Na meia aurora, o teu sono é flor de vento,
ar lavado.
Vindo a manhã toda e as neblinas,
lembro-te vinho vermelho;
e rio tranquilo.
2.3.11
15.2.11
Sítio
No cimo do choupo restam três folhas
solitárias, só três:
quietas cinzentas ao vento à chuva.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
- Soledade Santos ; Sob os teus pés a terra- Artefacto
solitárias, só três:
quietas cinzentas ao vento à chuva.
Olhando-as, sei que outro ano passou.
E eu, que farei eu da minha fidelidade?
- Soledade Santos ; Sob os teus pés a terra- Artefacto
2.1.11
Pedra de Sísifo II
Agora medirei o tempo
Pela vara erguida ao meio dia
Pela areia a descer o coração
E o sono
Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope
Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
a firmeza dos seus pés
Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã
Daniel Faria; Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão, Porto, 1998
Pela vara erguida ao meio dia
Pela areia a descer o coração
E o sono
Pela cinza no cabelo de Jacob
Pelas agulhas no colo de Penélope
Agora lavarei a minha face
Sem perturbar os círculos da água
Medirei o tempo pelo peso da pedra
De Sísifo, perto do cimo
E pelo musgo que dificulta
a firmeza dos seus pés
Partirei sozinho na viagem
Sem nenhuma pedra ou senda repetida
E no tempo repetido acharei uma saída
Uma manhã depois de uma manhã
Daniel Faria; Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão, Porto, 1998
31.12.10
Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa
(Cavafy; trad. de Jorge de Sena)
Não fui de aventuras longas,
mas amei os caminhos até ao mar.
Os montes olhei-os
a ler os segredos das nuvens.
Do respigo nos campos de Booz
só pedi pão na medida exacta.
Das pessoas vi a graça
e sorri-lhes desprendido.
Merquei as pérolas que desejei,
por saber querer só o que quero.
Os perfumes rodearam-me,
e colhi os que o corpo desejou.
Destinei destino esplêndido
qualquer mar e seu infinito,
como me aceitei hóspede bem recebido
no monte e a montanha que seguia.
Passageiro com destino,
marco os passos sem pressas,
que o fim da viagem é o que se caminha
e não a meta que se passa.
Meditei na água de muitas chuvas,
percebi da sede a causa e o remédio,
e, por serem "muitas as manhãs de Verão",
às vezes sento-me na festa do céu azul.
deves orar por uma viagem longa
(Cavafy; trad. de Jorge de Sena)
Não fui de aventuras longas,
mas amei os caminhos até ao mar.
Os montes olhei-os
a ler os segredos das nuvens.
Do respigo nos campos de Booz
só pedi pão na medida exacta.
Das pessoas vi a graça
e sorri-lhes desprendido.
Merquei as pérolas que desejei,
por saber querer só o que quero.
Os perfumes rodearam-me,
e colhi os que o corpo desejou.
Destinei destino esplêndido
qualquer mar e seu infinito,
como me aceitei hóspede bem recebido
no monte e a montanha que seguia.
Passageiro com destino,
marco os passos sem pressas,
que o fim da viagem é o que se caminha
e não a meta que se passa.
Meditei na água de muitas chuvas,
percebi da sede a causa e o remédio,
e, por serem "muitas as manhãs de Verão",
às vezes sento-me na festa do céu azul.
21.12.10
17.12.10
poema mínimo
palavras para um poema…
inscritas antes de nascer
chamam: sineta de orada
caminham: regresso à festa
ao orvalho criador
ovelhas:
regresso aos bardos
ao tempo imperceptível
inscrito antes de nascermos
e subindo já a morte
inscritas antes de nascer
chamam: sineta de orada
caminham: regresso à festa
ao orvalho criador
ovelhas:
regresso aos bardos
ao tempo imperceptível
inscrito antes de nascermos
e subindo já a morte
28.11.10
22.11.10
18.11.10
10.11.10
"Desamparinho" é palavra que, no "Milagrário" de Agualusa, é a da
"hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas."
Desamparinho fica bem à gente.
É que a manhãsolinho há-de vir de cara macia mas luz mortiça por causa da noite triste.
Até temos vontade de guardar a luz tristelinda, desamparinho que nos demora o entardecer.
Desamparinho é palavra mimosa. Luz manselinha.
"hora feliz, ao final da tarde, quando o dia cede lugar à noite, o calor esmorece, e os velhos se sentam nos passeios, fruindo o fresco e as cigarras, e vendo as moças passarem sacudindo as ancas."
