Estes poemas, estes poemas,
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.
Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona
18.4.13
8.4.13
Ladainha
O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)
Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.
Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.
O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.
O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.
A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)
Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.
Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.
O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.
O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.
A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.
31.3.13
"A terra tem um fim. Está-nos
sob os pés."
(Robert Bringhurst, "A Beleza das Armas")
Já não sabemos das vinhas onde dormimos
mas os sonhos vagueiam
chispas de água cheiros primordiais.
Do oiro das colinas percebemos o tamanho dos dias
a ternura do crepúsculo
olhos ainda cheios de uvas maduras.
E é pouco o que peço
poder olhar o horizonte
voar em ventos lavados
descansar nos campos abertos
os outeiros beijarem as nuvens.
E saber que isto nos basta.
sob os pés."
(Robert Bringhurst, "A Beleza das Armas")
Já não sabemos das vinhas onde dormimos
mas os sonhos vagueiam
chispas de água cheiros primordiais.
Do oiro das colinas percebemos o tamanho dos dias
a ternura do crepúsculo
olhos ainda cheios de uvas maduras.
E é pouco o que peço
poder olhar o horizonte
voar em ventos lavados
descansar nos campos abertos
os outeiros beijarem as nuvens.
E saber que isto nos basta.
20.3.13
16.3.13
Cântico Décimo Terceiro
De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.
Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.
Tonino Guerra, O Mel; traduçao de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim, 2004
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.
Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.
Tonino Guerra, O Mel; traduçao de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim, 2004
6.3.13
Afasta de mim o pecado da infelicidade
Manuel António Pina, O Caminho de Casa, 1989; poema Completas
Nos dias frios a solidão era mais cega.
Levantava-se e ia por gravetos e pelos cavacos de arder muito tempo e sentava-se a dormitar.
Sonhava, de pequeno, as mãos bonitas da mãe. O coração batia-lhe forte:
era grande, havia sempre sol e dormia sonhos soltos, largos.
À noite, dava mais um jeito à lareira e rezava como em criança ao colo do pai, a mãe a desenhar-lhe gestos macios na cara já quentinha.
Manuel António Pina, O Caminho de Casa, 1989; poema Completas
Nos dias frios a solidão era mais cega.
Levantava-se e ia por gravetos e pelos cavacos de arder muito tempo e sentava-se a dormitar.
Sonhava, de pequeno, as mãos bonitas da mãe. O coração batia-lhe forte:
era grande, havia sempre sol e dormia sonhos soltos, largos.
À noite, dava mais um jeito à lareira e rezava como em criança ao colo do pai, a mãe a desenhar-lhe gestos macios na cara já quentinha.
26.2.13
Completas
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina, O Caminho de Casa (1989)
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina, O Caminho de Casa (1989)
22.2.13
(...)
E no entanto nenhuma pessoa, e nenhuma cultura, é melhor que a outra, e também os Brancos têm muito a aprender com os Negros, digo. Por exemplo, os Negros nunca batem nos filhos, trazem-nos junto a si, falam com eles, atravessam juntos o desenrolar das coisas, e as crianças aprendem que há um tempo de trabalho e um tempo de repouso, um tempo de dança e um tempo de sono, há o lugar da vida e o da morte, o da alegria e o da tristeza, o lugar dos humanos e daquilo que é superior a nós e nos ultrapassa.
Uma parte do que colhemos é oferecida aos espíritos, porque não somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e sabemos que a natureza é maior que nós. Uma parte, por isso, volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
(...)
Basta-nos no fundo muito pouco, porque somos também pouco: matar a fome, a sede e o desejo de sexo, a esteira para dormir e o coração em paz.
- Teolinda Gersão; A Árvore das Palavras
E no entanto nenhuma pessoa, e nenhuma cultura, é melhor que a outra, e também os Brancos têm muito a aprender com os Negros, digo. Por exemplo, os Negros nunca batem nos filhos, trazem-nos junto a si, falam com eles, atravessam juntos o desenrolar das coisas, e as crianças aprendem que há um tempo de trabalho e um tempo de repouso, um tempo de dança e um tempo de sono, há o lugar da vida e o da morte, o da alegria e o da tristeza, o lugar dos humanos e daquilo que é superior a nós e nos ultrapassa.
Uma parte do que colhemos é oferecida aos espíritos, porque não somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e sabemos que a natureza é maior que nós. Uma parte, por isso, volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
(...)
Basta-nos no fundo muito pouco, porque somos também pouco: matar a fome, a sede e o desejo de sexo, a esteira para dormir e o coração em paz.
- Teolinda Gersão; A Árvore das Palavras
17.2.13
Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.
Fernando Echevarría, Epifanias; Edições Afrontamento, 2006
12.2.13
Às vezes, acorda-se assim
“Quando estiverdes alegres olhai para o fundo do vosso
coração e vereis que aquilo que vos dá alegria não é senão aquilo que vos deu
tristeza. Quando estiverdes tristes olhai de novo para o vosso coração e vereis
que realmente chorais por aquilo que antes vos tinha encantado. Alguns dizem, a
alegria é maior que a tristeza, outros afirmam, não, a tristeza é maior. Mas eu
digo-vos: são inseparáveis, vêm juntas…”
(Khalil Gibran; “Profeta”)
9.2.13
Yo y tú somos ya tú y yo
como el mar y como el cielo
cielo y mar, sin querer, son.
Juan Ramón Jiménez, Estio
Digo tristezas nas manhãs deslavadas:
sou um menino
poucas palavras o aninham.
Olha as minhas mãos.
Tens mãos de lume:
sou menino
e as tuas palavras espuma de sol.
