Sentava-se também numa cabana a contar os pássaros.
Cada um trazia uma palavra e eram todas lavadas e ia vesti-las roupa nova.
E perguntou a quem era de perguntar se eram de expressão as rugas que levava.
13.4.12
9.4.12
Dos sorrisos 1
Habituou-se a olhar as
nuvens dos sítios de onde via o céu: andar de avião não o
entusiasmava.
Foi viajar e ia lendo
Tonino Guerra, “Histórias para uma Noite de Calmaria”.
Fechou os olhos: era
uma nuvem azul à vidraça do quarto dos filhos.
Era também um velho a
entrar nas águas largas do mar.
E quem ia ao lado
perguntou por que sorria.
30.3.12
Canto Vigésimo terceiro
Esta manhã meu irmão procurava
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.
Tonino Guerra; O Mel
Tradução de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim
qualquer coisa nas gavetas: remexeu
no armário, nos bolsos dos casacos,
dos capotes e de cabeça e mãos
na cómoda tirou tudo para fora.
Virou do avesso até a cozinha.
Passava de um quarto para outro
sem me ligar.
Quando começou a revistar a minha cama
perguntei-lhe: que procuras?
Não sei. Primeiro procurava um prego,
a seguir um botão, depois queria fazer café
e agora preciso que me digas alguma coisa,
nem que seja uma tolice.
Tonino Guerra; O Mel
Tradução de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim
25.3.12
Cartas da tarde
Se fosse de dar ordens ao princípio do dia, havia de dizer
ordena as horas sem pressa, que a tarde tem muito tempo,
assim o vento dispõe as folhas,
e vai dando à luz o amolecimento da tardinha;
preciso dizer à noite
demora o que quiseres, as folhas estão aconchegadas.
ordena as horas sem pressa, que a tarde tem muito tempo,
assim o vento dispõe as folhas,
e vai dando à luz o amolecimento da tardinha;
preciso dizer à noite
demora o que quiseres, as folhas estão aconchegadas.
21.3.12
Poesia também é atenção, ou seja, leitura em muitos planos da realidade à nossa volta, que é a verdade em imagens. E o poeta, que vai desfazendo e recompondo essas imagens, é também um mediador: entre o homem e o deus, entre o homem e o outro homem, entre o homem e as regras secretas da natureza.
Os gregos foram seres desdenhosos da imaginação: a fantasia não encontrou lugar no seu espírito. A sua atenção heróica, irremovível (cujo exemplo extremo é talvez Sófocles) sem cessar estabelecia relações, e sem cessar separava e unia, num esforço permanente de decifração tanto da realidade como dos mistérios. Os chineses meditaram durante milénios do mesmo modo, em torno do maravilhoso Livro das Mutações. Dante, por mais escandaloso que possa soar, não é um poeta da imaginação, mas da atenção: ver almas a contorcer-se no fogo e no azeite a ferver, ou entrever no orgulho um manto de chumbo, é uma suprema forma de atenção, que deixa puros e incontaminados os elementos da ideia.
- Cristina Campo, Os Imperdoáveis; tradução de José Colaço Barreiros; Assírio & Alvim -
Os gregos foram seres desdenhosos da imaginação: a fantasia não encontrou lugar no seu espírito. A sua atenção heróica, irremovível (cujo exemplo extremo é talvez Sófocles) sem cessar estabelecia relações, e sem cessar separava e unia, num esforço permanente de decifração tanto da realidade como dos mistérios. Os chineses meditaram durante milénios do mesmo modo, em torno do maravilhoso Livro das Mutações. Dante, por mais escandaloso que possa soar, não é um poeta da imaginação, mas da atenção: ver almas a contorcer-se no fogo e no azeite a ferver, ou entrever no orgulho um manto de chumbo, é uma suprema forma de atenção, que deixa puros e incontaminados os elementos da ideia.
- Cristina Campo, Os Imperdoáveis; tradução de José Colaço Barreiros; Assírio & Alvim -
8.3.12
40. ELA E ELE ALTERNADAMENTE
- Pressinto um outro mundo.
- Terá que passar a história inteira
até que o dia de hoje chegue aos olhos.
- Aos que persistem...
- ...que hão-de ver as brumas sobre os rios
que as transportam ao coração da terra.
- Estamos aqui parados
até que a luz nos veja.
- Pressinto um outro mundo.
- Terá que passar a história inteira
até que o dia de hoje chegue aos olhos.
- Aos que persistem...
- ...que hão-de ver as brumas sobre os rios
que as transportam ao coração da terra.
- Estamos aqui parados
até que a luz nos veja.
Vem a luz.
O Teatro ilumina-se.
O palco está deserto.
- Pedro Tamen; Um Teatro às Escuras; Publicações Dom Quixote, 2011 -
7.3.12
No regresso à casa, sento-me na soleira, viajante duvidoso;
quero entrar despojado, até do vento e das palavras que lhe emprestei,
e fazer a conta ao que ainda pesa.
Trago bagagem a mais, mas alguma coisa preciso levar e leve tem de ser.
Palavras, poucas, que sou filho do silêncio da casa que me chama.
Alforge, há muito o larguei. Mas muito sujo se colou na pele, palavras inúteis.
Menino de escola, safo as letras a mais.
Limpo os olhos, que neles trago a bagagem essencial, peregrino de muito pó.
Liberto me exijo, que a espera é como as águas maternas, singelas e disponíveis,
vida e a morte, irmãs gémeas sempre juntas.
Na hora do silêncio maior, o da mesa posta, lareira acesa, vou entrar.
Ligeiros estarão os olhares: muitas águas os lavaram.
E, menino de escola, levo a flor que aprendi nos caminhos.
quero entrar despojado, até do vento e das palavras que lhe emprestei,
e fazer a conta ao que ainda pesa.
