Agora medirei o tempo
Pela vara erguida ao meio dia
Pela areia a descer o coração
E o sono
Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope
Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
a firmeza dos seus pés
Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã
Daniel Faria; Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão, Porto, 1998
2.1.11
31.12.10
Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa
(Cavafy; trad. de Jorge de Sena)
Não fui de aventuras longas,
mas amei os caminhos até ao mar.
Os montes olhei-os
a ler os segredos das nuvens.
Do respigo nos campos de Booz
só pedi pão na medida exacta.
Das pessoas vi a graça
e sorri-lhes desprendido.
Merquei as pérolas que desejei,
por saber querer só o que quero.
Os perfumes rodearam-me,
e colhi os que o corpo desejou.
Destinei destino esplêndido
qualquer mar e seu infinito,
como me aceitei hóspede bem recebido
no monte e a montanha que seguia.
Passageiro com destino,
marco os passos sem pressas,
que o fim da viagem é o que se caminha
e não a meta que se passa.
Meditei na água de muitas chuvas,
percebi da sede a causa e o remédio,
e, por serem "muitas as manhãs de Verão",
às vezes sento-me na festa do céu azul.
deves orar por uma viagem longa
(Cavafy; trad. de Jorge de Sena)
Não fui de aventuras longas,
mas amei os caminhos até ao mar.
Os montes olhei-os
a ler os segredos das nuvens.
Do respigo nos campos de Booz
só pedi pão na medida exacta.
Das pessoas vi a graça
e sorri-lhes desprendido.
Merquei as pérolas que desejei,
por saber querer só o que quero.
Os perfumes rodearam-me,
e colhi os que o corpo desejou.
Destinei destino esplêndido
qualquer mar e seu infinito,
como me aceitei hóspede bem recebido
no monte e a montanha que seguia.
Passageiro com destino,
marco os passos sem pressas,
que o fim da viagem é o que se caminha
e não a meta que se passa.
Meditei na água de muitas chuvas,
percebi da sede a causa e o remédio,
e, por serem "muitas as manhãs de Verão",
às vezes sento-me na festa do céu azul.
21.12.10
17.12.10
poema mínimo
palavras para um poema…
inscritas antes de nascer
chamam: sineta de orada
caminham: regresso à festa
ao orvalho criador
ovelhas:
regresso aos bardos
ao tempo imperceptível
inscrito antes de nascermos
e subindo já a morte
inscritas antes de nascer
chamam: sineta de orada
caminham: regresso à festa
ao orvalho criador
ovelhas:
regresso aos bardos
ao tempo imperceptível
inscrito antes de nascermos
e subindo já a morte
28.11.10
22.11.10
18.11.10
10.11.10
"Desamparinho" é palavra que, no "Milagrário" de Agualusa, é a da
"hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas."
Desamparinho fica bem à gente.
É que a manhãsolinho há-de vir de cara macia mas luz mortiça por causa da noite triste.
Até temos vontade de guardar a luz tristelinda, desamparinho que nos demora o entardecer.
Desamparinho é palavra mimosa. Luz manselinha.
"hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas."
Desamparinho fica bem à gente.
É que a manhãsolinho há-de vir de cara macia mas luz mortiça por causa da noite triste.
Até temos vontade de guardar a luz tristelinda, desamparinho que nos demora o entardecer.
Desamparinho é palavra mimosa. Luz manselinha.
6.11.10
3.11.10
29.10.10
10.10.10
18.9.10
25.8.10
16.8.10
24.7.10
19.7.10
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