21.12.10
17.12.10
poema mínimo
inscritas antes de nascer
chamam: sineta de orada
caminham: regresso à festa
ao orvalho criador
ovelhas:
regresso aos bardos
ao tempo imperceptível
inscrito antes de nascermos
e subindo já a morte
28.11.10
22.11.10
18.11.10
10.11.10
"hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas."
Desamparinho fica bem à gente.
É que a manhãsolinho há-de vir de cara macia mas luz mortiça por causa da noite triste.
Até temos vontade de guardar a luz tristelinda, desamparinho que nos demora o entardecer.
Desamparinho é palavra mimosa. Luz manselinha.
6.11.10
3.11.10
29.10.10
10.10.10
18.9.10
25.8.10
16.8.10
24.7.10
19.7.10
6.7.10
2.7.10
CANCIÓN
Álamo Blanco
Arriba canta el pájaro,
y abajo canta el agua.
- Arriba y abajo,
se me abre el alma - .
Mece a la estrela el pájaro,
a la flor mace el agua.
- Arriba y abajo,
me tiembla el alma -.
-Juan Ramón Jimenez; Antología poética; Edición de Javier Blasco
Catedra - Letras Hispánicas .
29.6.10
15.6.10
8.6.10
Sente-se na minha frente.
Isso, um bocadinho de lado,
é melhor assim.
O perfil da boca fala melhor que os olhos.
Os olhos são muito sabidos,
olham e sabem-se olhados,
conhecem a arte de fingir.
A fissura dos lábios é de nervo rijo,
ri ou chora quando precisa,
não quando deve.
Olhos nos olhos é uma treta;
conhecem a conveniência do momento;
assaltam-se ou afastam-se
não se vê se por gosto se a contra-gosto.
É preciso saber muito para entender os olhos nos olhos.
Sou ignorante. Também tenho medo.
Assim, já está bem.
Estou a ver.
Vou guardar a imagem na pele.
Agora
sento-me eu,
também de lado.
Pode olhar.
Veja como é firme
a fissura dos lábios.
6.6.10
Trazia os olhos no chão, mas tratei-o pelo nome.
Que festa de reencontro e conversa comprida!
Conversámos como há muitos anos, pouco mais que adolescentes.
O monge recolheu-se.
Levava uma ponta da alegria difícil de ler.
Ainda lhe conheço algumas letras.
4.6.10
No apagues, por Dios, la luz
Que arde dentro de mí mismo...
(Juan Ramón Jiménez)
O sol só cumpre o dever
de vir sempre a seguir à noite
não é da manhã luz materna...
não tem ouvidos nem olhar
velaste e a luz não sabe
descansas o sol não deu conta.
A luz arde dentro de ti.
A alba perfuma as flores
por ser de ambas a condição
como o branco é da geada...
sorrirem-te as madrugadas
é da quentura do teu sangue...
não vás por luzes andadeiras.
25.5.10
As Poupanças
depositei o meu amor em ti
como numa caixa forte,
e que aí estaria sempre, dizias,
até que viesse buscá-lo.
Faliste, involuntariamente, é certo
(amor e morte são tão involuntários!)
não há ninguém no teu escritório e levaste
todas as minhas poupanças deixando-me as tuas.
Não sei que fazer com elas, é o que é,
nem com toda essa fé que tinhas no mundo.
(Jordi Virallonga; Quanto sei de mim - Tradução de Carlos Veiga Ferreira; teorema)
20.5.10
17.5.10
24.4.10
23.3.10
Cantiga da Ama
E se ouvem os risos nos montes,
O meu coração sossega no peito
E tudo o resto se cala.
"Vá, vamos pra casa, meninos, o sol já se foi embora
E vem aí o relento,
Vamos, vamos, acabou a brincadeira, toca a recolher
Até o dia nascer."
"Não, só mais um bocadinho, ainda não está escuro
E não podemos ir dormir,
Olha, os passarinhos ainda voam no céu
E as ovelhas estão todas no monte."
