29.10.10


Amanhã
vou esquecer os diospiros do outono
olhares afeiçoados
(refeições no terraço)
pássaros azuis
o som limpo das vogais;

talvez faça um poema sério
palavras mesuradas
(sintético eficaz)
de pensamentos profundos
e sons exactos;

e vou estar louco
ou morto.

10.10.10

Tenho por destino a luz das algas
e corro pelas montanhas
à vista das marés cheias

guardei o lume dos teus vestidos
em sítio abrigado dos ventos.

18.9.10

As palavras levam a vertigem das falésias, as carícias do mar
e o mosto engenhoso em que levedaram.

Lê-as com a atenção do marinheiro,
também no silêncio do provador de vinho.

As palavras também são desenhos dos meninos no bafo das janelas.
E as janelas são mar de vidro para as crianças sonharem.

11.9.10


Sento-me à porta do campo
e meço o tamanho do silêncio

25.8.10

POUR QU'UNE FORÊT...

Pour qu'une forêt soit superbe
Il lui faut l'âge et l'infinit.
Ne mourez pas trop vite, amis
Du casse-croûte sous la grêle.
Sapins qui couchez dans nos lits,
Éternisez nos pas sur l'herbe.

(René Char)

20.8.10


Colhe uma flor
se o sol vai duro
e não tenhas pressa.

Vêm aí os pássaros dos jardins.

16.8.10

As amoras são negras
e choram orvalho.

Sim, filho, são lindas,
as framboesas também.

Os teus olhos são negros
e as framboesas não choram.

Filho,
tenho olhos de amora.

E muito brilhantes,
gotinhas de orvalho.

Filho,
os meus olhos são amoras.

Os nossos olhos são amoras
e as manhãs são lindas.

24.7.10

Despegam-se das raízes as palavras,
escamas cansadas;
não nos levem a alma,
ao menos, Senhor.

Como a farinha se livra do cisco.

19.7.10

hoje não quero grande coisa
basta ficarmos assim

ontem as estrelas eram um deus dará
e foram grandes as coisas que quisemos

hoje o céu tem estrelas veladas a dizerem
só nos damos como desejamos

e amanhã vou dizer
hoje não quero grande coisa

e o céu vai ouvir
basta ficarmos assim

6.7.10

uma folhinha seca
na borda da água
o menino a olhar
olhos negros e grandes

céu de chumbo
mergulhado no tanque

silêncio pardo
na mesa já posta,
talheres ainda novos,
e um bilhete postal antigo.

2.7.10

CANCIÓN


Álamo Blanco


Arriba canta el pájaro,
y abajo canta el agua.
- Arriba y abajo,
se me abre el alma - .

Mece a la estrela el pájaro,
a la flor mace el agua.
- Arriba y abajo,
me tiembla el alma -.

-Juan Ramón Jimenez; Antología poética; Edición de Javier Blasco
Catedra - Letras Hispánicas .
Os velhos vão pelos campos a juntar recordações.

Dizê-las é a herança poema,
lume novo dos filhos.

29.6.10

Não digas as palavras todas.
Lembrei-me de to pedir há bocado, ao catar o jardim.
Vi um bicho de conta; toquei-o.
Encolheu-se e entendi-lhe o medo.

Fiquei a pensar nas conversas dos amantes.
O essencial é percebido quando cada um se recolhe ao seu leito:
eu amo-te.

E os corações batem muito depressa.

25.6.10

Estuda como os telhados se inclinam
e percebe a força da chuva.

Escolhe depois onde morar.

15.6.10

Às vezes, as palavras caem-nos,
feridas expostas.
É preciso trabalhá-las à navalha
até vermos sangue,
limpo do pus.

8.6.10


Sente-se na minha frente.
Isso, um bocadinho de lado,
é melhor assim.
O perfil da boca fala melhor que os olhos.

Os olhos são muito sabidos,
olham e sabem-se olhados,
conhecem a arte de fingir.

A fissura dos lábios é de nervo rijo,
ri ou chora quando precisa,
não quando deve.

Olhos nos olhos é uma treta;
conhecem a conveniência do momento;
assaltam-se ou afastam-se
não se vê se por gosto se a contra-gosto.

É preciso saber muito para entender os olhos nos olhos.
Sou ignorante. Também tenho medo.

Assim, já está bem.
Estou a ver.

Vou guardar a imagem na pele.

Agora
sento-me eu,
também de lado.

Pode olhar.
Veja como é firme
a fissura dos lábios.

6.6.10

Fui ao vale de algum do meu crescimento e cruzei-me com um monge. Levava o cântaro do leite para os irmãos mais idosos.

Trazia os olhos no chão, mas tratei-o pelo nome.

Que festa de reencontro e conversa comprida!
Conversámos como há muitos anos, pouco mais que adolescentes.

O monge recolheu-se.
Levava uma ponta da alegria difícil de ler.

Ainda lhe conheço algumas letras.

4.6.10


No apagues, por Dios, la luz

Que arde dentro de mí mismo...

(Juan Ramón Jiménez)

O sol só cumpre o dever
de vir sempre a seguir à noite
não é da manhã luz materna...

não tem ouvidos nem olhar
velaste e a luz não sabe
descansas o sol não deu conta.

A luz arde dentro de ti.

A alba perfuma as flores
por ser de ambas a condição
como o branco é da geada...

sorrirem-te as madrugadas
é da quentura do teu sangue...
não vás por luzes andadeiras.

31.5.10

O vento
a modelar a seara

o cheiro do vinho novo
na hora do descanso

Corpo bonito.

25.5.10

As Poupanças

Na realidade enganaste-me,
depositei o meu amor em ti
como numa caixa forte,
e que aí estaria sempre, dizias,
até que viesse buscá-lo.

Faliste, involuntariamente, é certo
(amor e morte são tão involuntários!)
não há ninguém no teu escritório e levaste
todas as minhas poupanças deixando-me as tuas.
Não sei que fazer com elas, é o que é,
nem com toda essa fé que tinhas no mundo.

(Jordi Virallonga; Quanto sei de mim - Tradução de Carlos Veiga Ferreira; teorema)