27.9.12

Canção dos que partem

Vamos embora, o mar já se não sente
com o seu hálito
e as videiras parece que secaram
por falta de alegria.

Está aí o outono, encharca-nos as veias,
e todos recolhemos
mudos a nossas casas. Nem um copo
de vinho nos cai bem.

Hoje qualquer sítio é melhor do que este
e tanto quanto mais longe estiver.
Pesa-nos o destino de nós todos
sermos pequenos

como as velhas cidades quando
a guerras as assolava,
ruas que eram vielas,
a gente que depois enchia

as estradas de fuga, como agora
sucede sem se ver.
Aqui não somos livres e não tarda
os meirinhos virão por nós,

levando-nos as coisas penhoradas
quando nada devemos,
e assim actuam desde o início,
às vezes a ira, o sangue, a história.

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, Artefacto, Lisboa 2012

22.9.12

Bilhete

Despem-se as árvores, gesto de ternura
comunhão com o frio
dócil aos enleios do vento.
Serenam os campos.

O sol ainda vai grande, diospiro de fogo
as aves são-lhe a festa
giestas lumes do sol.
Muita luz para tecer.

Vestes as minhas palavras, corpo festivo
lavro-as à tua sombra
levam a tua seiva.

16.8.12

Sei um sítio virado ao nascente
onde as manhãs chegam lúcidas,
algum vento, palavra leve
a limpar noites mal dormidas,

e, das colinas, escorre o silêncio bom,
ventre perfeito das palavras.

11.8.12

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo

Pedro Tamen, O livro do sapateiro - Dom Quixote, 2010

30.7.12

(Childe Hassam)
Passar o fim da tarde na praia sozinha, escondida nas arribas
meditar coisas pequenas, do tamanho da espuma a descer na areia
recolher do mar a música antiga.

Subir até ao sítio dos pinheiros, torcidos mas de boa vista
ver o fim do mar afogado na neblina
ver o sol a ir embora.

Contemplar da luz e da música as cores que trazem.

Boa noite.

27.7.12

(Edward Potthast)

Homem feito,
és menino a brincar na areia,
criança a dizer a idade com os dedos.
Tempo bem medido é o teu.

O tempo é sagrado. Passa por ele com simplicidade.

22.7.12

Sei que me basta estar entre aqueles de quem gosto,
Que estar pela noite na sua companhia me basta,
Que me basta estar rodeado da bela, curiosa, sorridente carne que respira,
Pois o que é estar entre eles, tocá-los, descansar levemente o meu braço à volta do pescoço dela ou dele?
Não peço outro contentamento, nele nado como num mar.
Há qualquer coisa no facto de se estar junto a homens e mulheres e obsevá-los, no contacto e no cheiro deles que tanto agrada à alma,
Todas as coisas agradam à alma, mas estas agradam-lhe mais.

Walt Whitman; Folhas de Erva  - Selecção e tradução de José Agostinho Baptista; Assírio & Alvim.

7.7.12

Nas tardes lerdas cais de palavras salobras,
vamos por lugares serenos abrigo limpo.
Mar lavado,

entramos na noite,
o coração a bater devagarinho.
Tudo completo,

assim se aquietam as aves,
meu amor.

22.6.12

A Morte da Água


Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

Ruy Belo; Homem de Palavra[s]

12.6.12

És rio preguiçoso
não vês o mar largo,
menino que não quer crescer, dizes.

Vou indo com os salgueiros,
demoro nos olhos das rãs
são espelho das nuvens,
não viajo depressa. Foi o nosso trato.

Mas prometeste a demora necessária,
recolher os sons das palavras certas
amadurar os lábios na cor das cerejas,
apressar o passo pelas nuvens descontentes
e chegar ao primeiro calor, insistes.

Mas crescer como a sombra,
alimentar a espera
demorar devagarinho a boca e a sede,
que a lua cheia só vale por causa das noites escuras,
a alegria a rir-se do gozo. Foi o que jurámos.