"Vá, vão, vão, mas só até ficar escuro
E depois vão pra casa dormir."
As crianças saltaram & gritaram & riram
E os montes todos ecoaram.
-William Blake; Cantigas da Inocência e da Experiência - Tradução de Manuel Portela; Antígona
20.3.10
9.3.10

O homem arrastou-se pelo negrume impenetrável.
A princípio tinha solo pedregoso debaixo dos pés e a caminhada não era muito difícil, mas passado pouco a neve endureceu; as condições pioraram.
Teve de confiar na sua linha de pensamento:
A raposa pode ser infantilmente tímida em relação à intempérie. Vai escavar um buraco na neve ou enfiar-se profundamente em fendas, muito abaixo da marca de gelo, e ficar aí até que tenha passado o mau tempo.
Agora, o homem tinha uma hipótese de encurtar o intervalo entre ele e a pequena raposa.
Sjón - A Raposa Azul; trad. de Maria João Freire de Andrade - cavalo de ferro
21.2.10
30.1.10
Todo o discurso sem zonas de escuridão é convencional e precisa de inspiração. Mas escuridão, neste caso, não quer dizer falta de lucidez.
A poesia está feita do que se diz, mas também do que se cala. Por isso, quem diz tudo não é poeta. Quem tudo cala, também não, mas acaba por ser menos maçador.
A última gota, a que a esponja não expulsa quando a esprememos, é a poesia. Mas essa mesma gota não é nada sem a pressão da mão.
(Angel Crespo - A Realidade Interna - Poemas escolhidos (1949-1990). Selecção e Tradução de José Bento - teorema)
25.1.10
Abriu o quarto de dormir, disse a quem dormia: é de nós, ou da casa; o tempo certo nunca vem quando é preciso.
Quem era de se levantar levantou-se, viu claramente visto o peito do sol e as cores das coisas.
Disse: é verdade, os tempos andam incertos.
Olharam-se.
Viam como ia o sol. Mas
também se sabiam de coração.
23.1.10
Às vezes, a gente sente-o, sobretudo quando podemos ver as coisas mais ou menos assim, mas isto é um exemplo.
O tempo anda frio e húmido e a casa tem estado vazia, quero dizer, não é bem vazia; não está na medida dela e isso morde o peito.
É a maneira de dizermos fazeis-nos falta, vinde cá a casa, onde há os sítios que nos completam; e sabemos que onde morais há bocadinhos iguais: também lá estamos bem.
É também a maneira de podermos ouvir temos casa de sobra e não está na medida do peito.
E a gente não fala. O peito fica aberto e escuta. Há um ventinho que nos passa, e o que é preciso.
Quando estamos atentos, são as coisas pequenas que vemos. A maior parte das vezes, só olhamos os mundos abertos, que só precisam dos olhos e são as coisas grandes que incham as casas.
As coisas pequenas é que as enchem.
As casas só se enchem do que quase ninguém vê
é da atenção que elas se completam
e o céu é assim,
sempre à espera
4.1.10

Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...
Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.
Desbaratei-te, amor, com palavras.
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava -
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.
(Cristina Campo; O Passo do Adeus - Trad de José Tolentino Mendonça; Assírio & Alvim)
Nota pequena: ando sempre com Cristina Campo como Jacob com o Anjo: tarda-me a bênção, quero dizer, fica-me sempre qualquer coisa por entender dela...
2.1.10
levezas
31.12.09
23.12.09
Natal
São obra desajeitada, mas deram voltas como em oficina de ourives,
como as mãos frias antes de afagar as bochechas dos filhos:
arte de unir as palmas, entrelaçar os dedos,
as palavras e as mãos se aquecerem até a quentura ficar igual.
Junto as palavras como preparo as mãos.
A obra não será perfeita, mas espera merecer algum olhar,
como nos fazem as crianças.
É da tua cara quente.
