9.2.13

Yo y tú somos ya tú y yo
como el mar y como el cielo
cielo y mar, sin querer, son.

Juan Ramón Jiménez, Estio



Digo tristezas nas manhãs deslavadas:
sou um menino
poucas palavras o aninham.

          Olha as minhas mãos.

Tens mãos de lume:
sou menino
e as tuas palavras espuma de sol.

          As noites de chuva limpam o céu
          inventamos risos bordados
          manhãs braços abertos.

Resvalas no meu corpo crescido.

          Pareces uma praia de luz
          água macia céu alecrim.
          Morro nos teus olhos, devagar.

Como o céu adormece no mar.    

1.2.13

As coisas andam ásperas,
mas no tempo novo sabíamos descansar na ternura dos campos.

O pôr do sol vai perdendo as cores, meu amor.
O tempo não é novo.

O tempo não é novo,
mas sabíamos a música das flores abertas ao sol.

Fez bem pensar em sítios bonitos,
que os dias não têm maneiras. Os dias adormecem.

Às vezes o tempo é promessa,
pomar de macieiras asseadas de pássaros.

E do voo das abelhas,meu amor.

12.1.13

A promessa



Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.

Jane Hirshfield, EUA (n. 1953), tradução de Soledade Santos
( http://mdcia.wordpress.com/2013/01/02/a-promessa)

2.1.13

O Hóspede

Muito antes do anoitecer
chega a tua casa alguém que saudou a escuridão.
Muito antes do amanhecer
ele acorda
e atiça, antes de se ir embora, um sonho,
um sono onde ressoam passos:
tu ouve-lo medir as distâncias
e atiras a tua alma para lá.

Paul Celan, em: Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia.

31.12.12

Conversitas

Todos os dias fazes uma casa nova

Variação 2

Era onde dormíamos
os salgueiros mergulhados no rio
música pequenina a mexer nos cabelos.

A água tremeluzia
as imagens eram ambíguas
nunca víamos os mesmos sonhos.

E é bom.

29.12.12

Ruínas

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como um sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

(Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio & Alvim, 2011)


21.12.12

Conversitas

Todos os dias fazes uma casa nova

Variação

É veloz o teu olhar vento na vidraça.

Vou onde vai o vento entro e saio varro as casas
sou o sol e a chuva, dizias.

Levas para fora e para dentro os desenhos todos
qualquer sítio é a casa perfeita, era o meu sorriso

11.12.12

Conversitas

Todos os dias fazes uma casa nova, criança a brincar na manta, dizes.

Tenho sempre um problema com a janela
as janelas são a importância das casas.

Faz antes a porta, crescido que já estás.

Não é preciso uma porta
quem chega vai à janela e vê-nos por dentro e por fora.

7.12.12

Clara é a noite

Clara é a noite que para nós inventa corações
(Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Pética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia)

O tempo vai estúpido.
Dentro de casa a gente só diz que tempo burro.

Na rua toda a gente diz que chuva de caca.
Não dizem caca mas é a mesma coisa.

A gente como que se exila e a culpa não é da chuva.
Nascemos da noite e os dias são também as flores da nossa casa.

As rosas à volta da casa são feitas de sonhos e riem coladas nos vidros das janelas
o quintal é um rio de roseiras a mesa está posta e é de linho.
A gente pensa no tempo em que a noite subiu ao monte connosco.

5.12.12

Ao cair da tarde há sempre algum desassossego
as cores já não nos conversam os olhos
o escuro come-nos os sonhos

toca-me o corpo que a noite é generosa.

30.11.12

As crianças não compreendem a idade, para elas quarenta ou oitenta anos são a mesma desgraça. Uma vez nas escadas ouvi Maria perguntar à avó se era velha. A avó respondeu que não, Maria perguntou se o avô era velho e a avó respondeu que não. Então Maria perguntou: "Mas então os velhos não existem?", e ganhou uma bofetada. Eu compreendo os anos das pessoas, mas não os de Rafaniello. Na cara tem cem anos, nas mãos quarenta, no cabelo vinte, todo ruivo e desgrenhado. Nas palavras não sei, fala pouco com uma voz muito fina. Canta numa língua estrangeira, quando varro o seu canto faz-me um sorriso e movem-se as rugas e as sardas, parece o mar debaixo da chuva.

(Erri de Luca, Montedidio; tradução de Simonetta Neto; Bertrand, Lisboa 2012)

19.11.12

isto não é um girassol

sombras escurecem o sol
o girassol chora
lágrimas pequeninas

17.11.12

Conversitas

- Corta essa barba. Pareces mais velho.
- E, se entre parecer e ser, não houver diferença?
- às vezes, já parece.
- Fala mais baixo.

O problema não tem sido grande, pois não?
- Pois é, não é?

15.11.12

Um poema deve ser calado
como o voo dos pássaros.

Archibald MacLeish, Ars Poética (vd.: Rosa do Mundo, pág. 1324-5)

1.11.12

Casa na chuva

A chuva, outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.

- Eugénio de Andrade; Escrita da Terra -

12.10.12

Bilhete

A Terra ao Sol dá nascença
todas as manhãs, e lava-se na água

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; trad. de Júlio Henriques; Ed.Antígona)

A manhã agoira silêncio frio. Não é da falta de sol, mas dos olhos, que deles vive o sol e a água que trazem às vezes não é de luz.
O pardal atravessa a árvore no sítio mais luminoso.

Sábios os olhos dos pássaros a perceber as paisagens pardas e a ir por céus abertos, e as manhãs são as cartas dos nossos olhos, levadas no voo dos pássaros.
Estuda-lhes a humidade; no pino do dia, escuta as sementeiras e repousa. Faz aí a tua casa.
As aves não tardam.

5.10.12

Legado

Ele diz: creio na poesia, creio no amor, creio na morte, exactamente porque creio na imortalidade. Escrevo um verso, escrevo o mundo; existo; o mundo existe. Da extremidade do meu dedo mínimo corre um rio. O azul do céu é azul sete vezes. Esta pureza é de novo a primeira verdade, a última das minhas vontades.

Yannis Ritsos; versão de Eugénio de Andrade em Trocar de Rosa.

27.9.12

Canção dos que partem

Vamos embora, o mar já se não sente
com o seu hálito
e as videiras parece que secaram
por falta de alegria.

Está aí o outono, encharca-nos as veias,
e todos recolhemos
mudos a nossas casas. Nem um copo
de vinho nos cai bem.

Hoje qualquer sítio é melhor do que este
e tanto quanto mais longe estiver.
Pesa-nos o destino de nós todos
sermos pequenos

como as velhas cidades quando
a guerras as assolava,
ruas que eram vielas,
a gente que depois enchia

as estradas de fuga, como agora
sucede sem se ver.
Aqui não somos livres e não tarda
os meirinhos virão por nós,

levando-nos as coisas penhoradas
quando nada devemos,
e assim actuam desde o início,
às vezes a ira, o sangue, a história.

Nuno Dempster, Elegias de Cronos, Artefacto, Lisboa 2012

22.9.12

Bilhete

Despem-se as árvores, gesto de ternura
comunhão com o frio
dócil aos enleios do vento.
Serenam os campos.

O sol ainda vai grande, diospiro de fogo
as aves são-lhe a festa
giestas lumes do sol.
Muita luz para tecer.

Vestes as minhas palavras, corpo festivo
lavro-as à tua sombra
levam a tua seiva.