22.10.13

São nómadas e param na meia encosta.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.

O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.

Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.

(Nota necessária:  hoje, ao abrir o livro que tinha à mão, hábito velho, reli o poema “As recordações olham para mim“ de Tomas Tranströmer. É bem possível que este meu texto seja seu devedor, dado que sei que o livro andou comigo nos finais de Setembro. Colmeal da Torre, 23/Out/13)

7.10.13

Uma palavra e algumas variações


Morrer em céu aberto

Os cisnes andavam para nascente
olhos presos nas margens
a água descia
porca

pedi aos céus nuvens lavadas
luzes de adormecer
divã de algas até ao mar

e desenhei o tempo
como as crianças sonham as flores.

Termas, 5/Outubro/2013

5.10.13

Vi
No fundo do mar
Algas salgadas
Grandes e tristes

Dói
Saber
Que há algas
Grandes e tristes
Dentro do mar

Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.pt/2005_01_01_archive.html

24.9.13

O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar   a erva
só com a cabeça deserta

porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.

Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.

António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980

22.9.13

VEM CHEGANDO

(Sergei Ilnitsky / EPA)

Vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar.

Sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde.

Uma ânsia qualquer detém o vento.


Soledade Santos, Sob os teus pés a Terra; Artefacto, 2010

9.9.13

Conversitas e um sítio bonito

Chamaste vamos ver as framboesas.

Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.

1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.

Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.

Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.

De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.

Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.

2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.

Assim se vestem as tardes
basta respirar

os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.

14.8.13

Para gente pragmática, raciocínio à faca. É muito prático.
Ela queria saber se, no meu caso, o início da noite
Era mais proveitoso do que o início da manhã. Passei
Sobre o proveitoso, por ignorar a taxa de câmbio, e
Respondi devagar com muito vago de permeio. Há as
Actividades do dia. As emoções perigosas. Os desatinos
Lentos. E assim por diante. Nada de muito quantificável.
 - Rigorosamente - objectou: - A noite não é melhor?
 - Melhor para quê? - quis saber.
 - Para sonhar, por exemplo.
 - Rigorosamente falando, o sonho diurno é o que
Menos esquece.
 - É impossível sonhar de dia - disse, muito mulher activa.
 - Ninguém pode ter todo o proveitoso.

Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso; Assírio & Alvim

17.7.13

Conversitas

Chamaste vamos ver as framboesas.

Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.

28.6.13

Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, meu neto,
a boa fala é mais rara que o jade

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)

Depois de falares ao teu neto,
caminha na sombra dos muros que te guardam os passos.
São pegadas legíveis
que nenhum vento soube distrair.

Fala ao teu neto,
candeia e sol maduro assim ele te vê,
e diz é bom o dia a crescer e repousar nestas sombras,
de muitos silêncios, desenhos de aprender a andar.

Se te sentares,
espera, velho a ver os meninos a sair da escola.
Trazem o sol todo. Fala baixinho
ternurento, és a luz pequenina da candeia.

 

20.6.13

Saber que não escrevo para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso; pág. 128 ; trad. de Isabel Pascoal- Edições 70, 2006.

17.6.13

Nos bosques ouve-se o cair das pinhas como passos de monges no coro sossegado depois das Completas.
O silêncio sabe às ervas amargas, mas chega-nos pela mão das cores e do cheiro à resina a ternura dos sonos sábios.

O vento das vinhas por onde passamos traz o sol que foi tear de dias luminosos

e sabe bem dormir em lençóis de cedro
ou como quem fez a casa sobre adegas de vinho bom.

28.5.13

Redacção

As pessoas distraem-se à beira do mar a piscar os olhos quando as gaivotas passam rentes às ondas.
As gaivotas são graciosas a pairar sobre as águas e não mostram a gula que levam nos bicos.

Também há pessoas que andam pelos montes e sabem o que fazem as aves, os milhanos às voltas às voltas, os chascos a ler nos tojos, as milheirinhas a bicar as sementes.
Os passaritos sabem o que procuram, não fazem voos de espanto; volitam como os campos de trigo, serenos se o vento os penteia.
A gente olha-os de frente, à luz que não incomoda o olhar.

