Poesia também é atenção, ou seja, leitura em muitos planos da realidade à nossa volta, que é a verdade em imagens. E o poeta, que vai desfazendo e recompondo essas imagens, é também um mediador: entre o homem e o deus, entre o homem e o outro homem, entre o homem e as regras secretas da natureza.
Os gregos foram seres desdenhosos da imaginação: a fantasia não encontrou lugar no seu espírito. A sua atenção heróica, irremovível (cujo exemplo extremo é talvez Sófocles) sem cessar estabelecia relações, e sem cessar separava e unia, num esforço permanente de decifração tanto da realidade como dos mistérios. Os chineses meditaram durante milénios do mesmo modo, em torno do maravilhoso Livro das Mutações. Dante, por mais escandaloso que possa soar, não é um poeta da imaginação, mas da atenção: ver almas a contorcer-se no fogo e no azeite a ferver, ou entrever no orgulho um manto de chumbo, é uma suprema forma de atenção, que deixa puros e incontaminados os elementos da ideia.
- Cristina Campo, Os Imperdoáveis; tradução de José Colaço Barreiros; Assírio & Alvim -
21.3.12
8.3.12
40. ELA E ELE ALTERNADAMENTE
- Pressinto um outro mundo.
- Terá que passar a história inteira
até que o dia de hoje chegue aos olhos.
- Aos que persistem...
- ...que hão-de ver as brumas sobre os rios
que as transportam ao coração da terra.
- Estamos aqui parados
até que a luz nos veja.
- Pressinto um outro mundo.
- Terá que passar a história inteira
até que o dia de hoje chegue aos olhos.
- Aos que persistem...
- ...que hão-de ver as brumas sobre os rios
que as transportam ao coração da terra.
- Estamos aqui parados
até que a luz nos veja.
Vem a luz.
O Teatro ilumina-se.
O palco está deserto.
- Pedro Tamen; Um Teatro às Escuras; Publicações Dom Quixote, 2011 -
7.3.12
No regresso à casa, sento-me na soleira, viajante duvidoso;
quero entrar despojado, até do vento e das palavras que lhe emprestei,
e fazer a conta ao que ainda pesa.
Trago bagagem a mais, mas alguma coisa preciso levar e leve tem de ser.
Palavras, poucas, que sou filho do silêncio da casa que me chama.
Alforge, há muito o larguei. Mas muito sujo se colou na pele, palavras inúteis.
Menino de escola, safo as letras a mais.
Limpo os olhos, que neles trago a bagagem essencial, peregrino de muito pó.
Liberto me exijo, que a espera é como as águas maternas, singelas e disponíveis,
vida e a morte, irmãs gémeas sempre juntas.
Na hora do silêncio maior, o da mesa posta, lareira acesa, vou entrar.
Ligeiros estarão os olhares: muitas águas os lavaram.
E, menino de escola, levo a flor que aprendi nos caminhos.
quero entrar despojado, até do vento e das palavras que lhe emprestei,
e fazer a conta ao que ainda pesa.
Trago bagagem a mais, mas alguma coisa preciso levar e leve tem de ser.
Palavras, poucas, que sou filho do silêncio da casa que me chama.
Alforge, há muito o larguei. Mas muito sujo se colou na pele, palavras inúteis.
Menino de escola, safo as letras a mais.
Limpo os olhos, que neles trago a bagagem essencial, peregrino de muito pó.
Liberto me exijo, que a espera é como as águas maternas, singelas e disponíveis,
vida e a morte, irmãs gémeas sempre juntas.
Na hora do silêncio maior, o da mesa posta, lareira acesa, vou entrar.
Ligeiros estarão os olhares: muitas águas os lavaram.
E, menino de escola, levo a flor que aprendi nos caminhos.
2.3.12
18.2.12
Cartas da tarde
O meu amor sabe o meu coração.
Quando estiver a chegar, vai tossir e fazer barulho com os sapatos.
Vou ficar contente e e nem era preciso o cuidado:
o corpo inteiro guarda-lhe os cheiros e adivinha-o com os olhos.
Estudo o vento todas as tardes.
Olho as colinas por onde vem quem espero, quem me conhece de coração, de quem sei as cores que traz nos olhos;
são as que lhe dei naquele dia que sabe.
