24.5.13

Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, no trilho do coração
assenta o teu ouvido

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)

Assenta o ouvido no coração da montanha.
Deixaste lá as palavras campos de trigo
que cismaste dizer, resguardadas até ao tempo das colheitas.

São harpas antigas, sons suspensos nos salgueirais,
mistura de mar rios flautas e rebanhos,
relâmpagos desertos, sangue de que és feito.

Fala a quem deves as palavras escolhidas pelo coração.
Como quem regressa a casa.

11.5.13

O que sou roubei.
Subo à montanha sem nada nas mãos,
só com a montanha.

(Robert Bringhurst, A Beleza da Armas; poema O Canto de Jacob)


Nada guardo por nada ter para guardar.
Converto os dias na montanha que me aguarda,
nos seixos dos regatos e no miolo das maçãs
feitio dos olhos e das bocas que amaciaram,
feitos da violência e ternura,
assim é a água materna que me abençoou.

Sem nada nas mãos,
ligeiro nos dias bons, recatado se o céu é de chumbo,
vou pelo ventre de quem me espera
pequeno como quem nasce
nada tendo e sendo já coisa pouca,
que do regato nascem os seixos e a maçã amacia os lábios.

25.4.13

- Tenho andado por palavras novas
   as prendas da hora de acordar.

- Eu sou da família dos dias e das noites
  e das palavras conheço~lhes o ventre.

- Eu sou da penumbra
  lenta levedura de coisas por dizer.

- Ofereço-te os rios todos
- palavras que sabem a mar

- E eu dou-te a noite e suas estrelas
  pomar de maçãs de muitas cores.

- São essas as palavras novas
  as prendas desejadas.




18.4.13

ESTES POEMAS, DISSE ELA

Estes poemas, estes poemas,
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.

Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona

8.4.13

Ladainha

O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)

Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.

Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.

O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.

O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.

A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.

31.3.13

"A terra tem um fim. Está-nos
sob os pés."
(Robert Bringhurst, "A Beleza das Armas")

Já não sabemos das vinhas onde dormimos
mas os sonhos vagueiam
chispas de água cheiros primordiais.

Do oiro das colinas percebemos o tamanho dos dias
a ternura do crepúsculo
olhos ainda cheios de uvas maduras.

E é pouco o que peço
poder olhar o horizonte
voar em ventos lavados

descansar nos campos abertos
os outeiros beijarem as nuvens.
E saber que isto nos basta.

20.3.13

Parábola
(com a bênção de Tonino Guerra)

Lucas, 10, 38-42

A minha irmã senta-se a olhar:
estás aí mudo vento parado, irmão meio sombra.

Não abro os olhos:
é esse o teu jeito, irmã sempre viva, não desdenhes;
és o azeite da candeia, eu a oliveira.

16.3.13

Cântico Décimo Terceiro

De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.

Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.

Tonino Guerra, O Mel; traduçao de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim, 2004

6.3.13

Afasta de mim o pecado da infelicidade
Manuel António Pina, O Caminho de Casa, 1989; poema Completas


Nos dias frios a solidão era mais cega.

Levantava-se e ia por gravetos e pelos cavacos de arder muito tempo e sentava-se a dormitar.
Sonhava, de pequeno, as mãos bonitas da mãe. O coração batia-lhe forte:
era grande, havia sempre sol e dormia sonhos soltos, largos.

À noite, dava mais um jeito à lareira e rezava como em criança ao colo do pai, a mãe a desenhar-lhe gestos macios na cara já quentinha.