Trago bagagem a mais, mas alguma coisa preciso levar e leve tem de ser.
Palavras, poucas, que sou filho do silêncio da casa que me chama.
Alforge, há muito o larguei. Mas muito sujo se colou na pele, palavras inúteis.
Menino de escola, safo as letras a mais.
Limpo os olhos, que neles trago a bagagem essencial, peregrino de muito pó.
Liberto me exijo, que a espera é como as águas maternas, singelas e disponíveis,
vida e a morte, irmãs gémeas sempre juntas.
Na hora do silêncio maior, o da mesa posta, lareira acesa, vou entrar.
Ligeiros estarão os olhares: muitas águas os lavaram.
E, menino de escola, levo a flor que aprendi nos caminhos.
2.3.12
18.2.12
Cartas da tarde
O meu amor sabe o meu coração.
Quando estiver a chegar, vai tossir e fazer barulho com os sapatos.
Vou ficar contente e e nem era preciso o cuidado:
o corpo inteiro guarda-lhe os cheiros e adivinha-o com os olhos.
Estudo o vento todas as tardes.
Olho as colinas por onde vem quem espero, quem me conhece de coração, de quem sei as cores que traz nos olhos;
são as que lhe dei naquele dia que sabe.
Quando estiver a chegar, vai tossir e fazer barulho com os sapatos.
Vou ficar contente e e nem era preciso o cuidado:
o corpo inteiro guarda-lhe os cheiros e adivinha-o com os olhos.
Estudo o vento todas as tardes.
Olho as colinas por onde vem quem espero, quem me conhece de coração, de quem sei as cores que traz nos olhos;
são as que lhe dei naquele dia que sabe.
15.2.12
2.2.12
Alguns gostam de poesia
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
- Wisława Szymborska; in: "Alguns gostam de poesia - Antologia - Czeslaw Milosz e Wisława Szymborska;
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e sèrgio das Neves; Cavalo de ferro editores -
(Fui buscar, com as devidas licenças, a fotografia a http://amata.anaroque.com/)
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.
Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.
De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
- Wisława Szymborska; in: "Alguns gostam de poesia - Antologia - Czeslaw Milosz e Wisława Szymborska;
Selecção, introdução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e sèrgio das Neves; Cavalo de ferro editores -
(Fui buscar, com as devidas licenças, a fotografia a http://amata.anaroque.com/)
31.1.12
Em Madrid, fui à exposição Hermitage no Prado. Era muita a gente e parei em dois sítios:
-no tocador de alaúde, parecíamos uma estação da Via Sacra; não dava para “ouvir” bem: tenho de olhar noutra altura;
- fui para um sítio sem ninguém: A visita à avó. Deu para parar muito tempo por causa daquele olhar pequenino da criança e do cão; ponho-o aqui para o olhar mais tempo.
-no tocador de alaúde, parecíamos uma estação da Via Sacra; não dava para “ouvir” bem: tenho de olhar noutra altura;
- fui para um sítio sem ninguém: A visita à avó. Deu para parar muito tempo por causa daquele olhar pequenino da criança e do cão; ponho-o aqui para o olhar mais tempo.
28.1.12
26.1.12
A poesia orvalho que escolhe a flor onde o sol se compraz
bom lume a esmera.
É uma rapariga com flores no cabelo mar bonito
a colher os náufragos,
riso caprichoso de romã
a guardar o fogo que julgávamos nosso.
Colmeal da Torre, 26/Jan/2012
Plantei outra romãzeira de guarda à casa; ao lado da porta, para dar os bons dias a quem chega.
A primeira anda amuada.
bom lume a esmera.
É uma rapariga com flores no cabelo mar bonito
a colher os náufragos,
riso caprichoso de romã
a guardar o fogo que julgávamos nosso.
Colmeal da Torre, 26/Jan/2012
Plantei outra romãzeira de guarda à casa; ao lado da porta, para dar os bons dias a quem chega.
A primeira anda amuada.
15.1.12
Ouvia, nas tardes, os sons do quintal. Às vezes, punha o ouvido no chão a isolar as vozes e ria-me, coração aos saltinhos.
Havia timbres diferentes e eram cinco as melodias.
Cinco, é isso, ainda que, em alguns céus varridos, parecessem acordes da música dos moinhos de pão ao desafio com o marulhar das folhas dos nossos vidoeiros.
Havia timbres diferentes e eram cinco as melodias.
Cinco, é isso, ainda que, em alguns céus varridos, parecessem acordes da música dos moinhos de pão ao desafio com o marulhar das folhas dos nossos vidoeiros.
14.1.12
David Inshaw
Donde vens? perguntou-me Zeno. De muito longe, respondi. Se vens de longe é porque não te encontraste ainda, disse. Devo então continuar a preocupar-me? Até quando? perguntei. Até ao dia - respondeu Zeno - em que o teu pé for inseparável do chão em que julgas caminhar.
- Casimiro de Brito; Arte da Respiração; Publicações Dom Quixote
3.1.12
25.12.11
11.12.11
Vi nos claustros palavras essenciais, e aprendi a sabê-las em jogos de enleio e fuga, amantes de muita sedução.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.
O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.
Apareciam da aurora até vir o dia cheio, luz furta-cores em negaças, fugindo à memória dos olhos; era preciso esperar mais manhãs. Todos os dias.
O tempo trazia sempre luz, mas as palavras cirandavam a luzir. Despiam-se fechavam-se, deixando sempre pontas de mistério.
O tempo ainda traz as alvoradas e a luz maior.
São outras as palavras e é igual o enamoramento.
1.12.11
Conversitas
Nem sempre é o lado da luz a indicar o caminho.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.
Como na sedução, é preciso o lado da sombra. Dizias.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