Desamparinho fica bem à gente.
É que a manhãsolinho há-de vir de cara macia mas luz mortiça por causa da noite triste.
Até temos vontade de guardar a luz tristelinda, desamparinho que nos demora o entardecer.
Desamparinho é palavra mimosa. Luz manselinha.
6.11.10
3.11.10
29.10.10
10.10.10
18.9.10
25.8.10
16.8.10
24.7.10
19.7.10
6.7.10
2.7.10
CANCIÓN
Álamo Blanco
Arriba canta el pájaro,
y abajo canta el agua.
- Arriba y abajo,
se me abre el alma - .
Mece a la estrela el pájaro,
a la flor mace el agua.
- Arriba y abajo,
me tiembla el alma -.
-Juan Ramón Jimenez; Antología poética; Edición de Javier Blasco
Catedra - Letras Hispánicas .
29.6.10
15.6.10
8.6.10
Sente-se na minha frente.
Isso, um bocadinho de lado,
é melhor assim.
O perfil da boca fala melhor que os olhos.
Os olhos são muito sabidos,
olham e sabem-se olhados,
conhecem a arte de fingir.
A fissura dos lábios é de nervo rijo,
ri ou chora quando precisa,
não quando deve.
Olhos nos olhos é uma treta;
conhecem a conveniência do momento;
assaltam-se ou afastam-se
não se vê se por gosto se a contra-gosto.
É preciso saber muito para entender os olhos nos olhos.
Sou ignorante. Também tenho medo.
Assim, já está bem.
Estou a ver.
Vou guardar a imagem na pele.
Agora
sento-me eu,
também de lado.
Pode olhar.
Veja como é firme
a fissura dos lábios.
6.6.10
Fui ao vale de algum do meu crescimento e cruzei-me com um monge. Levava o cântaro do leite para os irmãos mais idosos.
Trazia os olhos no chão, mas tratei-o pelo nome.
Que festa de reencontro e conversa comprida!
Conversámos como há muitos anos, pouco mais que adolescentes.
O monge recolheu-se.
Levava uma ponta da alegria difícil de ler.
Ainda lhe conheço algumas letras.
Trazia os olhos no chão, mas tratei-o pelo nome.
Que festa de reencontro e conversa comprida!
Conversámos como há muitos anos, pouco mais que adolescentes.
O monge recolheu-se.
Levava uma ponta da alegria difícil de ler.
Ainda lhe conheço algumas letras.
4.6.10
No apagues, por Dios, la luz
Que arde dentro de mí mismo...
(Juan Ramón Jiménez)
O sol só cumpre o dever
de vir sempre a seguir à noite
não é da manhã luz materna...
não tem ouvidos nem olhar
velaste e a luz não sabe
descansas o sol não deu conta.
A luz arde dentro de ti.
A alba perfuma as flores
por ser de ambas a condição
como o branco é da geada...
sorrirem-te as madrugadas
é da quentura do teu sangue...
não vás por luzes andadeiras.
25.5.10
As Poupanças
Na realidade enganaste-me,
depositei o meu amor em ti
como numa caixa forte,
e que aí estaria sempre, dizias,
até que viesse buscá-lo.
Faliste, involuntariamente, é certo
(amor e morte são tão involuntários!)
não há ninguém no teu escritório e levaste
todas as minhas poupanças deixando-me as tuas.
Não sei que fazer com elas, é o que é,
nem com toda essa fé que tinhas no mundo.
(Jordi Virallonga; Quanto sei de mim - Tradução de Carlos Veiga Ferreira; teorema)
depositei o meu amor em ti
como numa caixa forte,
e que aí estaria sempre, dizias,
até que viesse buscá-lo.
Faliste, involuntariamente, é certo
(amor e morte são tão involuntários!)
não há ninguém no teu escritório e levaste
todas as minhas poupanças deixando-me as tuas.
Não sei que fazer com elas, é o que é,
nem com toda essa fé que tinhas no mundo.
(Jordi Virallonga; Quanto sei de mim - Tradução de Carlos Veiga Ferreira; teorema)
20.5.10
17.5.10
24.4.10
23.3.10
Cantiga da Ama
Quando se ouvem as vozes das crianças no largo
E se ouvem os risos nos montes,
O meu coração sossega no peito
E tudo o resto se cala.