26.2.13

Completas

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

Manuel António Pina, O Caminho de Casa (1989)

22.2.13

(...)
E no entanto nenhuma pessoa, e nenhuma cultura, é melhor que a outra, e também os Brancos têm muito a aprender com os Negros, digo. Por exemplo, os Negros nunca batem nos filhos, trazem-nos junto a si, falam com eles, atravessam juntos o desenrolar das coisas, e as crianças aprendem que há um tempo de trabalho e um tempo de repouso, um tempo de dança e um tempo de sono, há o lugar da vida e o da morte, o da alegria e o da tristeza, o lugar dos humanos e daquilo que é superior a nós e nos ultrapassa.
Uma parte do que colhemos é oferecida aos espíritos, porque não somos donos da natureza, mas apenas seus habitantes. Oferecemos sementes, ou farinha, para mostrar que conhecemos os limites e sabemos que a natureza é maior que nós. Uma parte, por isso, volta a ela, sem ousarmos tocar-lhe.
(...)
Basta-nos no fundo muito pouco, porque somos também pouco: matar a fome, a sede e o desejo de sexo, a esteira para dormir e o coração em paz.

- Teolinda Gersão; A Árvore das Palavras

17.2.13


Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.

Fernando Echevarría, Epifanias; Edições Afrontamento, 2006

12.2.13


Às vezes, acorda-se assim
“Quando estiverdes alegres olhai para o fundo do vosso coração e vereis que aquilo que vos dá alegria não é senão aquilo que vos deu tristeza. Quando estiverdes tristes olhai de novo para o vosso coração e vereis que realmente chorais por aquilo que antes vos tinha encantado. Alguns dizem, a alegria é maior que a tristeza, outros afirmam, não, a tristeza é maior. Mas eu digo-vos: são inseparáveis, vêm juntas…”

(Khalil Gibran; “Profeta”)

9.2.13

Yo y tú somos ya tú y yo
como el mar y como el cielo
cielo y mar, sin querer, son.

Juan Ramón Jiménez, Estio



Digo tristezas nas manhãs deslavadas:
sou um menino
poucas palavras o aninham.

          Olha as minhas mãos.

Tens mãos de lume:
sou menino
e as tuas palavras espuma de sol.

          As noites de chuva limpam o céu
          inventamos risos bordados
          manhãs braços abertos.

Resvalas no meu corpo crescido.

          Pareces uma praia de luz
          água macia céu alecrim.
          Morro nos teus olhos, devagar.

Como o céu adormece no mar.    

1.2.13

As coisas andam ásperas,
mas no tempo novo sabíamos descansar na ternura dos campos.

O pôr do sol vai perdendo as cores, meu amor.
O tempo não é novo.

O tempo não é novo,
mas sabíamos a música das flores abertas ao sol.

Fez bem pensar em sítios bonitos,
que os dias não têm maneiras. Os dias adormecem.

Às vezes o tempo é promessa,
pomar de macieiras asseadas de pássaros.

E do voo das abelhas,meu amor.

12.1.13

A promessa



Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.

Jane Hirshfield, EUA (n. 1953), tradução de Soledade Santos
( http://mdcia.wordpress.com/2013/01/02/a-promessa)

2.1.13

O Hóspede

Muito antes do anoitecer
chega a tua casa alguém que saudou a escuridão.
Muito antes do amanhecer
ele acorda
e atiça, antes de se ir embora, um sonho,
um sono onde ressoam passos:
tu ouve-lo medir as distâncias
e atiras a tua alma para lá.

Paul Celan, em: Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética; Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno; Cotovia.

31.12.12

Conversitas

Todos os dias fazes uma casa nova

Variação 2

Era onde dormíamos
os salgueiros mergulhados no rio
música pequenina a mexer nos cabelos.

A água tremeluzia
as imagens eram ambíguas
nunca víamos os mesmos sonhos.

E é bom.

29.12.12

Ruínas

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como um sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

(Manuel António Pina, Como Se Desenha Uma Casa, Assírio & Alvim, 2011)


21.12.12

Conversitas

Todos os dias fazes uma casa nova

Variação

É veloz o teu olhar vento na vidraça.

Vou onde vai o vento entro e saio varro as casas
sou o sol e a chuva, dizias.

Levas para fora e para dentro os desenhos todos
qualquer sítio é a casa perfeita, era o meu sorriso