10.12.09
A ÚNICA ROSA
7.12.09
Mamá
Bórdame en tu almohada.
(Lorca: poema Canción Tonta))
Quando nasci,
pai?
No nascer do sol,
filho.
O céu tinha as estrelas
como hoje?
Parece a minha colcha bordada.
Pareces o menino da Canção Tonta,
filho.
As estrelas são os teus olhos.
A mãe bordou-os,
foi?
Porque me estás a olhar,
pai?
Por causa da mãe,
filho,
fez os teus olhos.
Agora és tu o tonto,
pai.
Às tardinhas ficas assim.
Por causa das estrelas,
filho.
Vem aí a noite.
E a mãe vai bordar
estrelas?
27.11.09
20.11.09
10.11.09
Dois impropérios seguidos de grão de trigo
Às vezes é tudo claro como o voo das aves
sabem do vento que não as desarruma.
O sítio certo das coisas devia ser o das aves
não lavram nem semeiam
conhecem as sementes.
voltamos esquecemo-nos do vento
espalhou-nos por toda a parte
fragmentos de pouco jeito.
talvez tenham alguma luz
os bocadinhos do tempo bom
abrigados na arca do peito.
9.11.09
Cartas da tarde
27.10.09
Cântico
1.
Aurora
dedos de rosa vem ligeira pelos montes
e traz lençóis de linho limpo.
Luz esplêndida
a dos olhos da espera
Vinha pelos cedros e pelo orvalho na cidreira, erva-doce e hortelã-pimenta e lembrava-se de quem cheirava àquela resina e a boca era de hortelã fresca e de frutos deliciosos e de música dos cânticos mais bonitos
corça morena a arfar na montanha alta por ventos propícios
e adormecia ao relento até chegar a aurora do linho macio.
Um passinho mais
e morro no teu corpo
montanha suave
toquinha de raposa.
25.10.09
20.10.09
Junto dos Rios da Babilónia [Sl 136 (137)]
Quando já só no nosso pensamento deslizavam
Debaixo da sombra das liras
Ali nos pediam - em solo alheio -
Que cantássemos canções da nossa terra.
Como poderíamos cantar a nossa infância
Tão longe, num país estranho?
Os salgueiros têm folha persistente
Sob a sombra persistente a mudez
Junto dos rios da Babilónia
Foi a única das nossas alegrias
(Daniel Faria - Homens que são como Lugares mal Situados - Fundação Manuel Leão, Porto, 1998)
15.10.09
Criação
Sôbolos rios que vãoQuando não havia quase nada na terra e muito nevoeiro no céu, Deus viu que tinha tristeza nos olhos e
disse:
haja mais luz,
e as flores nasceram e as cores .
Que lindo,
disse Deus,
e recolheu-se nos aposentos.
No dia seguinte, abertas as janelas, Deus pensou na maneira como as flores deviam espalhar as sementes,
e disse:
cada flor tenha uma pétala borboleta,
e os jardins encheram-se de crianças.
Vou ficar aqui,
disse Deus,
e pôs escritos nos vidros.
As crianças não deram conta de nada.
Andaram aos saltos em terra mole e loira como papinhas de aveia, nuns sítios,
e mais morena nos de alguma sombra.
Tinham salpicos nas pernas e sardas nas bochechas.
Os cabelos iam arranjando as cores da luz.
Mas os pés de Deus abriam crateras e iam arrastados, a sujar as cores do chão.
Parou para descansar, pensou e disse:
que a água vá por caminhos seus
e deixe bocados de terra firme.
Apareceram rios grandes, ribeiros e arroios,
margens seguras por salgueiros, meruges e outras ervas.
E Deus meditou muito.
Passava uma aragem fina, de som de harpas e liras.
Deus pensou muito, nas árvores e naquela espécie de música.
Ficou triste outra vez,
e tirou os escritos das vidraças.
10.10.09
Parábola da casa
A espaços, fico zangado.
Gato sem casa,
bufo a quem passa.
