28.2.09
O rio que corre à frente da minha casa é alegre.
A gente da minha rua diz que o rio é alegre
E eu digo com eles "o rio é alegre".
Há quem murmure fórmulas.
Outros cumprem deveres bizarros.
Vencido, o mundo jaz aos seus pés.
Mas a gente da minha rua não vê as coisas assim.
Olha, diz, o rio é alegre,
E eu, é verdade, digo com eles "o rio é alegre".
Quão lento, quão lento é o tempo!
Coisa que não pára de me causar espanto.
Entretanto, o rio corre,
O rio corre, sem perguntas
E sem as grandes ideias da rua.
Nem recordação nem ilusão provocam qualquer mudança no correr do rio.
E, ora, se uma vez ou outra por ventura não correr assim,
Que lhe seja perdoado.
(Arjen Duinker, A canção sublime de um talvez; Selecção e tradução de Arie Pos - teorema)
26.2.09
20.2.09
12.2.09
(…)
Só a beleza não é um meio para outra coisa. Só ela é boa em si mesma, mas sem que nela encontremos qualquer bem. Parece ser ela mesma uma promessa e não um bem. Mas nada oferece senão ela própria, não oferece nunca outra coisa.
(Simone Weil – Espera de Deus- Trad. de Manuel Maria Barreiros. Assírio e Alvim)
6.2.09
(…)
Abre sempre que quer, e fora de estação.
(Paul Celan; trad.: João Barrento)
Morrer em casa com a mesma calma com que partíamos o pão e o púnhamos na mesa.
Os filhos à volta e o cheirinho bom de quando lhes dávamos banho e nos sentávamos à ceia.
Boas lembranças para deixar e irmos adormecendo.
E os dois ou três amigos, que gostam de nós, a dizerem-nos até já,
para que a morte não venha fora de estação.
16.1.09
Preciso saber as que esqueci. E pegá-las como o mágico ao lencinho: dobra, esconde, mostra, e, dos dedos, o pano branco faz-se pássaro, papéis de brilho.
As palavras esquecidas imagino-as em carruagens paradas nos montes e foram as das minhas viagens.
Quero-as e aos desenhos que fizemos.
Vou encontrá-las e seremos pássaros brilhantes a voar para onde vai o vento.
Quero as palavras que esqueci.
Ainda hão-de estar nos seus lugares.
13.1.09
Valor das Palavras
Há palavras que fazem bater mais depressa o coração - todas as palavras - umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lugar de onde se ouvem - do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.
Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.
As palavras querem estar nos seus lugares!
Almada Negreiros - Andaimes e Vésperas
1.1.09
Nas asas duma pneumonia
Ordem do médico:
- boa alimentação e muitos líquidos; corpo descansado em bom aconchego. Vamos ter cuidado, não venha por aqui uma pneumonia!
Foi assim que fiquei , recostado numa cadeira de baloiço calmo, a olhar o lume.
Senti-me bem e com uma dormência d’alma, perto de quem sonha.
E disse a quem me ajudou a envolver-me no capote do tempo muito frio:
- deve ser engraçado ir ao céu nas asas duma pneumonia! Chegar lá e ver São Pedro “anda cá, vais ver gente de que gostas” e eu a dizer “já vejo”e a perguntar por uma Irene, aquela ‘Irene no Céu’:
-‘Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.’,
lembrado de Manuel Bandeira, e a querer saber novas dele.
Fui adormecendo, como quem chega ao céu nas asas duma pneumonia, quentinho e sem tosse.
26.12.08
14.12.08
Um Poema
(Foto de Marco Pedrosa)
Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos.
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.
Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim.
Minhalma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muito lindas pérolas
Jazem nas profundezas.
Heine, Tradução de Manuel Bandeira
(Hoje fui ver o mar, que estava nervoso, irrequieto. Lembrei-me disto.)
10.12.08
Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.
Na alegria, nós movemo-nos num elemento que está todo ele fora do tempo e do real, com presença perfeitamente real.
Incandescentes, atravessamos as paredes.
