No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.
Soledade Santos; "Sob os Teus Pés a Terra"; Artefacto
14.7.11
12.7.11
(Criança assombrada de noite mal dormida, a neblina encharca-lhe os olhos, jardim pasto informe, mar ilegível, remoinho a espantar as raízes)
Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.
Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.
Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.
Boa tarde,
mão varredora das nuvens.
Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.
Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.
Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.
Boa tarde,
mão varredora das nuvens.
8.6.11
30.5.11
21.5.11
Ouve-se ao longe
tenho pés de vento
sou cavalo solto crina de muitas cores
a voar por cima dos prados.
Olho os campos inocentes,
breves.
Nota: esta fotografia foi-me dada e vinha assim:
O que de relance parece liberdade é prisão.
A casa, outrora verde,
cinzenta veloz, já nem vemos.
Ficou parada nos relâmpagos
que arrastam a solidão...
(Obrigado, Tiago)
7.5.11
(Foto de Tiago Silva)
Co'a candeia de estrelas * saí rumo aos céus
(Elytis)
Nos dias de acordar cedo,(Elytis)
o pinheiro do quintal aleija a memória.
De noite, estirou-se sem jeito.
Único sonho sério, examino-o,
e vejo as palavras, peças de roupa,
as que nos vestiram e as da transparência,
a abanar, doidas indefinidas,
sons e sentidos versáteis, alados. Informes.
Tão longe das nascentes.
Que fazer da frescura dos prados
e das palavras que organizámos?
5.5.11
Diurno
Eternas são as tardes
em que o cheiro da maresia
se pendura nos cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro das vagens
entre os lábios é como
outros lábios carnudos.
Soledade Santos; Sob os teus a terra - Artefacto
em que o cheiro da maresia
se pendura nos cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro das vagens
entre os lábios é como
outros lábios carnudos.
Soledade Santos; Sob os teus a terra - Artefacto
1.5.11
27.4.11
16.4.11
7.4.11
1.4.11
À mesa
- Avô, sou um pirata sem cara de mau.
- Mas tu és menina.
- Sou um pirata, avô.
- Pronto, és pirata.
- Sou um pirata, avô. Como na escolinha. Sou um pirata.
- Desculpa, esquecia-me.
És um pirata, e não tens cara de pau, nem perna de má.
- Avô, cara de mau, esqueceste-te.
- Não precisas de gritar, menina. Os piratas não berravam.
- Avô, os piratas não falavam alto porquê?
- Posso explicar baixinho?
- Porquê baixinho?
- Os piratas também falavam assim.
- Está bem.
- À roda dos piratas o vento nunca parava.
E era o vento que levava as palavras de umas pessoas para as outras.
Pegava as palavras com muito jeitinho.
Segurava-as pelos dedos e ia-as levando até aos barcos dos outros.
O vento sabia que as palavras gostam de mudar de sítio.
E os outros sabiam as ideias dos piratas.
- Avô, não acredito nisso, mas a história é bonita.
- E é.
- Avô, é bom jogar ao faz de conta.
- Mas tu és menina.
- Sou um pirata, avô.
- Pronto, és pirata.
- Sou um pirata, avô. Como na escolinha. Sou um pirata.
- Desculpa, esquecia-me.
És um pirata, e não tens cara de pau, nem perna de má.
- Avô, cara de mau, esqueceste-te.
- Não precisas de gritar, menina. Os piratas não berravam.
- Avô, os piratas não falavam alto porquê?
- Posso explicar baixinho?
- Porquê baixinho?
- Os piratas também falavam assim.
- Está bem.
- À roda dos piratas o vento nunca parava.
E era o vento que levava as palavras de umas pessoas para as outras.
Pegava as palavras com muito jeitinho.
Segurava-as pelos dedos e ia-as levando até aos barcos dos outros.
O vento sabia que as palavras gostam de mudar de sítio.
E os outros sabiam as ideias dos piratas.
- Avô, não acredito nisso, mas a história é bonita.
- E é.
- Avô, é bom jogar ao faz de conta.
27.3.11
"Houve uma tarde e uma manhã:foi o terceiro dia"(Génesis, I,11)

"Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar"
(Daniel Faria, Explicação das Árvores e Outros Animais)
A mulher descansa a meio da manhã,
Deus a respirar no terceiro dia,
o das ervas verdes com sua semente,
e das árvores sem malícia.
Sentada no campo, governa o dia,
que a noite e seu exército ainda tarda.
Dentro do dia é assim a mulher,
semente de árvores não perversas,
que o ventre da luz não é do bem nem do mal
nem conhece os abismos da noite.
A mulher guarda as manhãs dentro da luz.
22.3.11
16.3.11
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
(Ricardo Reis)
Sentemo-nos na mesa de madeira, feita à tarde,
virada à aurora.
Enlaça os dedos,
as rosas frescas que restam;
e os olhos vejam o mesmo sol.
Procuremo-nos as mãos,
ternura dividida,
espanto de criança no mar infinito;
sentemo-nos silenciosamente.
Dos dedos fluam os rios até ao mar,
e tarde o inverno;
fiquem-nos estas rosas,
bocas roxas de vinho.
Enlacemo-nos. Silêncio.
O outono seja ainda nosso,
sentados ao pé um do outro.
O dia ainda vai nítido,
aurora cor-de-rosa.
12.3.11
Secas, bailam folhas sobre a relva e
o lençol tranquilo da geada
é uma canção do outono.
Integral, a noite:
no vento
no frio
no luar pacificado.
Aires Montenegro; Oferenda Oriental - Palimage - Coimbra, 2011
o lençol tranquilo da geada
é uma canção do outono.
Integral, a noite:
no vento
no frio
no luar pacificado.
Aires Montenegro; Oferenda Oriental - Palimage - Coimbra, 2011
Ontem, estive na apresentação de poesia do meu amigo Aires Montenegro - o Aires tem um blogue: http://apedraqueurra.blogspot.com/
Oferenda Oriental é poesia fio d’água, flores de pessegueiro, paz procurada.
2.3.11
15.2.11
Sítio
No cimo do choupo restam três folhas
solitárias, só três:
quietas cinzentas ao vento à chuva.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
- Soledade Santos ; Sob os teus pés a terra- Artefacto
solitárias, só três:
quietas cinzentas ao vento à chuva.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
- Soledade Santos ; Sob os teus pés a terra- Artefacto
2.1.11
Pedra de Sísifo II
Agora medirei o tempo
Pela vara erguida ao meio dia
Pela areia a descer o coração
E o sono
Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope
Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
a firmeza dos seus pés
Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã
Daniel Faria; Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão, Porto, 1998
Pela vara erguida ao meio dia
Pela areia a descer o coração
E o sono
Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope
Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
a firmeza dos seus pés
Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã
Daniel Faria; Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão, Porto, 1998
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