"Vá, vamos pra casa, meninos, o sol já se foi embora
E vem aí o relento,
Vamos, vamos, acabou a brincadeira, toca a recolher
Até o dia nascer."
"Não, só mais um bocadinho, ainda não está escuro
E não podemos ir dormir,
Olha, os passarinhos ainda voam no céu
E as ovelhas estão todas no monte."
"Vá, vão, vão, mas só até ficar escuro
E depois vão pra casa dormir."
As crianças saltaram & gritaram & riram
E os montes todos ecoaram.
-William Blake; Cantigas da Inocência e da Experiência - Tradução de Manuel Portela; Antígona
E se ouvem os risos nos montes,
O meu coração sossega no peito
E tudo o resto se cala.
"Vá, vamos pra casa, meninos, o sol já se foi embora
E vem aí o relento,
Vamos, vamos, acabou a brincadeira, toca a recolher
Até o dia nascer."
"Não, só mais um bocadinho, ainda não está escuro
E não podemos ir dormir,
Olha, os passarinhos ainda voam no céu
E as ovelhas estão todas no monte."
"Vá, vão, vão, mas só até ficar escuro
E depois vão pra casa dormir."
As crianças saltaram & gritaram & riram
E os montes todos ecoaram.
-William Blake; Cantigas da Inocência e da Experiência - Tradução de Manuel Portela; Antígona
20.3.10
9.3.10

O homem arrastou-se pelo negrume impenetrável.
A princípio tinha solo pedregoso debaixo dos pés e a caminhada não era muito difícil, mas passado pouco a neve endureceu; as condições pioraram.
Teve de confiar na sua linha de pensamento:
A raposa pode ser infantilmente tímida em relação à intempérie. Vai escavar um buraco na neve ou enfiar-se profundamente em fendas, muito abaixo da marca de gelo, e ficar aí até que tenha passado o mau tempo.
Agora, o homem tinha uma hipótese de encurtar o intervalo entre ele e a pequena raposa.
Sjón - A Raposa Azul; trad. de Maria João Freire de Andrade - cavalo de ferro
21.2.10
30.1.10
A imaginação não é a capacidade de inventar imagens, mas a de harmonizá-las com o nada inicial do poema.
Todo o discurso sem zonas de escuridão é convencional e precisa de inspiração. Mas escuridão, neste caso, não quer dizer falta de lucidez.
A poesia está feita do que se diz, mas também do que se cala. Por isso, quem diz tudo não é poeta. Quem tudo cala, também não, mas acaba por ser menos maçador.
A última gota, a que a esponja não expulsa quando a esprememos, é a poesia. Mas essa mesma gota não é nada sem a pressão da mão.
(Angel Crespo - A Realidade Interna - Poemas escolhidos (1949-1990). Selecção e Tradução de José Bento - teorema)
Todo o discurso sem zonas de escuridão é convencional e precisa de inspiração. Mas escuridão, neste caso, não quer dizer falta de lucidez.
A poesia está feita do que se diz, mas também do que se cala. Por isso, quem diz tudo não é poeta. Quem tudo cala, também não, mas acaba por ser menos maçador.
A última gota, a que a esponja não expulsa quando a esprememos, é a poesia. Mas essa mesma gota não é nada sem a pressão da mão.
(Angel Crespo - A Realidade Interna - Poemas escolhidos (1949-1990). Selecção e Tradução de José Bento - teorema)
25.1.10
Foi o primeiro a levantar-se, abriu as portadas e viu o dia. O sol andava pelos lameiros e as gotas do orvalho piscavam às cores. Isso estava à vista, mas não era o que levava no peito.
Abriu o quarto de dormir, disse a quem dormia: é de nós, ou da casa; o tempo certo nunca vem quando é preciso.
Quem era de se levantar levantou-se, viu claramente visto o peito do sol e as cores das coisas.
Disse: é verdade, os tempos andam incertos.
Olharam-se.
Viam como ia o sol. Mas
também se sabiam de coração.
Abriu o quarto de dormir, disse a quem dormia: é de nós, ou da casa; o tempo certo nunca vem quando é preciso.
Quem era de se levantar levantou-se, viu claramente visto o peito do sol e as cores das coisas.
Disse: é verdade, os tempos andam incertos.
Olharam-se.
Viam como ia o sol. Mas
também se sabiam de coração.
23.1.10
O céu deve existir.
Às vezes, a gente sente-o, sobretudo quando podemos ver as coisas mais ou menos assim, mas isto é um exemplo.