Cristina Campo: Os Imperdoáveis - Assírio & Alvim - Trad.: José Colaço Barreiros
4.12.08
TEMA E VARIAÇÕES
(Copiei este sono não sei donde)Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
Manuel Bandeira Opus 10
27.11.08
da noite e da Luz

*
de noite o tempo divide-se
metade da alma é borboleta
e o resto não sabe ser a flor
nas veredas
os olhos perdem a flor-nome
fica muito pobre
*
A aurora é espelho de água
as flores sábias lençóis do orvalho
do dormir e acordar claro.
Bendito seja o sorriso largo
jardim nítido das nossas casas
flores e frutos de nome cheio.
17.11.08
15.11.08
Conversitas

- Há luz nas hortas e as abelhas ainda cantam na tília.
Apetece-me: vamos passear a alma!
- E que fazemos do corpo?
- Mas alguma vez ficou para trás?
- A tília é sol mel sereno ainda.
Vamos pelos campos fora?
- É isso! Vamos pelo mel...
- E pelo chão de marcela...
- Com bocas de brilho e doçura nos olhos...
27.10.08
Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha
Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.
(Manuel Bandeira)
Quando tenho vontade de morrer
precisado de ir embora
fito os pássaros e as nuvens
sentado no sol dormente.
Duas pancadinhas nas costas
e mãos a abraçar-me os olhos
o sol fica novo
vamos raptar a luz
Ó maninha Ó maninha.
19.10.08
Ao pôr do sol começou a levantar-se um vento que fez amotinar as areias da praia; a chuva repentinamente começou a cair e ocultou o monte Chokai. Disse para mim mesmo que, se apaisagem com chuva era formosa, sê-lo-ia também sem ela. Com esta ideia pernoitámos na cabana de um pescador, esperando que a chuva cessasse.
No dia seguinte, pela manhã, o céu estava limpo.
(Matsuo Bashô; O Caminho Estreito para o Longínquo Norte - Versão de Jorge de Sousa Braga - Fenda)
17.10.08
Conversitas
- Está-se sempre inteiro nos sítios para onde os humores nos levam.
- A janela aberta diz-nos como está o tempo.
- O sol engole o escuro e tira os cheiros a mofo.
- Está-se sempre todo nos sítios dos amores.
- O tempo julga que a janela é cega.
- Só o sol faz o dia e perfuma os vestidos e os corpos.
- Quem vai calar-se primeiro?
- Pois é! Quem?
- Os corpos já estão perfumados?
6.10.08

Deixei cair uma lágrima na alfazema.
Até onde irá o cheiro roxo grená?
O quintal todo tem ar novo. É da água nas flores, e
ai Deus, que caminho vai levar?
Hei-de querer a força da água, que corre da chuva, e volta à terra.
Ai Deus, e que venha cedo,
e outra lágrima cairá na alfazema, e no alecrim, e na romã,
e o tempo novo,
ai Deus, venha cedo!
3.10.08
O Sentido da Simplicidade
Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.
A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.
Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra,
(Yannis Ritsos - Trad. de Eugénio de Andrade: Trocar de Rosa)
2.10.08
FIDELIDADE

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
(Jorge de Sena)
22.9.08
19.9.08
Das cores
Das cores e da luz já sabes
e das plantas - crescem
amorrinham
como Deus quer.
Setenta vezes sete são as amoras
e as promessas do diospiro.
Ponho na mesa o vinho da refeição,
calculada cada coisa pelo tamanho da alegria.
As amoras estão vermelhas e as framboesas.
E o mirtilo parece garoto negro a sorrir.
A romã vai ter sorrisos vermelhos,
fogo doido, sol perdido.
E
vamos ficar lambuzados
mãos caras olhos narizes
bocas.
Como Deus quer e nós também.
14.9.08
O Riso de Deus
Imaginei um Deus com um enorme sorriso - aquele sorriso da Rita ampliado à dimensão do tempo da história, desde o homem das cavernas até ao dia em que realizasse o tal projecto pressentido. Disse-lhe:
- Rita: eu acho que Deus tem assim um sorriso como o teu quando nos vê amargurados...
- E eu acho que ele se ri mas é daqueles que andam por aí, muito contentes e convencidos, a fazerem o mundo como está...
Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:
- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé...
(António Alçada Baptista; O Riso de Deus)
13.9.08
Cartas da tarde
Há cartas que são ridículas, mas gosto de cartas e não me interessa se são ridículas.
