As nuvens vão-nos levando
doidice vagamunda
bico de ave a dizer o ninho
lume húmido das rosas
açafate maduro.
Doidinhos.
20.10.11
16.10.11
10.10.11
9.9.11
1.9.11
20.8.11
Ulisses
"Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
e explicaste como era cada uma."
(Odisseia, XXIV, 338-339; trad. de Frederico Lourenço)
Siga Ulisses em nau fina e veloz,
por marés e ventos certeiros,
não por Penélope: ainda pode sonhar
e tem muitas noites para tecer.
Por Laertes: o filho lhe demora
e é frágil o tempo das palavras que lhes faltam.
E pelo nome das árvores
de quando adormecia devagarinho.
4.8.11
Nausícaa
"Assim falou; e foi sentar-se na lareira, no meio das cinzas,
junto ao fogo. E todos permaneceram em silêncio."
(Odisseia; VII, 154-155; trad. de Frederico Lourenço)
O divino Ulisses abraçou os joelhos de Arete e soltou as palavras que trazia ensaiadas: ardia-lhe no peito a fome do regresso, e foi sábio a pedir e nos gestos.
De Nausícaa a capa cobria-lhe o sofrimento, e não era do que sua mãe imaginara.
"Vai agora, ó estrangeiro: a cama está feita."
Ulisses adormeceu, mais distraído que cansado.
Nausícaa, erguida à aurora de lindos dedos, lira de límpido som, vai voltar à praia pelo lume da alegria.
(Siga Ulisses para a cidade que o espera, de muitos fingimentos também, onde tecer e destecer é trabalho que mata o tempo, e outros matadores são precisos.)
Nausícaa, perto do meio dia, vai regressar, corpo de música lavada, na companhia merecida.
E o pai benevolente há-de sorrir a dizer:
a nossa filha traz o que escolheu; não foram os deuses a conduzi-la.
E todos irão dormir nos leitos que prepararam.
(Nota: não consigo dar ao texto o arrumo que quero)
junto ao fogo. E todos permaneceram em silêncio."
(Odisseia; VII, 154-155; trad. de Frederico Lourenço)
O divino Ulisses abraçou os joelhos de Arete e soltou as palavras que trazia ensaiadas: ardia-lhe no peito a fome do regresso, e foi sábio a pedir e nos gestos.
De Nausícaa a capa cobria-lhe o sofrimento, e não era do que sua mãe imaginara.
"Vai agora, ó estrangeiro: a cama está feita."
Ulisses adormeceu, mais distraído que cansado.
Nausícaa, erguida à aurora de lindos dedos, lira de límpido som, vai voltar à praia pelo lume da alegria.
(Siga Ulisses para a cidade que o espera, de muitos fingimentos também, onde tecer e destecer é trabalho que mata o tempo, e outros matadores são precisos.)
Nausícaa, perto do meio dia, vai regressar, corpo de música lavada, na companhia merecida.
E o pai benevolente há-de sorrir a dizer:
a nossa filha traz o que escolheu; não foram os deuses a conduzi-la.
E todos irão dormir nos leitos que prepararam.
(Nota: não consigo dar ao texto o arrumo que quero)
14.7.11
Da Ternura
No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.
Soledade Santos; "Sob os Teus Pés a Terra"; Artefacto
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.
Soledade Santos; "Sob os Teus Pés a Terra"; Artefacto
12.7.11
(Criança assombrada de noite mal dormida, a neblina encharca-lhe os olhos, jardim pasto informe, mar ilegível, remoinho a espantar as raízes)
Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.
Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.
Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.
Boa tarde,
mão varredora das nuvens.
Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.
Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.
Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.
Boa tarde,
mão varredora das nuvens.
8.6.11
30.5.11
21.5.11
Ouve-se ao longe
tenho pés de vento
sou cavalo solto crina de muitas cores
a voar por cima dos prados.
Olho os campos inocentes,
breves.
Nota: esta fotografia foi-me dada e vinha assim:
O que de relance parece liberdade é prisão.
A casa, outrora verde,
cinzenta veloz, já nem vemos.
Ficou parada nos relâmpagos
que arrastam a solidão...
(Obrigado, Tiago)
7.5.11
(Foto de Tiago Silva)
Co'a candeia de estrelas * saí rumo aos céus
(Elytis)
Nos dias de acordar cedo,(Elytis)
o pinheiro do quintal aleija a memória.
De noite, estirou-se sem jeito.
Único sonho sério, examino-o,
e vejo as palavras, peças de roupa,
as que nos vestiram e as da transparência,
a abanar, doidas indefinidas,
sons e sentidos versáteis, alados. Informes.
Tão longe das nascentes.
Que fazer da frescura dos prados
e das palavras que organizámos?
5.5.11
Diurno
Eternas são as tardes
em que o cheiro da maresia
se pendura nos cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro das vagens
entre os lábios é como
outros lábios carnudos.
Soledade Santos; Sob os teus a terra - Artefacto
em que o cheiro da maresia
se pendura nos cabelos molhados
pelo suor amável do dia
e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro das vagens
entre os lábios é como
outros lábios carnudos.
Soledade Santos; Sob os teus a terra - Artefacto
1.5.11
27.4.11
16.4.11
7.4.11
1.4.11
À mesa
- Avô, sou um pirata sem cara de mau.
- Mas tu és menina.
- Sou um pirata, avô.
- Pronto, és pirata.
- Sou um pirata, avô. Como na escolinha. Sou um pirata.
- Desculpa, esquecia-me.
És um pirata, e não tens cara de pau, nem perna de má.
- Avô, cara de mau, esqueceste-te.
- Não precisas de gritar, menina. Os piratas não berravam.
- Avô, os piratas não falavam alto porquê?
- Posso explicar baixinho?
- Porquê baixinho?
- Os piratas também falavam assim.
- Está bem.
- À roda dos piratas o vento nunca parava.
E era o vento que levava as palavras de umas pessoas para as outras.
Pegava as palavras com muito jeitinho.
Segurava-as pelos dedos e ia-as levando até aos barcos dos outros.
O vento sabia que as palavras gostam de mudar de sítio.
E os outros sabiam as ideias dos piratas.
- Avô, não acredito nisso, mas a história é bonita.
- E é.
- Avô, é bom jogar ao faz de conta.
- Mas tu és menina.
- Sou um pirata, avô.
- Pronto, és pirata.
- Sou um pirata, avô. Como na escolinha. Sou um pirata.
- Desculpa, esquecia-me.
És um pirata, e não tens cara de pau, nem perna de má.
- Avô, cara de mau, esqueceste-te.
- Não precisas de gritar, menina. Os piratas não berravam.
- Avô, os piratas não falavam alto porquê?
- Posso explicar baixinho?
- Porquê baixinho?
- Os piratas também falavam assim.
- Está bem.
- À roda dos piratas o vento nunca parava.
E era o vento que levava as palavras de umas pessoas para as outras.
Pegava as palavras com muito jeitinho.
Segurava-as pelos dedos e ia-as levando até aos barcos dos outros.
O vento sabia que as palavras gostam de mudar de sítio.
E os outros sabiam as ideias dos piratas.
- Avô, não acredito nisso, mas a história é bonita.
- E é.
- Avô, é bom jogar ao faz de conta.
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