Sim, meu rio pequenino.

Verdade, mar largo e paciente.

4.6.12

O menino brincava pertinho do chão
era menino das flores e seguia atento as formigas.

As pessoas crescidas viam e esqueciam por que tinham saído de casa.

Era tudo claro e fresco. A noite ficava mais longe.
Havia também muitas horas para conversar.

O crepúsculo era um rio silencioso a guardar alguns desgostos.

1.6.12

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo; Homem de Palavra[s]

29.5.12

Não é, irmão?

1.
Ao levantar, abro sempre um livro, como a dar os bons dias ao meu irmão.
Hoje era o "Mel" de Tonino Guerra.

Calhou-me o Canto Décimo Sétimo,
"Meu irmão caminha de mãos atrás das costas"
e, no fim,
"dispara peidos sonoros
como os de nosso pai."

2.
Bom dia, irmão.
Também me lembro do nosso avô. Fazia isso muito bem,mas abafava-os a resmungar muito alto.

Às vezes, a gente precisa de dizer alguma coisa,
"nem que seja uma tolice",
não é, irmão?

3.
Mas, também, olha. Lembro-me das trovoadas.
Não se percebe se os relâmpagos nos distraem dos trovões, ou se é Santa Bárbara a preparar-nos o dia à volta do lar, como o do avô, brasas vermelhinhas, a panela de ferro.
O avô rezava o terço e ia-nos semeando nos olhos um silêncio grande, de boa noite.

21.5.12

Colhe a rosa
esquecida
no caminho

beija-a depois

Suave
a luz te é
reservada.

-Amélia Pais; em: "Ao longe os barcos de flores"; 01/04/12-

(Boa noite, Amélia)


16.5.12

Os Amigos

Esses  estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

José Tolentino Mendonça; De Igual para Igual
 - Assírio & Alvim

15.5.12

As giestas

Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias

(Ruy Belo; O Problema da Habitação - Alguns Aspectos)

Examinemo-nos bem, meninos muito sérios
a escandir as palavras que ainda não disseram.

Não é a alegria das giestas que doura as tardes de domingo;
baloiçam sem saber, não dão conta dos dias.

Não é o amarelo do monte a vestir-nos, como quando vagueávamos pelas colinas,
que prepara o crepúsculo. Mas as luzes é bom.

Bendito o fogo amarelo das flores de domingo,
como quando nos despíamos ligeirinhos como o vento.

A quem reparte os olhos pelos campos a vida louvada seja.

6.5.12

Se fosse Deus, pintava um quadro:
uma porta meio aberta e a escada suave;
no cimo, a minha mãe.
E arranjava maneira de o sorriso dela estar a dizer:
a porta está como a deixaste
e sei que me tens os olhos.

Não dava nome ao quadro
e todos iam entender que era o retrato do céu.

5.5.12

Era na cadeira da tarde que analisava as palavras,
monge a entrar no silêncio peregrino dos campos largos.

Eram poucas, bom dia, que os filhos te sorriam à mesa,
e iluminavam a noite.

As palavras eram como alpendres,
açafate de uvas maduras.

De vez em quando paramos de crescer

De vez em quando paramos de crescer
é das raízes afundadas na terra doce
do sol esplendendo só por esplender.

De vez em quando voltamos a crescer
não cabemos na casa da pele do olhar
ruímos para dentro tudo por fazer outra vez.

Entre um dia e outro somos só caminho
vigília breve na terra áspera
e mãos transidas de luar

Soledade Santos
em: nocturnocomgatos.weblog.com.pt

1.5.12

Assimilou os nomes da luz e as sombras do chão.
Olhos do trevo que guarda o tempo airoso,
alegria bem temperada foi a sua herança.

Nas tardes de morrinha, ficava à janela a olhar os vidoeiros.
Se as gotas tremeluziam, sentava-se na cadeira dos velhos a ouvir o vento a respirar
e sabia como o mundo era feito.