2.2.12

Alguns gostam de poesia

Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

- Wisława Szymborska; in: "Alguns gostam de poesia - Antologia - Czeslaw Milosz e Wisława Szymborska;
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e sèrgio das Neves; Cavalo de ferro editores - 
(Fui buscar, com as devidas licenças, a fotografia a  http://amata.anaroque.com/)

31.1.12

Em Madrid, fui à exposição Hermitage no Prado. Era muita a gente e parei em dois sítios:
-no tocador de alaúde, parecíamos uma estação da Via Sacra; não dava para “ouvir” bem: tenho de olhar noutra altura;
- fui para um sítio sem ninguém: A visita à avó. Deu para parar muito tempo por causa daquele olhar pequenino da criança e do cão; ponho-o aqui para o olhar mais tempo.

28.1.12


O que dizes não te sai de dentro
é de palavras seixos na boca
Demóstenes a ensaiar discursos,
dizias e pintavas os lábios.

26.1.12

 A poesia orvalho que escolhe a flor onde o sol se compraz
 bom lume a esmera.

É uma rapariga com flores no cabelo mar bonito
a colher os náufragos,

riso caprichoso de romã
a guardar o fogo que julgávamos nosso.

Colmeal da Torre, 26/Jan/2012

Plantei outra romãzeira de guarda à casa; ao lado da porta, para dar os bons dias a quem chega.
A primeira anda amuada.

15.1.12

Ouvia, nas tardes, os sons do quintal. Às vezes, punha o ouvido no chão a isolar as vozes e ria-me, coração aos saltinhos.
Havia timbres diferentes e eram cinco as melodias.
Cinco, é isso, ainda que, em alguns céus varridos, parecessem acordes da música dos moinhos de pão ao desafio com o marulhar das folhas dos nossos vidoeiros.

14.1.12

David Inshaw

Donde vens? perguntou-me Zeno. De muito longe, respondi. Se vens de longe é porque não te encontraste ainda, disse. Devo então continuar a preocupar-me? Até quando? perguntei. Até ao dia - respondeu Zeno - em que o teu pé for inseparável do chão em que julgas caminhar.

- Casimiro de Brito; Arte da Respiração; Publicações Dom Quixote

3.1.12


As fontes brincam nas pedrinhas,
meninos a crescer, pássaros no tempo bom.

Devíamos ter a sorte dos seixos,
mão menina a olhar-nos, na retirada das aves.

25.12.11

Saíamos para os campos muito cedo, a manhã arbusto ainda a bordar o dia.
Líamos a sombra e a luz, de cada uma colhendo a refeição suficiente.

Em cada tarde bastam-nos migalhinhas de pão, bondade da luz bem distribuída,
e nenhum frio nos vai arrefecer a noite. Nem os dias.

11.12.11

Vi nos claustros palavras essenciais, e aprendi a sabê-las em jogos de enleio e fuga, amantes de muita sedução.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.

O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.

1.12.11

Conversitas

Nem sempre é o lado da luz a indicar o caminho.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.

25.11.11

Tens a casa cheia. Senta-te e observa.
Os amigos conversam e os olhos riem. Alegra-te de coração.
As crianças dormem serenas. É sábia a tua casa.
Sabe gerir a alegria. Pelos dias que te faltam.
A alegria invisível é duradoura como o sabor do pão.

14.11.11

Espalhamo-nos por campos e chãos verdes
jogamos às adivinhas
procuramos a penumbra das pontes
espreitamos escondemo-nos ao faz de conta.

Somos pássaros a fintar o vento.

11.11.11

OS AMIGOS

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos nos seus exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual; Assírio & Alvim

1.11.11

É preciso começar a ler logo de manhã; as palavras estão a nascer e é preciso ver-lhes o crescimento.
É assim na minha aldeia e, às tardinhas, o sol vai adormecendo em sabedoria.

26.10.11



Às vezes, a gente sonha desta maneira: estamos a dormir, tudo arrumadinho.
É como descer a montanha, depois de ver o mar e pôr a recato os pensamentos que nos lavaram.
E o sono sabe bem, ainda que venha alguma tristeza.

20.10.11

As nuvens vão-nos levando
doidice vagamunda
bico de ave a dizer o ninho
lume húmido das rosas
açafate maduro.

Doidinhos.

16.10.11

Os homens correm nas estradas
os meninos olham as flores
formas bonitas do céu

as estradas estragam os campos
e não sabem o tamanho dos rios

10.10.11


O relincho dos cavalinhos.
Os filhotes abandonaram o trilho da manada nos montes vadios;
vem o inverno e as narinas duvidosas buscam o bafo morno dos estábulos.

Somos da água e do fogo.

9.9.11


POR el camino encuentras a tu Ulises, y eso es um problema. Quiere que duermas con las velas desplegadas y el áncora alzada.

(Odysseas Elytis - Dignum est y otros poemas; Traducción, selección y prólogo de Cristián Carandell; Galaxia Gutenberg-Círculo de Lectores)

1.9.11



A pensar no Alan que faz anos hoje

As palavras deviam ser como o sono
e o silêncio
gomos de laranja
dentinhos de romã
meninos de olhos fechados