Sinto-as e depois é como estivesse a ditá-las.
Demoro porque as palavras levam muito tempo a chegar. E também, quando as leio, quero gostar das palavras tanto como mais alguém vai gostar.
Sinto-as.
Às vezes, não são bem as esperadas. São como aquelas linhas da criança a quem se pede "Desenhe uma flor".
1.9.08
"das coisas verdejantes" (Com Elytis)
"Hei-de fazer-me monge * das coisas verdejantes",
criança que ri depois de lhe soprarem no dedo magoado.
"Humilde servirei * a ordem dos pássaros",
no voo e poiso por o espírito ainda não saber ser puro.
"Pela noite virei * às matinas dos figos",
flores-fruto, água-brilho,
frescura de noites duras, pão d'algumas manhãs.
Hei-de ser,
"Molhado de orvalho",
bolinha de sabão no alguidar da roupa branca
onde se conhece e ganha
a inocência,
"O ciano * o vermelho o roxo"
perdidos no fogo das
"meninas sem mancha".
Ele, o fogo, mais poderoso.
Eu, pouco robusto, a querer as cores das
"coisas verdejantes",
vestimenta simples dos pássaros
louvada seja.
9.8.08
É lindo o entardecer
-que passo o dia a preparar a calma do entardecer
-que saio do caminho para não perturbar as formigas; que trabalham e não sabem para quê
-que me escondo para que os pardais façam arraial na comida que lhes dou.
Quando me fizerem as perguntas do fim, hei-de ter desculpa
-que, logo de manhã, espreito o sol e o bendigo e a tudo que vai ter luz
-que tiro o chapéu diante das alminhas da aldeia pintadas na pedra e com flores de plástico à frente
-que olho para o lado para que os namorados sigam o seu caminho e verdade
-que namoro com a verdade toda inteira.
Quando me fecharem os olhos, hei-de ter desculpa
-falei de alto aos abusadores
-bati nos vendilhões dos templos
-nunca me pus de joelhos
-não me ponho de cócoras, cuspo nos hipócritas e outros exploradores.
-A água das fontes é o meu espelho, "mesmo se é noite".
E se, naquela altura, não tiver desculpa, hei-de dizer:
-vossemecê não presta
-tem a ruindade da serpe que, em tempos, pôs no tal Éden.
Está a parecer-me que vou ser respondido assim:
anda cá, rapazinho
há muito tempo que ninguém me fala assim.
Vais-me desculpar.
E eu vou dizer:
já sabia!
e é lindo o entardecer, não é?
8.8.08
16.7.08
11.7.08
6.7.08
BEM-AVENTURANÇAS
Bem-aventurados os pássaros,as nuvens, as madrugadas.
Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.
Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.
Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
ali existem.
Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.
A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as acções com elas,
os pensamentos arriados.
Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda,
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.
Bem-aventurados os pássaros!
(Carlos Nejar)
28.6.08
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
(José Luís Peixoto; a criança em ruínas)
20.6.08
16.6.08
Cartas da tarde
17.5.08
14.5.08
Cartas da tarde
7.5.08

- Querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça. Resigna-te a ser infeliz, e serás o mais feliz que podes ser.
- Por que te ris? Nós só rimos do que não compreendemos.
- Põe compaixão no teu desprezo, se desprezares; mas não desprezo na tua compaixão, se te compadeceres.
- Se és poeta, escuta esta máxima: Que a emoção provoque a tua imaginação, não a tua imaginação a tua emoção.
José Régio; Páginas do Diário Íntimo - IN-Casa da Moeda
(A capa reproduz desenhos de Régio)
30.4.08
Et un Sourire
La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.
(Paul Éluard)
20.4.08
Girassol

O casulo da larva recebe a morrinha e o sol em silêncio igual. Vai ser voo e cor, visita da luz e das flores.
O coração conhece os cheiros e as cores e não se perde nos caminhos.
Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
(René Char)
Assim de madrugada, noite já cor de borboleta, sê casulo ainda que de borboleta nocturna e só de uma manhã.
16.4.08
A Anunciação
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...
(Vinícius de Moraes)
12.4.08
- Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
- Verdes?
- Sim. Eu pensava…Pelo menos não podia pensar que não tivesses…E que não tivesses sido salva, por mim, do fogo!
