25.8.10

POUR QU'UNE FORÊT...

Pour qu'une forêt soit superbe
Il lui faut l'âge et l'infinit.
Ne mourez pas trop vite, amis
Du casse-croûte sous la grêle.
Sapins qui couchez dans nos lits,
Éternisez nos pas sur l'herbe.

(René Char)

20.8.10


Colhe uma flor
se o sol vai duro
e não tenhas pressa.

Vêm aí os pássaros dos jardins.

16.8.10

As amoras são negras
e choram orvalho.

Sim, filho, são lindas,
as framboesas também.

Os teus olhos são negros
e as framboesas não choram.

Filho,
tenho olhos de amora.

E muito brilhantes,
gotinhas de orvalho.

Filho,
os meus olhos são amoras.

Os nossos olhos são amoras
e as manhãs são lindas.

24.7.10

Despegam-se das raízes as palavras,
escamas cansadas;
não nos levem a alma,
ao menos, Senhor.

Como a farinha se livra do cisco.

19.7.10

hoje não quero grande coisa
basta ficarmos assim

ontem as estrelas eram um deus dará
e foram grandes as coisas que quisemos

hoje o céu tem estrelas veladas a dizerem
só nos damos como desejamos

e amanhã vou dizer
hoje não quero grande coisa

e o céu vai ouvir
basta ficarmos assim

6.7.10

uma folhinha seca
na borda da água
o menino a olhar
olhos negros e grandes

céu de chumbo
mergulhado no tanque

silêncio pardo
na mesa já posta,
talheres ainda novos,
e um bilhete postal antigo.

2.7.10

CANCIÓN


Álamo Blanco


Arriba canta el pájaro,
y abajo canta el agua.
- Arriba y abajo,
se me abre el alma - .

Mece a la estrela el pájaro,
a la flor mace el agua.
- Arriba y abajo,
me tiembla el alma -.

-Juan Ramón Jimenez; Antología poética; Edición de Javier Blasco
Catedra - Letras Hispánicas .
Os velhos vão pelos campos a juntar recordações.

Dizê-las é a herança poema,
lume novo dos filhos.

29.6.10

Não digas as palavras todas.
Lembrei-me de to pedir há bocado, ao catar o jardim.
Vi um bicho de conta; toquei-o.
Encolheu-se e entendi-lhe o medo.

Fiquei a pensar nas conversas dos amantes.
O essencial é percebido quando cada um se recolhe ao seu leito:
eu amo-te.

E os corações batem muito depressa.

25.6.10

Estuda como os telhados se inclinam
e percebe a força da chuva.

Escolhe depois onde morar.

15.6.10

Às vezes, as palavras caem-nos,
feridas expostas.
É preciso trabalhá-las à navalha
até vermos sangue,
limpo do pus.

8.6.10


Sente-se na minha frente.
Isso, um bocadinho de lado,
é melhor assim.
O perfil da boca fala melhor que os olhos.

Os olhos são muito sabidos,
olham e sabem-se olhados,
conhecem a arte de fingir.

A fissura dos lábios é de nervo rijo,
ri ou chora quando precisa,
não quando deve.

Olhos nos olhos é uma treta;
conhecem a conveniência do momento;
assaltam-se ou afastam-se
não se vê se por gosto se a contra-gosto.

É preciso saber muito para entender os olhos nos olhos.
Sou ignorante. Também tenho medo.

Assim, já está bem.
Estou a ver.

Vou guardar a imagem na pele.

Agora
sento-me eu,
também de lado.

Pode olhar.
Veja como é firme
a fissura dos lábios.

6.6.10

Fui ao vale de algum do meu crescimento e cruzei-me com um monge. Levava o cântaro do leite para os irmãos mais idosos.

Trazia os olhos no chão, mas tratei-o pelo nome.

Que festa de reencontro e conversa comprida!
Conversámos como há muitos anos, pouco mais que adolescentes.

O monge recolheu-se.
Levava uma ponta da alegria difícil de ler.

Ainda lhe conheço algumas letras.

4.6.10


No apagues, por Dios, la luz

Que arde dentro de mí mismo...

(Juan Ramón Jiménez)

O sol só cumpre o dever
de vir sempre a seguir à noite
não é da manhã luz materna...

não tem ouvidos nem olhar
velaste e a luz não sabe
descansas o sol não deu conta.

A luz arde dentro de ti.

A alba perfuma as flores
por ser de ambas a condição
como o branco é da geada...

sorrirem-te as madrugadas
é da quentura do teu sangue...
não vás por luzes andadeiras.

31.5.10

O vento
a modelar a seara

o cheiro do vinho novo
na hora do descanso

Corpo bonito.

25.5.10

As Poupanças

Na realidade enganaste-me,
depositei o meu amor em ti
como numa caixa forte,
e que aí estaria sempre, dizias,
até que viesse buscá-lo.

Faliste, involuntariamente, é certo
(amor e morte são tão involuntários!)
não há ninguém no teu escritório e levaste
todas as minhas poupanças deixando-me as tuas.
Não sei que fazer com elas, é o que é,
nem com toda essa fé que tinhas no mundo.

(Jordi Virallonga; Quanto sei de mim - Tradução de Carlos Veiga Ferreira; teorema)

20.5.10

Não receies a aspereza das espigas.
O imigrante
não o afligem as línguas bárbaras
dos seareiros
e dança a música dos ventos.

Como o mar bravo:
a praia fica bêbeda
de espuma.

E o tempo:
a tarde vai linda,
limpou-a a trovoada.

As espigas são flores escondidas
mulheres grávidas de pão.

17.5.10

Levas a leviandade de quem caminha em chão maduro.
Atiro-te sementes de pássaro, ó coisa distraída.

24.4.10

Abril é outro tempo,
luz aberta
lembranças de repouso,
parece.

Nalgumas tardes, nesgas de sol,
dá vontade de chamar
mãe, anda cá, vem sossego desta luz,
igualinha às tuas mãos quando eu chegava da escola.

O tempo é o que é
e a luz não se entrega,
é assim.

Mãe, deixa lá,
só queria um poema como o das tuas mãos.

9.4.10


Ao chegares, não digas
cheguei.

Entra devagarinho.