Um dia tão feliz.
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.
Czesław Miłosz, em Alguns gostam de poesia, Antologia; Selecção, intodução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, cavalo de ferro
10.11.13
5.11.13
Quando leres um poema que te leve a fechar os olhos,
joga ao faz de conta:
estás a ver a casa
ela vai indo atrás das palavras
cada vez mais pequena
quase chão
só vês as janelas.
O poema é a nossa casa.
Faz ainda de conta:
chega o dia de ir embora
o silêncio vai abrindo as janelas
uma a uma vais vendo as palavras
abelhas cheias de mel.
É a nossa casa. Fica mais um bocadinho.
Colmeal da Torre, 4/Novembro/2013
(a pensar nos filhos e netos)
joga ao faz de conta:
estás a ver a casa
ela vai indo atrás das palavras
cada vez mais pequena
quase chão
só vês as janelas.
O poema é a nossa casa.
Faz ainda de conta:
chega o dia de ir embora
o silêncio vai abrindo as janelas
uma a uma vais vendo as palavras
abelhas cheias de mel.
É a nossa casa. Fica mais um bocadinho.
Colmeal da Torre, 4/Novembro/2013
(a pensar nos filhos e netos)
23.10.13
As recordações olham para mim
Uma manhã de junho, quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.
Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.
Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.
E embora o gorgeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.
Tomas Tranströmer, 50 Poemas; tradução de Alexandre Pastor; Relógio D'Água,
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.
Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.
Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.
E embora o gorgeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.
Tomas Tranströmer, 50 Poemas; tradução de Alexandre Pastor; Relógio D'Água,
22.10.13
São nómadas e param na meia encosta.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.
O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.
Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.
O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.
Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.
(Nota necessária: hoje, ao abrir o livro que tinha à mão, hábito
velho, reli o poema “As recordações olham para mim“ de Tomas Tranströmer. É bem
possível que este meu texto seja seu devedor, dado que sei que o livro andou
comigo nos finais de Setembro. Colmeal da Torre,
23/Out/13)
7.10.13
Uma palavra e algumas variações
Morrer em céu aberto
Os cisnes andavam para nascente
olhos presos nas margens
a água descia
porca
pedi aos céus nuvens lavadas
luzes de adormecer
divã de algas até ao mar
e desenhei o tempo
como as crianças sonham as flores.
Termas, 5/Outubro/2013
5.10.13
24.9.13
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980
22.9.13
VEM CHEGANDO
(Sergei Ilnitsky / EPA)
Vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar.
Sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde.
Uma ânsia qualquer detém o vento.
Soledade Santos, Sob os teus pés a Terra; Artefacto, 2010
9.9.13
Conversitas e um sítio bonito
Chamaste vamos ver as framboesas.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.
Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.
Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.
De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.
Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.
2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.
Assim se vestem as tardes
basta respirar
os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.
Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.
Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.
De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.
Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.
2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.
Assim se vestem as tardes
basta respirar
os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.
14.8.13
Para gente pragmática, raciocínio à faca. É muito prático.
Ela queria saber se, no meu caso, o início da noite
Era mais proveitoso do que o início da manhã. Passei
Sobre o proveitoso, por ignorar a taxa de câmbio, e
Respondi devagar com muito vago de permeio. Há as
Actividades do dia. As emoções perigosas. Os desatinos
Lentos. E assim por diante. Nada de muito quantificável.
- Rigorosamente - objectou: - A noite não é melhor?
- Melhor para quê? - quis saber.
- Para sonhar, por exemplo.
- Rigorosamente falando, o sonho diurno é o que
Menos esquece.
- É impossível sonhar de dia - disse, muito mulher activa.
- Ninguém pode ter todo o proveitoso.
Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso; Assírio & Alvim
Ela queria saber se, no meu caso, o início da noite
Era mais proveitoso do que o início da manhã. Passei
Sobre o proveitoso, por ignorar a taxa de câmbio, e
Respondi devagar com muito vago de permeio. Há as
Actividades do dia. As emoções perigosas. Os desatinos
Lentos. E assim por diante. Nada de muito quantificável.
- Rigorosamente - objectou: - A noite não é melhor?
- Melhor para quê? - quis saber.
- Para sonhar, por exemplo.
- Rigorosamente falando, o sonho diurno é o que
Menos esquece.
- É impossível sonhar de dia - disse, muito mulher activa.
- Ninguém pode ter todo o proveitoso.
Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso; Assírio & Alvim
17.7.13
Conversitas
Chamaste vamos ver as framboesas.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
28.6.13
Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, meu neto,
a boa fala é mais rara que o jade
(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)
Depois de falares ao teu neto,
caminha na sombra dos muros que te guardam os passos.
São pegadas legíveis
que nenhum vento soube distrair.
Fala ao teu neto,
candeia e sol maduro assim ele te vê,
e diz é bom o dia a crescer e repousar nestas sombras,
de muitos silêncios, desenhos de aprender a andar.
Se te sentares,
espera, velho a ver os meninos a sair da escola.
Trazem o sol todo. Fala baixinho
ternurento, és a luz pequenina da candeia.
