14.1.12

David Inshaw

Donde vens? perguntou-me Zeno. De muito longe, respondi. Se vens de longe é porque não te encontraste ainda, disse. Devo então continuar a preocupar-me? Até quando? perguntei. Até ao dia - respondeu Zeno - em que o teu pé for inseparável do chão em que julgas caminhar.

- Casimiro de Brito; Arte da Respiração; Publicações Dom Quixote

3.1.12


As fontes brincam nas pedrinhas,
meninos a crescer, pássaros no tempo bom.

Devíamos ter a sorte dos seixos,
mão menina a olhar-nos, na retirada das aves.

25.12.11

Saíamos para os campos muito cedo, a manhã arbusto ainda a bordar o dia.
Líamos a sombra e a luz, de cada uma colhendo a refeição suficiente.

Em cada tarde bastam-nos migalhinhas de pão, bondade da luz bem distribuída,
e nenhum frio nos vai arrefecer a noite. Nem os dias.

11.12.11

Vi nos claustros palavras essenciais, e aprendi a sabê-las em jogos de enleio e fuga, amantes de muita sedução.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.

O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.

1.12.11

Conversitas

Nem sempre é o lado da luz a indicar o caminho.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.

25.11.11

Tens a casa cheia. Senta-te e observa.
Os amigos conversam e os olhos riem. Alegra-te de coração.
As crianças dormem serenas. É sábia a tua casa.
Sabe gerir a alegria. Pelos dias que te faltam.
A alegria invisível é duradoura como o sabor do pão.

14.11.11

Espalhamo-nos por campos e chãos verdes
jogamos às adivinhas
procuramos a penumbra das pontes
espreitamos escondemo-nos ao faz de conta.

Somos pássaros a fintar o vento.

11.11.11

OS AMIGOS

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos nos seus exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual; Assírio & Alvim

1.11.11

É preciso começar a ler logo de manhã; as palavras estão a nascer e é preciso ver-lhes o crescimento.
É assim na minha aldeia e, às tardinhas, o sol vai adormecendo em sabedoria.

26.10.11



Às vezes, a gente sonha desta maneira: estamos a dormir, tudo arrumadinho.
É como descer a montanha, depois de ver o mar e pôr a recato os pensamentos que nos lavaram.
E o sono sabe bem, ainda que venha alguma tristeza.

20.10.11

As nuvens vão-nos levando
doidice vagamunda
bico de ave a dizer o ninho
lume húmido das rosas
açafate maduro.

Doidinhos.

16.10.11

Os homens correm nas estradas
os meninos olham as flores
formas bonitas do céu

as estradas estragam os campos
e não sabem o tamanho dos rios

10.10.11


O relincho dos cavalinhos.
Os filhotes abandonaram o trilho da manada nos montes vadios;
vem o inverno e as narinas duvidosas buscam o bafo morno dos estábulos.

Somos da água e do fogo.

9.9.11


POR el camino encuentras a tu Ulises, y eso es um problema. Quiere que duermas con las velas desplegadas y el áncora alzada.

(Odysseas Elytis - Dignum est y otros poemas; Traducción, selección y prólogo de Cristián Carandell; Galaxia Gutenberg-Círculo de Lectores)

1.9.11



A pensar no Alan que faz anos hoje

As palavras deviam ser como o sono
e o silêncio
gomos de laranja
dentinhos de romã
meninos de olhos fechados


20.8.11

Ulisses


"Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
e explicaste como era cada uma."
(Odisseia, XXIV, 338-339; trad. de Frederico Lourenço)

Siga Ulisses em nau fina  e veloz,
por marés e ventos certeiros,
não por Penélope: ainda pode sonhar
e tem muitas noites para tecer.


Por Laertes: o filho lhe demora
e é frágil o tempo das palavras que lhes faltam.
E pelo nome das árvores
de quando adormecia devagarinho.



4.8.11

Nausícaa

(Nausícaa; Frederick Leighton)


"Assim falou; e foi sentar-se na lareira, no meio das cinzas,
junto ao fogo. E todos permaneceram em silêncio."


(Odisseia; VII, 154-155; trad. de Frederico Lourenço)


O divino Ulisses abraçou os joelhos de Arete e soltou as palavras que trazia ensaiadas: ardia-lhe no peito a fome do regresso, e foi sábio a pedir e nos gestos.
De Nausícaa a capa cobria-lhe o sofrimento, e não era do que sua mãe imaginara.

"Vai agora, ó estrangeiro: a cama está feita."

Ulisses adormeceu, mais distraído que cansado.

Nausícaa, erguida à aurora de lindos dedos, lira de límpido som, vai voltar à praia pelo lume da alegria.

(Siga Ulisses para a cidade que o espera, de muitos fingimentos também, onde tecer e destecer é trabalho que mata o tempo, e outros matadores são precisos.)

Nausícaa, perto do meio dia, vai regressar, corpo de música lavada, na companhia merecida.
E o pai benevolente há-de sorrir a dizer:
a nossa filha traz o que escolheu; não foram os deuses a conduzi-la.

E todos irão dormir nos leitos que prepararam.

(Nota: não consigo dar ao texto o arrumo que quero)

14.7.11

Da Ternura

No fundo da ternura há um som de lágrimas -
água clara onde o sol do entardecer
odoroso se deteve;
vem das lembranças, cristais de sal,
chispas na pele esfolada pelos jogos
infantis e as perdas
de que a vida nos preencheu os dias.
Companheira amável do desencanto,
outra forma afinal de dizer mágoa.

Soledade Santos; "Sob os Teus Pés a Terra"; Artefacto

12.7.11

(Criança assombrada de noite mal dormida, a neblina encharca-lhe os olhos, jardim pasto informe, mar ilegível, remoinho a espantar as raízes)

Anda, maré irrequieta,
vamos aos sítios luminosos
amantes a sair das ondas.
Ajeitamo-nos os cabelos
e subimos a praia
sabemos onde repousar.

Louvada seja a voz dos dias,
areias fofas aventuradas,
memória do linho limpo,
palavras percebidas,
do mar lavado e as da vinha brava,
como quem respira.

Louvadas as tardes
riso claro de criança
mar sereno
jardim acolchoado.

Boa tarde,
mão varredora das nuvens.

5.7.11

(Fotografia de Tiago Silva)

Dizes
sei onde estás

sabedoria inútil
penso.

E perguntas se vejo os pássaros

oiço-lhes as palavras
digo baixinho
com alguma alegria.