Quando estiver a chegar, vai tossir e fazer barulho com os sapatos.
Vou ficar contente e e nem era preciso o cuidado:
o corpo inteiro guarda-lhe os cheiros e adivinha-o com os olhos.
Estudo o vento todas as tardes.
Olho as colinas por onde vem quem espero, quem me conhece de coração, de quem sei as cores que traz nos olhos;
são as que lhe dei naquele dia que sabe.
15.2.12
2.2.12
Alguns gostam de poesia
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
- Wisława Szymborska; in: "Alguns gostam de poesia - Antologia - Czeslaw Milosz e Wisława Szymborska;
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e sèrgio das Neves; Cavalo de ferro editores -
(Fui buscar, com as devidas licenças, a fotografia a http://amata.anaroque.com/)
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
- Wisława Szymborska; in: "Alguns gostam de poesia - Antologia - Czeslaw Milosz e Wisława Szymborska;
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e sèrgio das Neves; Cavalo de ferro editores -
(Fui buscar, com as devidas licenças, a fotografia a http://amata.anaroque.com/)
31.1.12
Em Madrid, fui à exposição Hermitage no Prado. Era muita a gente e parei em dois sítios:
-no tocador de alaúde, parecíamos uma estação da Via Sacra; não dava para “ouvir” bem: tenho de olhar noutra altura;
- fui para um sítio sem ninguém: A visita à avó. Deu para parar muito tempo por causa daquele olhar pequenino da criança e do cão; ponho-o aqui para o olhar mais tempo.
-no tocador de alaúde, parecíamos uma estação da Via Sacra; não dava para “ouvir” bem: tenho de olhar noutra altura;
- fui para um sítio sem ninguém: A visita à avó. Deu para parar muito tempo por causa daquele olhar pequenino da criança e do cão; ponho-o aqui para o olhar mais tempo.
28.1.12
26.1.12
A poesia orvalho que escolhe a flor onde o sol se compraz
bom lume a esmera.
É uma rapariga com flores no cabelo mar bonito
a colher os náufragos,
riso caprichoso de romã
a guardar o fogo que julgávamos nosso.
Colmeal da Torre, 26/Jan/2012
Plantei outra romãzeira de guarda à casa; ao lado da porta, para dar os bons dias a quem chega.
A primeira anda amuada.
bom lume a esmera.
É uma rapariga com flores no cabelo mar bonito
a colher os náufragos,
riso caprichoso de romã
a guardar o fogo que julgávamos nosso.
Colmeal da Torre, 26/Jan/2012
Plantei outra romãzeira de guarda à casa; ao lado da porta, para dar os bons dias a quem chega.
A primeira anda amuada.
15.1.12
Ouvia, nas tardes, os sons do quintal. Às vezes, punha o ouvido no chão a isolar as vozes e ria-me, coração aos saltinhos.
Havia timbres diferentes e eram cinco as melodias.
Cinco, é isso, ainda que, em alguns céus varridos, parecessem acordes da música dos moinhos de pão ao desafio com o marulhar das folhas dos nossos vidoeiros.
Havia timbres diferentes e eram cinco as melodias.
Cinco, é isso, ainda que, em alguns céus varridos, parecessem acordes da música dos moinhos de pão ao desafio com o marulhar das folhas dos nossos vidoeiros.
14.1.12
David Inshaw
Donde vens? perguntou-me Zeno. De muito longe, respondi. Se vens de longe é porque não te encontraste ainda, disse. Devo então continuar a preocupar-me? Até quando? perguntei. Até ao dia - respondeu Zeno - em que o teu pé for inseparável do chão em que julgas caminhar.
- Casimiro de Brito; Arte da Respiração; Publicações Dom Quixote
3.1.12
25.12.11
11.12.11
Vi nos claustros palavras essenciais, e aprendi a sabê-las em jogos de enleio e fuga, amantes de muita sedução.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.
O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.
O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.
1.12.11
Conversitas
Nem sempre é o lado da luz a indicar o caminho.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.
25.11.11
14.11.11
11.11.11
OS AMIGOS
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos nos seus exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual; Assírio & Alvim
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos nos seus exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual; Assírio & Alvim
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