. Lá para os primeiros frios.
Quanto à observação de mim mesmo, obrigo-me a isso, quanto mais não seja para entrar em composição com este indivíduo junto do qual estarei forçado a viver até ao fim, mas uma familiaridade de sessenta anos comporta ainda muitas probabilidades de erro. No seu aspecto mais profundo, o meu conhecimento de mim próprio é obscuro, interior, inexpresso, secreto como uma cumplicidade. No seu aspecto mais impessoal, tão gelado como as teorias que eu posso elaborar acerca de números: emprego o que tenho de inteligência para ver de longe e de mais alto a minha vida, que se torna a vida de um outro. Mas estes dois processos de conhecimento são difíceis e requerem, um, uma penetração no nosso íntimo, outro, uma saída de nós mesmos.
Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano; trad. de Maria Lamas – Editora Ulisseia