Meu neto, meu neto,
a boa fala é mais rara que o jade
(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)
Depois de falares ao teu neto,
caminha na sombra dos muros que te guardam os passos.
São pegadas legíveis
que nenhum vento soube distrair.
Fala ao teu neto,
candeia e sol maduro assim ele te vê,
e diz é bom o dia a crescer e repousar nestas sombras,
de muitos silêncios, desenhos de aprender a andar.
Se te sentares,
espera, velho a ver os meninos a sair da escola.
Trazem o sol todo. Fala baixinho
ternurento, és a luz pequenina da candeia.
20.6.13
Saber que não escrevo para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.
Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso; pág. 128 ; trad. de Isabel Pascoal- Edições 70, 2006.
Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso; pág. 128 ; trad. de Isabel Pascoal- Edições 70, 2006.
17.6.13
Nos bosques ouve-se o cair das pinhas como passos de monges no coro sossegado depois das Completas.
O silêncio sabe às ervas amargas, mas chega-nos pela mão das cores e do cheiro à resina a ternura dos sonos sábios.
O vento das vinhas por onde passamos traz o sol que foi tear de dias luminosos
e sabe bem dormir em lençóis de cedro
ou como quem fez a casa sobre adegas de vinho bom.
O silêncio sabe às ervas amargas, mas chega-nos pela mão das cores e do cheiro à resina a ternura dos sonos sábios.
O vento das vinhas por onde passamos traz o sol que foi tear de dias luminosos
e sabe bem dormir em lençóis de cedro
ou como quem fez a casa sobre adegas de vinho bom.
28.5.13
Redacção
As pessoas distraem-se à beira do mar a piscar os olhos quando as gaivotas passam rentes às ondas.
As gaivotas são graciosas a pairar sobre as águas e não mostram a gula que levam nos bicos.
Também há pessoas que andam pelos montes e sabem o que fazem as aves, os milhanos às voltas às voltas, os chascos a ler nos tojos, as milheirinhas a bicar as sementes.
Os passaritos sabem o que procuram, não fazem voos de espanto; volitam como os campos de trigo, serenos se o vento os penteia.
A gente olha-os de frente, à luz que não incomoda o olhar.
O mar ora é bonito ora traz à vista as furnas e cafurnas que o habitam a guerrear com os ventos de dentes arreganhados de cão furioso e as pessoas não sabem lê-lo. Ficam com sofrimento nos olhos e regressam tristes a casa.
Há sempre coisas para ajustar.
Nas cidades as casas são grandes e devem ter por dentro gente que é como os morcegos: cirandam, cirandam e não vêem os vizinhos; encheram os papos e penduram-se nas tocas, calados como baratas. As baratas são muitas, mas gostam só de sítios escuros.
O ribeiro da minha aldeia é como o céu, anda por aqui e por ali, reflecte os salgueiros e abriga os pardais. Nós olhamos para ele, os olhos riem-se e caminham pelos chãos, árvores e seus ninhos; muitas vezes param.
Na minha aldeia não há contas a ajustar. Se puderes, faz lá a tua casa.
Como diz um provérbio: que os ramos verdes morem no teu coração e sejam ninho azul.
Hoje, sentei-me no quintal.
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol.
As gaivotas são graciosas a pairar sobre as águas e não mostram a gula que levam nos bicos.
Também há pessoas que andam pelos montes e sabem o que fazem as aves, os milhanos às voltas às voltas, os chascos a ler nos tojos, as milheirinhas a bicar as sementes.
Os passaritos sabem o que procuram, não fazem voos de espanto; volitam como os campos de trigo, serenos se o vento os penteia.
A gente olha-os de frente, à luz que não incomoda o olhar.
O mar ora é bonito ora traz à vista as furnas e cafurnas que o habitam a guerrear com os ventos de dentes arreganhados de cão furioso e as pessoas não sabem lê-lo. Ficam com sofrimento nos olhos e regressam tristes a casa.
Há sempre coisas para ajustar.
Nas cidades as casas são grandes e devem ter por dentro gente que é como os morcegos: cirandam, cirandam e não vêem os vizinhos; encheram os papos e penduram-se nas tocas, calados como baratas. As baratas são muitas, mas gostam só de sítios escuros.
O ribeiro da minha aldeia é como o céu, anda por aqui e por ali, reflecte os salgueiros e abriga os pardais. Nós olhamos para ele, os olhos riem-se e caminham pelos chãos, árvores e seus ninhos; muitas vezes param.
Na minha aldeia não há contas a ajustar. Se puderes, faz lá a tua casa.
Como diz um provérbio: que os ramos verdes morem no teu coração e sejam ninho azul.
Hoje, sentei-me no quintal.
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol.
24.5.13
Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, no trilho do coração
assenta o teu ouvido
(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)
Assenta o ouvido no coração da montanha.
Deixaste lá as palavras campos de trigo
que cismaste dizer, resguardadas até ao tempo das colheitas.