O mar ora é bonito ora traz à vista as furnas e cafurnas que o habitam a guerrear com os ventos de dentes arreganhados de cão furioso e as pessoas não sabem lê-lo. Ficam com sofrimento nos olhos e regressam tristes a casa.
Há sempre coisas para ajustar.

Nas cidades as casas são grandes e devem ter por dentro gente que é como os morcegos: cirandam, cirandam e não vêem os vizinhos; encheram os papos e penduram-se nas tocas, calados como baratas. As baratas são muitas, mas gostam só de sítios escuros.

O ribeiro da minha aldeia é como o céu, anda por aqui e por ali, reflecte os salgueiros e abriga os pardais. Nós olhamos para ele, os olhos riem-se e caminham pelos chãos, árvores e seus ninhos; muitas vezes param.

Na minha aldeia não há contas a ajustar. Se puderes, faz lá a tua casa.
Como diz um provérbio: que os ramos verdes morem no teu coração e sejam ninho azul.

Hoje, sentei-me no quintal.
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol.

24.5.13

Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, no trilho do coração
assenta o teu ouvido

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)

Assenta o ouvido no coração da montanha.
Deixaste lá as palavras campos de trigo
que cismaste dizer, resguardadas até ao tempo das colheitas.

São harpas antigas, sons suspensos nos salgueirais,
mistura de mar rios flautas e rebanhos,
relâmpagos desertos, sangue de que és feito.

Fala a quem deves as palavras escolhidas pelo coração.
Como quem regressa a casa.

11.5.13

O que sou roubei.
Subo à montanha sem nada nas mãos,
só com a montanha.

(Robert Bringhurst, A Beleza da Armas; poema O Canto de Jacob)


Nada guardo por nada ter para guardar.
Converto os dias na montanha que me aguarda,
nos seixos dos regatos e no miolo das maçãs
feitio dos olhos e das bocas que amaciaram,
feitos da violência e ternura,
assim é a água materna que me abençoou.

Sem nada nas mãos,
ligeiro nos dias bons, recatado se o céu é de chumbo,
vou pelo ventre de quem me espera
pequeno como quem nasce
nada tendo e sendo já coisa pouca,
que do regato nascem os seixos e a maçã amacia os lábios.

25.4.13

- Tenho andado por palavras novas
   as prendas da hora de acordar.

- Eu sou da família dos dias e das noites
  e das palavras conheço~lhes o ventre.

- Eu sou da penumbra
  lenta levedura de coisas por dizer.

- Ofereço-te os rios todos
- palavras que sabem a mar

- E eu dou-te a noite e suas estrelas
  pomar de maçãs de muitas cores.

- São essas as palavras novas
  as prendas desejadas.




18.4.13

ESTES POEMAS, DISSE ELA

Estes poemas, estes poemas,
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.

Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona

8.4.13

Ladainha

O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)

Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.

Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.

O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.

O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.

A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.

31.3.13

"A terra tem um fim. Está-nos
sob os pés."
(Robert Bringhurst, "A Beleza das Armas")

Já não sabemos das vinhas onde dormimos
mas os sonhos vagueiam
chispas de água cheiros primordiais.

Do oiro das colinas percebemos o tamanho dos dias
a ternura do crepúsculo
olhos ainda cheios de uvas maduras.

E é pouco o que peço
poder olhar o horizonte
voar em ventos lavados

descansar nos campos abertos
os outeiros beijarem as nuvens.
E saber que isto nos basta.

20.3.13

Parábola
(com a bênção de Tonino Guerra)

Lucas, 10, 38-42

A minha irmã senta-se a olhar:
estás aí mudo vento parado, irmão meio sombra.

Não abro os olhos:
é esse o teu jeito, irmã sempre viva, não desdenhes;
és o azeite da candeia, eu a oliveira.

16.3.13

Cântico Décimo Terceiro

De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.

Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.

Tonino Guerra, O Mel; traduçao de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim, 2004