14.11.11

Espalhamo-nos por campos e chãos verdes
jogamos às adivinhas
procuramos a penumbra das pontes
espreitamos escondemo-nos ao faz de conta.

Somos pássaros a fintar o vento.

11.11.11

OS AMIGOS

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos nos seus exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual; Assírio & Alvim

1.11.11

É preciso começar a ler logo de manhã; as palavras estão a nascer e é preciso ver-lhes o crescimento.
É assim na minha aldeia e, às tardinhas, o sol vai adormecendo em sabedoria.

26.10.11



Às vezes, a gente sonha desta maneira: estamos a dormir, tudo arrumadinho.
É como descer a montanha, depois de ver o mar e pôr a recato os pensamentos que nos lavaram.
E o sono sabe bem, ainda que venha alguma tristeza.

20.10.11

As nuvens vão-nos levando
doidice vagamunda
bico de ave a dizer o ninho
lume húmido das rosas
açafate maduro.

Doidinhos.

16.10.11

Os homens correm nas estradas
os meninos olham as flores
formas bonitas do céu

as estradas estragam os campos
e não sabem o tamanho dos rios

10.10.11


O relincho dos cavalinhos.
Os filhotes abandonaram o trilho da manada nos montes vadios;
vem o inverno e as narinas duvidosas buscam o bafo morno dos estábulos.

Somos da água e do fogo.

9.9.11


POR el camino encuentras a tu Ulises, y eso es um problema. Quiere que duermas con las velas desplegadas y el áncora alzada.

(Odysseas Elytis - Dignum est y otros poemas; Traducción, selección y prólogo de Cristián Carandell; Galaxia Gutenberg-Círculo de Lectores)

1.9.11



A pensar no Alan que faz anos hoje

As palavras deviam ser como o sono
e o silêncio
gomos de laranja
dentinhos de romã
meninos de olhos fechados


20.8.11

Ulisses


"Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
e explicaste como era cada uma."
(Odisseia, XXIV, 338-339; trad. de Frederico Lourenço)

Siga Ulisses em nau fina  e veloz,
por marés e ventos certeiros,
não por Penélope: ainda pode sonhar
e tem muitas noites para tecer.


Por Laertes: o filho lhe demora
e é frágil o tempo das palavras que lhes faltam.
E pelo nome das árvores
de quando adormecia devagarinho.



4.8.11

Nausícaa

(Nausícaa; Frederick Leighton)


"Assim falou; e foi sentar-se na lareira, no meio das cinzas,
junto ao fogo. E todos permaneceram em silêncio."


(Odisseia; VII, 154-155; trad. de Frederico Lourenço)


O divino Ulisses abraçou os joelhos de Arete e soltou as palavras que trazia ensaiadas: ardia-lhe no peito a fome do regresso, e foi sábio a pedir e nos gestos.
De Nausícaa a capa cobria-lhe o sofrimento, e não era do que sua mãe imaginara.

"Vai agora, ó estrangeiro: a cama está feita."

Ulisses adormeceu, mais distraído que cansado.

Nausícaa, erguida à aurora de lindos dedos, lira de límpido som, vai voltar à praia pelo lume da alegria.

(Siga Ulisses para a cidade que o espera, de muitos fingimentos também, onde tecer e destecer é trabalho que mata o tempo, e outros matadores são precisos.)

Nausícaa, perto do meio dia, vai regressar, corpo de música lavada, na companhia merecida.
E o pai benevolente há-de sorrir a dizer:
a nossa filha traz o que escolheu; não foram os deuses a conduzi-la.

E todos irão dormir nos leitos que prepararam.

(Nota: não consigo dar ao texto o arrumo que quero)

14.7.11

Da Ternura

No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.

Soledade Santos; "Sob os Teus Pés a Terra"; Artefacto

12.7.11

(Criança assombrada de noite mal dormida, a neblina encharca-lhe os olhos, jardim pasto informe, mar ilegível, remoinho a espantar as raízes)

Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.

Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.

Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.

Boa tarde,
mão varredora das nuvens.

5.7.11

(Fotografia de Tiago Silva)

Dizes
sei onde estás

sabedoria inútil
penso.

E perguntas se vejo os pássaros

oiço-lhes as palavras
digo baixinho
com alguma alegria.

8.6.11

Sei palavras de coração,
luz manhã sorriso,
tristeza tardinha mar:

guardo-as em ventre fofo
e são a minha bagagem.

E retrato no passaporte.

30.5.11


"A terra ao Sol dá nascença
todas as manhãs"
(Robert Bringhurst; "A Beleza das Armas")

A manhã é macia
e há vontade de recolher a luz graciosa,
Ulisses a guardar a semente do fogo
conchinha protegida do vento.

No entanto, desenha a tua casa
gesto largo do semeador.

21.5.11

(foto de Tiago)


Ouve-se ao longe
tenho pés de vento
sou cavalo solto crina de muitas cores
a voar por cima dos prados.

Olho os campos inocentes,
breves.

Nota: esta fotografia foi-me dada e vinha assim:
O que de relance parece liberdade é prisão.
A casa, outrora verde,
cinzenta veloz, já nem vemos.
Ficou parada nos relâmpagos
que arrastam a solidão...

(Obrigado, Tiago)

7.5.11

(Foto de Tiago Silva)
Co'a candeia de estrelas * saí rumo aos céus
(Elytis)
Nos dias de acordar cedo,
o pinheiro do quintal aleija a memória.
De noite, estirou-se sem jeito.

Único sonho sério, examino-o,
e vejo as palavras, peças de roupa,
as que nos vestiram e as da transparência,
a abanar, doidas indefinidas,

sons e sentidos versáteis, alados. Informes.
Tão longe das nascentes.

Que fazer da frescura dos prados
e das palavras que organizámos?

5.5.11

Diurno

Eternas são as tardes
em que o cheiro da maresia
se pendura nos cabelos molhados
pelo suor amável do dia

e a doçura de alfarrobas
no verniz escuro das vagens
entre os lábios é como
outros lábios carnudos.

Soledade Santos; Sob os teus a terra - Artefacto

1.5.11


Disse que te guardo nos olhos. Estás lá como criança na barriga.
Quando vieres, será como a primeira luz: vemo-nos logo, e pelos mesmos olhos,
e vamos rir até chegar a minha noite.
Depois, vou ficar agasalhado nas tuas pálpebras.