30.11.12

As crianças não compreendem a idade, para elas quarenta ou oitenta anos são a mesma desgraça. Uma vez nas escadas ouvi Maria perguntar à avó se era velha. A avó respondeu que não, Maria perguntou se o avô era velho e a avó respondeu que não. Então Maria perguntou: "Mas então os velhos não existem?", e ganhou uma bofetada. Eu compreendo os anos das pessoas, mas não os de Rafaniello. Na cara tem cem anos, nas mãos quarenta, no cabelo vinte, todo ruivo e desgrenhado. Nas palavras não sei, fala pouco com uma voz muito fina. Canta numa língua estrangeira, quando varro o seu canto faz-me um sorriso e movem-se as rugas e as sardas, parece o mar debaixo da chuva.

(Erri de Luca, Montedidio; tradução de Simonetta Neto; Bertrand, Lisboa 2012)

19.11.12

isto não é um girassol

sombras escurecem o sol
o girassol chora
lágrimas pequeninas

17.11.12

Conversitas

- Corta essa barba. Pareces mais velho.
- E, se entre parecer e ser, não houver diferença?
- às vezes, já parece.
- Fala mais baixo.

O problema não tem sido grande, pois não?
- Pois é, não é?

15.11.12

Um poema deve ser calado
como o voo dos pássaros.

Archibald MacLeish, Ars Poética (vd.: Rosa do Mundo, pág. 1324-5)

1.11.12

Casa na chuva

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

- Eugénio de Andrade; Escrita da Terra -

12.10.12

Bilhete

A Terra ao Sol dá nascença
todas as manhãs, e lava-se na água

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; trad. de Júlio Henriques; Ed.Antígona)

A manhã agoira silêncio frio. Não é da falta de sol, mas dos olhos, que deles vive o sol e a água que trazem às vezes não é de luz.
O pardal atravessa a árvore no sítio mais luminoso.

Sábios os olhos dos pássaros a perceber as paisagens pardas e a ir por céus abertos, e as manhãs são as cartas dos nossos olhos, levadas no voo dos pássaros.
Estuda-lhes a humidade; no pino do dia, escuta as sementeiras e repousa. Faz aí a tua casa.
As aves não tardam.

5.10.12

Legado

Ele diz: creio na poesia, creio no amor, creio na morte, exactamente porque creio na imortalidade. Escrevo um verso, escrevo o mundo; existo; o mundo existe. Da extremidade do meu dedo mínimo corre um rio. O azul do céu é azul sete vezes. Esta pureza é de novo a primeira verdade, a última das minhas vontades.

Yannis Ritsos; versão de Eugénio de Andrade em Trocar de Rosa.

27.9.12

Canção dos que partem

Vamos embora, o mar já se não sente
com o seu hálito
e as videiras parece que secaram
por falta de alegria.

Está aí o outono, encharca-nos as veias,
e todos recolhemos
mudos a nossas casas. Nem um copo
de vinho nos cai bem.

Hoje qualquer sítio é melhor do que este
e tanto quanto mais longe estiver.
Pesa-nos o destino de nós todos
sermos pequenos

como as velhas cidades quando
a guerras as assolava,
ruas que eram vielas,
a gente que depois enchia

as estradas de fuga, como agora
sucede sem se ver.
Aqui não somos livres e não tarda
os meirinhos virão por nós,

levando-nos as coisas penhoradas
quando nada devemos,
e assim actuam desde o início,
às vezes a ira, o sangue, a história.

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, Artefacto, Lisboa 2012

22.9.12

Bilhete

Despem-se as árvores, gesto de ternura
comunhão com o frio
dócil aos enleios do vento.
Serenam os campos.

O sol ainda vai grande, diospiro de fogo
as aves são-lhe a festa
giestas lumes do sol.
Muita luz para tecer.

Vestes as minhas palavras, corpo festivo
lavro-as à tua sombra
levam a tua seiva.