São harpas antigas, sons suspensos nos salgueirais,
mistura de mar rios flautas e rebanhos,
relâmpagos desertos, sangue de que és feito.
Fala a quem deves as palavras escolhidas pelo coração.
Como quem regressa a casa.
Meu neto, no trilho do coração
assenta o teu ouvido
(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)
Assenta o ouvido no coração da montanha.
Deixaste lá as palavras campos de trigo
que cismaste dizer, resguardadas até ao tempo das colheitas.
São harpas antigas, sons suspensos nos salgueirais,
mistura de mar rios flautas e rebanhos,
relâmpagos desertos, sangue de que és feito.
Fala a quem deves as palavras escolhidas pelo coração.
Como quem regressa a casa.
11.5.13
O que sou roubei.
Subo à montanha sem nada nas mãos,
só com a montanha.
(Robert Bringhurst, A Beleza da Armas; poema O Canto de Jacob)
Nada guardo por nada ter para guardar.
Converto os dias na montanha que me aguarda,
nos seixos dos regatos e no miolo das maçãs
feitio dos olhos e das bocas que amaciaram,
feitos da violência e ternura,
assim é a água materna que me abençoou.
Sem nada nas mãos,
ligeiro nos dias bons, recatado se o céu é de chumbo,
vou pelo ventre de quem me espera
pequeno como quem nasce
nada tendo e sendo já coisa pouca,
que do regato nascem os seixos e a maçã amacia os lábios.
Subo à montanha sem nada nas mãos,
só com a montanha.
(Robert Bringhurst, A Beleza da Armas; poema O Canto de Jacob)
Nada guardo por nada ter para guardar.
Converto os dias na montanha que me aguarda,
nos seixos dos regatos e no miolo das maçãs
feitio dos olhos e das bocas que amaciaram,
feitos da violência e ternura,
assim é a água materna que me abençoou.
Sem nada nas mãos,
ligeiro nos dias bons, recatado se o céu é de chumbo,
vou pelo ventre de quem me espera
pequeno como quem nasce
nada tendo e sendo já coisa pouca,
que do regato nascem os seixos e a maçã amacia os lábios.
25.4.13
- Tenho andado por palavras novas
as prendas da hora de acordar.
- Eu sou da família dos dias e das noites
e das palavras conheço~lhes o ventre.
- Eu sou da penumbra
lenta levedura de coisas por dizer.
- Ofereço-te os rios todos
- palavras que sabem a mar
- E eu dou-te a noite e suas estrelas
pomar de maçãs de muitas cores.
- São essas as palavras novas
as prendas desejadas.
as prendas da hora de acordar.
- Eu sou da família dos dias e das noites
e das palavras conheço~lhes o ventre.
- Eu sou da penumbra
lenta levedura de coisas por dizer.
- Ofereço-te os rios todos
- palavras que sabem a mar
- E eu dou-te a noite e suas estrelas
pomar de maçãs de muitas cores.
- São essas as palavras novas
as prendas desejadas.
18.4.13
ESTES POEMAS, DISSE ELA
Estes poemas, estes poemas,
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.
Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona
estes poemas, disse ela, são poemas
sem amor lá dentro. São os poemas dum homem
capaz de deixar mulher e filho por lhe
fazerem barulho no escritório. São poemas
dum homem capaz de matar a própria mãe a fim de clamar
pela herança. São poemas dum homem
como Platão, disse ela, querendo denotar coisa que não
entendi mas que mesmo assim
me ofendeu. São poemas dum homem
que a dormir com mulheres prefere dormir com
ele próprio, disse ela. São poemas dum homem
com olhos como naifas aguçadas, mãos iguais às dum
gatuno, urdidas de água e lógica
e fome, sem fibra de amor nelas. São
tão sem coração este poemas como o piar das aves, tão involuntários
como folhas de ulmeiro, que, se amam, amam apenas
o vasto céu azul e o ar e a ideia
das folhas do ulmeiro. Amor-próprio é o fim, disse ela,
não é origem. Amor quer dizer amor
daquilo que se canta, não da canção nem do cantar.
Estes poemas, disse ela...
E diz ele: Como és bela.
Isto não é amor, retorquiu com justeza.
Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; tradução de Júlio Henriques. Antígona
8.4.13
Ladainha
O ar daqui é bom e a água corre por abundantes regatos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)
Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.
Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.
O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.
O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.
A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.
(Tonino Guerra, O Mel, Canto Primeiro)
Subo às colinas e a minha irmã, a rezar uma ladainha
o céu é um pomar de macieiras asseadas de pássaros e do voo das abelhas
faz bem pensar em sítios bonitos.
Ela vai a pensar nas coisas do chão atenta aos cogumelos
mas vai-lhe nos ouvidos: macieiras asseadas,
faz bem pensar em sítios bonitos.
O que leva nos olhos longe lhe vai dos ouvidos
mas sabe do coração que
faz bem pensar em sítios bonitos.
O ar daqui é bom, os nossos silêncios fontes
casa cheia, farinha fecunda
moída por abundantes regatos.
A minha irmã é como o mar
e é bom morar em sítios bonitos.
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