- Do fogo?
- Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
- Enfermeira?
Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.
- Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo…Mas nada disso sucedeu.
Rosabianca apertou-lhe o braço com força.
- Giovanni! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
- E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
- Sim, se queres serei a tua enfermeira.
- Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado, que eu vou deitar fogo à casa.
(Augusto Abelaira; A Cidade das Flores - vigésimo nono quadro)
3.4.08
Cartas da tarde
Passaram os ruídos do costume: as latas na carrinha do trolha, o camião do lixo, o padeiro.
amemos o riso, os olhos, as mãos e os passeios no regresso dos rebanhos prenhe de manhãs.
21.3.08
Introdução ao Canto
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.
Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.
Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.
(Eugénio de Andrade, Coração do Dia)
18.3.08
Na Baía de Faro (com um poema de Elytis)
“Abro a minha boca * e o mar se regozija”
(Em “Louvada Seja – Áxion Estí”)
Abro os olhos e a água sem rugas traz desenhos que lhe desenhei, de pele lisa ainda, a minha. Julgava-os delidos.
O mar guardou-os e está a pôr uma a uma as pétalas no pé donde, bem-me-quer-mal-me-quer, em anos verdes as fui soprando em desenhos de abandono.
Se fosse de pôr flores no cabelo como os amantes, ainda iria recolhê-las, bem me quer.
Eu, amante imperfeito.
Água-céu de Faro, Áxion Estí.
8.3.08
Porque procuro ser lúcido
5.3.08
MANHÃ, ERGO COGITO
24.2.08
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)
21.2.08
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
(Alberto Caeiro)
20.2.08
Conversitas
- Nota-se? Palavras vagas e olhos cor das nuvens de chuva?
- Isto de responder com perguntas e de viés...
- As palavras não levam a humidade materna? Vamos às fontes e examinamos a água!
- Às que te moram no peito?
- E pode-se arrumar o coração?
- Não tens emenda!
- Vou subir às nascentes e hei-de perceber as flores do meu quintal.
- Não demores!
- Estafermozinho!
13.2.08
Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar.
Mia Couto, Mar me quer
11.2.08
Cartas da Tarde
4.2.08
Poema sobre a Canção da Esperança
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.
Álvaro de Campos
31.1.08
A Espera
(…)
Existe uma cenografia da espera (…)
O cenário representa o interior de um café; marcámos um encontro, estou à espera. (…).
A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer. A espera de um telefonema tece-se, assim, de pequenas proibições, que vão até ao infinito, até ao inconfessável: impeço-me de sair da sala, de ir aos lavabos, até mesmo de telefonar (para não ocupar o aparelho); sofro se me telefonam (pele mesma razão); desespero-me a pensar que, a tal hora, terei de sair, arriscando-me assim a faltar ao apelo benfazejo, ao regresso da Mãe. Todas estas diversões que me atraem seriam momentos perdidos por causa da espera, das impurezas da angústia. Pois a angústia da espera , na sua pureza, exige que eu esteja sentado num café, ao lado do telefone, sem fazer nada.
(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso; edições 70)
26.1.08
Quando tenho a alma suja,
já não vou pelos padres santos do deserto que
castigavam o corpo.
(Conheci um monge que me contou que, no tempo em que castigava o corpo, se sentia todo sujo e não sabia da alma.
Que tomava um banho e até pensava que a água era a alma a morar-lhe nos olhos.)
Às vezes a alma vai suja
como sangue violentado em linho que já foi limpo.
(O monge falou-me do Cântico dos Cânticos, mas dizia sempre “sabes, deve ter sido lindo, mas foi há muito tempo. Gosto de ler, mas basta-me a água que me lava”.)
Já experimentei:
- sentar-me a comer chocolates e a metafísica gargalhou…
- ficar no banco do jardim; as aves nem me viram…
- etc.
(Recordo-me de que o monge dizia sempre o que devia e não usava etc. Não precisava: um minutinho dele a falar era do tamanho da música das estrelas.)
Vou fazer assim:
amanhã, o Sol nasce como sempre fez
vou sentar-me a olhá-lo
atrás dele vêm os pássaros.
(Aprendi isto por mim.)