16.8.12

Sei um sítio virado ao nascente
onde as manhãs chegam lúcidas,
algum vento, palavra leve
a limpar noites mal dormidas,

e, das colinas, escorre o silêncio bom,
ventre perfeito das palavras.

11.8.12

Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo

Pedro Tamen, O livro do sapateiro - Dom Quixote, 2010

30.7.12

(Childe Hassam)
Passar o fim da tarde na praia sozinha, escondida nas arribas
meditar coisas pequenas, do tamanho da espuma a descer na areia
recolher do mar a música antiga.

Subir até ao sítio dos pinheiros, torcidos mas de boa vista
ver o fim do mar afogado na neblina
ver o sol a ir embora.

Contemplar da luz e da música as cores que trazem.

Boa noite.

27.7.12

(Edward Potthast)

Homem feito,
és menino a brincar na areia,
criança a dizer a idade com os dedos.
Tempo bem medido é o teu.

O tempo é sagrado. Passa por ele com simplicidade.

22.7.12

Sei que me basta estar entre aqueles de quem gosto,
Que estar pela noite na sua companhia me basta,
Que me basta estar rodeado da bela, curiosa, sorridente carne que respira,
Pois o que é estar entre eles, tocá-los, descansar levemente o meu braço à volta do pescoço dela ou dele?
Não peço outro contentamento, nele nado como num mar.
Há qualquer coisa no facto de se estar junto a homens e mulheres e obsevá-los, no contacto e no cheiro deles que tanto agrada à alma,
Todas as coisas agradam à alma, mas estas agradam-lhe mais.

Walt Whitman; Folhas de Erva  - Selecção e tradução de José Agostinho Baptista; Assírio & Alvim.

7.7.12

Nas tardes lerdas cais de palavras salobras,
vamos por lugares serenos abrigo limpo.
Mar lavado,

entramos na noite,
o coração a bater devagarinho.
Tudo completo,

assim se aquietam as aves,
meu amor.

22.6.12

A Morte da Água


Um dos passeios que mais gosto de dar é ir a esposende ver desaguar o cávado. Existe lá um bar apropriado para isso. Um rio é a infância da água. As margens, o leito, tudo a protege. Na foz é que há a aventura do mar largo. Acabou-se qualquer possível árvore genealógica, visível no anel do dedo. Acabou-se mesmo qualquer passado. É o convívio com a distância, com o incomensurável. É o anonimato. E a todo o momento há água que se lança nessa aventura. Adeus margens verdejantes, adeus pontes, adeus peixes conhecidos. Agora é o mar salgado, a aventura sem retorno, nem mesmo na maré cheia. E é em esposende que eu gosto de assistir, durante horas, a troco de uma imperial, à morte de um rio que envelheceu a romper pedras e plantas, que lutou, que torneou obstáculos. Impossível voltar atrás. Agora é a morte. Ou a vida.

Ruy Belo; Homem de Palavra[s]

12.6.12

És rio preguiçoso
não vês o mar largo,
menino que não quer crescer, dizes.

Vou indo com os salgueiros,
demoro nos olhos das rãs
são espelho das nuvens,
não viajo depressa. Foi o nosso trato.

Mas prometeste a demora necessária,
recolher os sons das palavras certas
amadurar os lábios na cor das cerejas,
apressar o passo pelas nuvens descontentes
e chegar ao primeiro calor, insistes.

Mas crescer como a sombra,
alimentar a espera
demorar devagarinho a boca e a sede,
que a lua cheia só vale por causa das noites escuras,
a alegria a rir-se do gozo. Foi o que jurámos.

Sim, meu rio pequenino.

Verdade, mar largo e paciente.

4.6.12

O menino brincava pertinho do chão
era menino das flores e seguia atento as formigas.

As pessoas crescidas viam e esqueciam por que tinham saído de casa.

Era tudo claro e fresco. A noite ficava mais longe.
Havia também muitas horas para conversar.

O crepúsculo era um rio silencioso a guardar alguns desgostos.

1.6.12

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo; Homem de Palavra[s]