O tempo anda frio e húmido e a casa tem estado vazia, quero dizer, não é bem vazia; não está na medida dela e isso morde o peito.
É a maneira de dizermos fazeis-nos falta, vinde cá a casa, onde há os sítios que nos completam; e sabemos que onde morais há bocadinhos iguais: também lá estamos bem.
É também a maneira de podermos ouvir temos casa de sobra e não está na medida do peito.
E a gente não fala. O peito fica aberto e escuta. Há um ventinho que nos passa, e o que é preciso.
Quando estamos atentos, são as coisas pequenas que vemos. A maior parte das vezes, só olhamos os mundos abertos, que só precisam dos olhos e são as coisas grandes que incham as casas.
As coisas pequenas é que as enchem.
As casas só se enchem do que quase ninguém vê
é da atenção que elas se completam
e o céu é assim,
sempre à espera
Às vezes, a gente sente-o, sobretudo quando podemos ver as coisas mais ou menos assim, mas isto é um exemplo.
O tempo anda frio e húmido e a casa tem estado vazia, quero dizer, não é bem vazia; não está na medida dela e isso morde o peito.
É a maneira de dizermos fazeis-nos falta, vinde cá a casa, onde há os sítios que nos completam; e sabemos que onde morais há bocadinhos iguais: também lá estamos bem.
É também a maneira de podermos ouvir temos casa de sobra e não está na medida do peito.
E a gente não fala. O peito fica aberto e escuta. Há um ventinho que nos passa, e o que é preciso.
Quando estamos atentos, são as coisas pequenas que vemos. A maior parte das vezes, só olhamos os mundos abertos, que só precisam dos olhos e são as coisas grandes que incham as casas.
As coisas pequenas é que as enchem.
As casas só se enchem do que quase ninguém vê
é da atenção que elas se completam
e o céu é assim,
sempre à espera
4.1.10

Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...
Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.
Desbaratei-te, amor, com palavras.
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava -
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.
(Cristina Campo; O Passo do Adeus - Trad de José Tolentino Mendonça; Assírio & Alvim)
Nota pequena: ando sempre com Cristina Campo como Jacob com o Anjo: tarda-me a bênção, quero dizer, fica-me sempre qualquer coisa por entender dela...
2.1.10
levezas
31.12.09
23.12.09
Natal
1
Às vezes, ponho palavras num caderno.
São obra desajeitada, mas deram voltas como em oficina de ourives,
como as mãos frias antes de afagar as bochechas dos filhos:
arte de unir as palmas, entrelaçar os dedos,
as palavras e as mãos se aquecerem até a quentura ficar igual.
Junto as palavras como preparo as mãos.
A obra não será perfeita, mas espera merecer algum olhar,
como nos fazem as crianças.
2
Às vezes, as palavras são lisas, latão frio.
3
Mas, quando olhas para mim, vou ao tecto do mundo.
É da tua cara quente.
É da tua cara quente.
10.12.09
A ÚNICA ROSA
7.12.09
Mamá
Bórdame en tu almohada.
(Lorca: poema Canción Tonta))
Quando nasci,
pai?
No nascer do sol,
filho.
O céu tinha as estrelas
como hoje?
Parece a minha colcha bordada.
Pareces o menino da Canção Tonta,
filho.
As estrelas são os teus olhos.
A mãe bordou-os,
foi?
Porque me estás a olhar,
pai?
Por causa da mãe,
filho,
fez os teus olhos.
Agora és tu o tonto,
pai.
Às tardinhas ficas assim.
Por causa das estrelas,
filho.
Vem aí a noite.
E a mãe vai bordar
estrelas?
27.11.09
20.11.09
10.11.09
Dois impropérios seguidos de grão de trigo
Às vezes é tudo claro como o voo das aves
sabem do vento que não as desarruma.
O sítio certo das coisas devia ser o das aves
não lavram nem semeiam
conhecem as sementes.
2
Às vezes sabemos onde nos fomos deixando
voltamos esquecemo-nos do vento
espalhou-nos por toda a parte
fragmentos de pouco jeito.
voltamos esquecemo-nos do vento
espalhou-nos por toda a parte
fragmentos de pouco jeito.
**
Poucas vezes as coisas são claras
talvez tenham alguma luz
os bocadinhos do tempo bom
abrigados na arca do peito.
talvez tenham alguma luz
os bocadinhos do tempo bom
abrigados na arca do peito.
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