E ainda vou fazer:
deixar-me voar, voar e ir com eles:
eles viram quem me falta e novas me hão-de dar.
E a alma vai ficar limpa lençol de linho.
22.1.08
A VIAGEM DEFINITIVA
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.
Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.
(Juan Ramón Jiménez - Trad. de Manuel Bandeira)
15.1.08
13.1.08
1
As manhãs andam coalhadas.
O códão é navalha a abrir a terra, mas a geada estende-se a receber o sol.
2
E também deve haver uma maneira quase matinal de fazer das palavras manto estendido onde se acorde criança a aprender a balbuciar os dias.
3
E também deve haver um banco de pedra no entardecer onde se goste de ver o dia todo, parando os olhos onde apetecer.
8.1.08
Conversitas
6.1.08
O miúdo que vende jornais naquela cidadezinha de província parada pacata patega é a primeira coisa que se vê na cidade, parada pacata patega. Quando chega o comboio da noite, a voz do pequeno ardina (que não tem pai nem mãe) corre pelas ruas e praças espanta a passarada bate nos prédios faz abrir portas e janelas fura a escuridão
saem gritos dos seus olhos a sua cara de menina pede beijos e carícias uma ternura diferente
as pessoas compram-lhe o jornal porque não podem comprar o silêncio do pequeno órfão e toda a cidade é um remorso inexplicável, inexplicável. Irás comigo, irmão, para a próxima jornada. Até ao Outro Lado, seremos dois.
(Luiz Pacheco - Os Namorados)
2.1.08
Lembro-me bem.
O Menino Jesus tinha-me dado três berlindes. Um, muito vermelho; o outro, quase verde. Gostava mais do que tinha tantas cores como o vestido que a minha mãe às vezes levava à missa.
No chão estava uma manta para eu brincar.
Lembro-me de ter brincado como vou contar.
Segurava os berlindes na mão esquerda. Depois, poisava um e dizia o pai está aqui. Com muita atenção, media três palmos e punha outro que era a mãe. Antes, deixava um sopro em cada um. O outro era eu e não tinha sítio certo. Às vezes até ficava seguro nos dedos. Depois de olhar muitas vezes, ia pondo, aos saltinhos, o pai de encosto à mãe.
E, quase a dormir, lembro-me bem, levavam-me para a cama e olhava pelo canto do olho.
Os três berlindes estavam encostadinhos.
30.12.07
Os Amigos
24.12.07
22.12.07
20.12.07
17.12.07

(Senhora com o Menino Salvador do Mundo-Cerejais)
Não choreis, belo Menino,
Se de amante vos prezais,
Porque amor que chora mais
É sempre amor menos fino.
Limpai o vosso rosto divino
A quem a minh’alma adora,
Que se a vossa Mãe vos chora,
Meu Deus, com tantos rigores,
É porque ao nascer das flores
Costuma chorar a aurora.
Jerónimo Vaía (n. 1620/30; m. 1688)
15.12.07
(Foto de Marco Pedrosa)No fundo do quintal não há rumores de água, mas uma manhã de sol ainda vai trazer os solfejos esperados
mesmo nas asas dos corvos.
Acodem corvos de asa arrastada, mas voam brilhantes como música.
13.12.07
11.12.07
8.12.07
Em pequenito de escola, escondi debaixo do jornal que forrava a gaveta da cómoda um papel:
“…, gosto dos teus olhos e da maneira como andas” .
O papel não lhe chegou aos olhos (…a minha irmã mais velha ainda hoje diz que não foi ela – lá em casa dizia-se que eu ia para padre…) e deve ter sido bom.
Uma vez, olhei-a muito e disse-lhe pareces uma cigana.
Já sabia que não era só pelos olhos: era linda a andar e não soube dizer-lho.
Ela zangou-se e comecei a dar-me conta de que olhava para todos da mesma maneira.
4.12.07
(Foto de Marco Pedrosa)Queria ter a posição dos claustros
A posição do monge antigo que os varre
A posição do moribundo que pergunta as horas
A posição das árvores quando as crianças sobem
A posição dos ramos quando os ninhos nascem
A posição de alguém que já não mora. Queria
Como se tivesse
A posição da casa e alguém me visitasse
Daniel Faria; Dos Líquidos