As noites de chuva limpam o céu
inventamos risos bordados
manhãs braços abertos.
Resvalas no meu corpo crescido.
Pareces uma praia de luz
água macia céu alecrim.
Morro nos teus olhos, devagar.
Como o céu adormece no mar.
como el mar y como el cielo
cielo y mar, sin querer, son.
Juan Ramón Jiménez, Estio
Digo tristezas nas manhãs deslavadas:
sou um menino
poucas palavras o aninham.
Olha as minhas mãos.
Tens mãos de lume:
sou menino
e as tuas palavras espuma de sol.
As noites de chuva limpam o céu
inventamos risos bordados
manhãs braços abertos.
Resvalas no meu corpo crescido.
Pareces uma praia de luz
água macia céu alecrim.
Morro nos teus olhos, devagar.
Como o céu adormece no mar.
1.2.13
As coisas andam ásperas,
mas no tempo novo sabíamos descansar na ternura dos campos.
O pôr do sol vai perdendo as cores, meu amor.
O tempo não é novo.
O tempo não é novo,
mas sabíamos a música das flores abertas ao sol.
Fez bem pensar em sítios bonitos,
que os dias não têm maneiras. Os dias adormecem.
Às vezes o tempo é promessa,
pomar de macieiras asseadas de pássaros.
E do voo das abelhas,meu amor.
mas no tempo novo sabíamos descansar na ternura dos campos.
O pôr do sol vai perdendo as cores, meu amor.
O tempo não é novo.
O tempo não é novo,
mas sabíamos a música das flores abertas ao sol.
Fez bem pensar em sítios bonitos,
que os dias não têm maneiras. Os dias adormecem.
Às vezes o tempo é promessa,
pomar de macieiras asseadas de pássaros.
E do voo das abelhas,meu amor.
12.1.13
A promessa
Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.
Fica, disse à aranha,
que fugiu.
Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.
Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.
Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.
Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.
Jane Hirshfield, EUA (n. 1953), tradução de Soledade Santos
( http://mdcia.wordpress.com/2013/01/02/a-promessa)
2.1.13
O Hóspede
Muito antes do anoitecer
chega a tua casa alguém que saudou a escuridão.
Muito antes do amanhecer
ele acorda
e atiça, antes de se ir embora, um sonho,
um sono onde ressoam passos:
tu ouve-lo medir as distâncias
e atiras a tua alma para lá.
Paul Celan, em: Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia.
chega a tua casa alguém que saudou a escuridão.
Muito antes do amanhecer
ele acorda
e atiça, antes de se ir embora, um sonho,
um sono onde ressoam passos:
tu ouve-lo medir as distâncias
e atiras a tua alma para lá.
Paul Celan, em: Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia.
31.12.12
Conversitas
Todos os dias fazes uma casa nova
Variação 2
Era onde dormíamos
os salgueiros mergulhados no rio
música pequenina a mexer nos cabelos.
A água tremeluzia
as imagens eram ambíguas
nunca víamos os mesmos sonhos.
E é bom.
Variação 2
Era onde dormíamos
os salgueiros mergulhados no rio
música pequenina a mexer nos cabelos.
A água tremeluzia
as imagens eram ambíguas
nunca víamos os mesmos sonhos.
E é bom.
29.12.12
Ruínas
Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como um sono agitado interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
(Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio & Alvim, 2011)
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como um sono agitado interrompido.
O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.
Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.
(Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio & Alvim, 2011)
21.12.12
Conversitas
Todos os dias fazes uma casa nova
Variação
É veloz o teu olhar vento na vidraça.
Vou onde vai o vento entro e saio varro as casas
sou o sol e a chuva, dizias.
Levas para fora e para dentro os desenhos todos
qualquer sítio é a casa perfeita, era o meu sorriso
Variação
É veloz o teu olhar vento na vidraça.
Vou onde vai o vento entro e saio varro as casas
sou o sol e a chuva, dizias.
Levas para fora e para dentro os desenhos todos
qualquer sítio é a casa perfeita, era o meu sorriso
11.12.12
Conversitas
Todos os dias fazes uma casa nova, criança a brincar na manta, dizes.
Tenho sempre um problema com a janela
as janelas são a importância das casas.
Faz antes a porta, crescido que já estás.
Não é preciso uma porta
quem chega vai à janela e vê-nos por dentro e por fora.
Tenho sempre um problema com a janela
as janelas são a importância das casas.
Faz antes a porta, crescido que já estás.
Não é preciso uma porta
quem chega vai à janela e vê-nos por dentro e por fora.
7.12.12
Clara é a noite
Clara é a noite que para nós inventa corações
(Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Pética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia)
O tempo vai estúpido.
Dentro de casa a gente só diz que tempo burro.
Na rua toda a gente diz que chuva de caca.
Não dizem caca mas é a mesma coisa.
A gente como que se exila e a culpa não é da chuva.
Nascemos da noite e os dias são também as flores da nossa casa.
As rosas à volta da casa são feitas de sonhos e riem coladas nos vidros das janelas
o quintal é um rio de roseiras a mesa está posta e é de linho.
A gente pensa no tempo em que a noite subiu ao monte connosco.
(Paul Celan, Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Pética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia)
O tempo vai estúpido.
Dentro de casa a gente só diz que tempo burro.
Na rua toda a gente diz que chuva de caca.
Não dizem caca mas é a mesma coisa.
A gente como que se exila e a culpa não é da chuva.
Nascemos da noite e os dias são também as flores da nossa casa.
As rosas à volta da casa são feitas de sonhos e riem coladas nos vidros das janelas
o quintal é um rio de roseiras a mesa está posta e é de linho.
A gente pensa no tempo em que a noite subiu ao monte connosco.
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