Se alguém olha,
deixo que passe
e penso baixinho:
vai ali a minha casa.
Mas este hábito,
o de dizer não.
2
Há três crianças a brincar e um gato enrolado, um olho aberto,
outro fechado.
Os meninos não se olham, mas brincam como é dado.
Ao gato sabe bem como se estivesse em casa.
26.8.09
A Montanha Mágica
Na idade de entender a Condessa de Ségur e o Cavaleiro Andante, pus-me a ler a Montanha Mágica. Do que li lembro-me…era nas tardes de quinta-feira e nalguns domingos, junto duma presa de águas muito frias que lia.
Havia um Castorp e a demora de sete anos numa montanha, como os de Laban…Só disto, do livro.
Do resto – tempo, pardalada, passeios nas nuvens, as angústias do coração a crescer sem perceber, está cá tudo, quase tudo, para além da vaidade do dizer adolescente ando a ler A Montanha Mágica de Thomas Mann. Dito assim, com estas palavras…
É por isso que hoje vou começar a ler A Montanha. O coração já está acomodado…
Vou demorar mais que sete dias e mesmo que sete semanas.
“Sete anos é que decerto – Deus nos valha! – não serão precisos!” – Nota-se que já comecei…
Quando regressar aqui, as pessoas amigas que visitam a Romãzeira ficam a saber que acabei de ler A Montanha Mágica de Thomas Mann!
Assim vai ser e vai ser bom!
22.8.09
Os pequenos objectos
o fio abandonado no tapete,
o fósforo no chão,
a cinza,
que no ladrilho põe sua frágil contextura,
a unha recortada do menino
ao lado do sapato,
dão prazer aos olhos que, alheados,
coleccionam imagens de objectos inúteis.
Ama-se mais a mãe por esse fio,
e recorda-se o pai
pelo fósforo e a cinza
e o menino pela unha e o sapato.
Os pequenos objectos que se varrem,
que já ninguém apanha,
sumamente importantes, recordam-nos
os pequenos desgostos quotidianos
e os pobres prazeres, tão pequenos.
(Ángel Crespo - Em: A Realidade Inteira, Poemas escolhidos (1949-1990)
- Selecção e tradução de José Bento - Teorema)
15.8.09
Conversitas
- És um vidoeiro.
- Vamos fazer de conta: trazias as flores para os meus ramos.
- E éramos a mesma coisa.
- Criança e água,
éramos do mesmo cheiro.
31.7.09
Parábola da espera
O velho vai todos os dias à meia encosta da colina e deixa que o coração repouse.
Sabe que precisa da força para mais alguns passos:
quem espera há-de chegar com o esforço de quem sobe
ou a ligeireza de quem desce,
e ele precisa da distância para olhar
e poder dizer
olha como sabe bem sabermos caminhar um para o outro.
2.
A espera é um menino a respirar.
20.7.09
Parábola do Pensador
espelhos dos teus olhos,
no escuro, voltei a
vê-lo: vi ali
o grande e anguloso
pássaro que da tua alegria se sustenta,
tal como nas montanhas se sustenta
da mágoa o pensador.
(Robert Bringhurst - A Beleza das Armas - Tradução de Júlio Henriques; Ed. bilingue, Antígona, Lisboa, 1994)
16.7.09

Não penses a casa arrumada.
Lembra-te de como ficou quando saíste.
Lençóis engelhados
uma peça de roupa aqui
outra ali.
Sabes quais são.
O sítio, olha,
não te esforces,
foram sempre muitos,
mas
a mesa está posta.
A toalha branca,
talheres do costume
e nos sítios que sabes.
A árvore está ali
e guarda o nome que lhe demos,
o último.
Pensa nisto.
Arrumamos desarrumamos a casa
nascemos outra vez
e acrescentamos um bocadinho o verão.
13.7.09
Gostei disto. Da devoção e dos seus dizeres.
O aloquete não me pareceu ser coisa genuína e de quem tem fé.
As flores são de plástico, mas paciência. Tanta como a que pedem os caminhos da Serra entre Videmonte e a Senhora de Assedasse.
Hei-de voltar e levo-Lhe o cacho de uvas mais doces. Já estão a crescer no quintal e são para aquela Senhora: ninguém lhes vai tocar. Só Ela.
1.7.09
Bilhete aos filhos com as palavras de adormecer

A pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos
a andorinha bicou-a
sei um ninho
e é azul
Há palavras também azuis
doidas como os sonhos.
Sorriem-nos à noite
e dormem connosco
sonhos sábios
Ao primeiro sol,
vão indo, vão indo,
olhando de lado
a dizer o caminho do mar.
Os olhos do mar são azuis.
Como eram os vossos sonhos.
28.6.09
27.6.09
15.6.09
8.6.09
desesperos, aquele que mais me aflige.
É como a erva calcada dos campos:
uma ameaça contra a respiração.
(Daniel Faria - O Livro do Joaquim - Edição e Prefácio de Francisco Saraiva Pinto - quasi)
Nota: Daniel Faria morreu no dia 9 de Junho de 1999
2.6.09
22.5.09
Em lembrança
Voltarei à penumbra fresca da igreja
Ancestral, silenciosíssima e vazia,
Aonde está pousado o teu altar:
Doce mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
Que a minha oração nada mais seja!
Basta descansar.
Apetece-me pensar que um dia será assim.
(João Bénard da Costa; Nós, os vencidos do catolicismo – Edições Tenacitas – É assim que se acaba o livro - O poema tem o título A Nossa Senhora e é do livro 35 Poemas)
2.5.09
26.4.09
Bilhete
Grande se vê o mundo do alto do monte.
Não quero o tamanho do que vejo
quero-o da minha medida.
Vou para casa.
Dormir.
Quando chegares, a porta está aberta.
Podes entrar.
12.4.09
a água traz desenhos que desenhámos,
pele lisa ainda
- julgava-os delidos
O mar guardou-os
está a pôr as pétalas no pé donde,
bem-me-quer-mal-me-quer,
em anos verdes,
as fomos soprando em desenhos de abandono
Se fosse de pôr flores no cabelo,
amantes,
íamos recolhê-las
bem me quer,
- e éramos luz,
lágrimas orvalho brilho nos olhos
- e tu no agasalho das minhas pálpebras
10.4.09
Pietà
Assim, Jesus, venho encontrar estes teus pés,
que outrora foram pés de adolescente,
quando eu tos descalçava e os lavava a medo;
como se emaranhavam em meu cabelo
como corça branca em moita de espinheiros.
Assim eu vejo teus membros nunca-amados
pela primeira vez nesta noite de amor.
Nós ambos nunca nos deitámos juntos,
e agora é só admirar e velar.
Mas como as tuas mãos estão laceradas - :
E não é, Amado, de eu tas ter mordido.
Teu coração está aberto, e pode-se entrar nele:
e devia ter sido só minha a entrada.
Agora estás cansado, e a tua boca cansada
não deseja a minha boca dorida - .
Jesus, Jesus, quando foi a nossa hora?
Que singularmente nos perdemos ambos!
(Rainer Maria Rilke: Poemas - As Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu. Selecção e tradução de Paulo Quintela -ASA)
9.4.09
(...)
A amizade é o milagre pelo qual um ser humano aceita olhar à distância, e sem se aproximar, o próprio ser que lhe é necessário como um alimento. É a força de espírito que Eva não teve; e, contudo, ela não tinha necessidade do fruto. Se ela tivesse tido fome no momento em que olhava o fruto, e se, apesar disso, tivesse permanecido indefinidamente a olhá-lo, sem dar um passo na sua direcção, teria realizado um milagre análogo ao da perfeita amizade.
(Simone Weil - Espera de Deus ; trad. de Manuel Maria Barreiros - Assírio & Alvim)












