13.12.13

André Derain

Copiado de: http://amata.anaroque.com/

30.11.13

A casa dos diospiros

1.
Onde quero o olhar devia ser como os campos nas manhãs de geada, parados por causa do frio; mas,ao primeiro voo da pega azul e aos primeiros sopros do vento, as toalhas brancas aparecem pintadas de margaças, movimentos de tudo, recreio de meninos cor de papoila, confusão bonita como rebanhos de pastor benevolente. Mosto buliçoso a preparar invernos marotos.

Onde tenho o coração vejo sinais de mãos cuidadosas, de quem borda toalhas de pôr a mesa, ou prepara os jardins de gente especiosa. Mãos arquitectas de espaços rei e rainha e de princesa à espera do princês. Tudo muito certo. Arrumadinho.
A minha irmã, essência organizada sempre presente como no Livro dos Provérbios, dispõe as casas como a pentear os meninos do coro, ou a alinhavar lençóis de dormir.

2.
A nossa casa devia ser um recreio de meninos a comer diospiros, uma biblioteca com Eugénio de Andrade ao lado do Compendium Gradualis et Missalis Romani, da Montanha Mágica também, eu a olhar, e a minha irmã a rir e a cantar baixinho.

3.
Hoje, ao ir ao quintal, não gostei da romãzeira, arrumadinha.
Mas parecia a minha irmã e comecei a gostar de a olhar e de poisar nela o meu coração.

Todos os dias nos pomos à janela a falar sobre a maneira de a casa ficar bonita
jardim de meninos a comer diospiros
e também como uma montanha de onde olhar as coisas, as palavras e os silêncios.

Colmeal da Torre, 28 de Novembro, 2013

15.11.13

Conversitas

Há dias de boa luz
passeios vagarosos perto da água;
no entanto,
é turva a memória do que nos encheu
e para outros caminhos a bússola é desconcertada.

Mas é essa luz que tens querido
e é a importância que dás às coisas
as flores estarem no seu sítio
a água saber dos caminhos.

Somos feitos de penumbra
e o que se vê, bola breve de sabão.
O dia é semeador desajeitado.

Colmeal da Torre, 15 de Novembro, 2013

10.11.13

Dádiva

Um dia tão feliz.
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.

Czesław Miłosz, em Alguns gostam de poesia, Antologia; Selecção, intodução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, cavalo de ferro

5.11.13

Quando leres um poema que te leve a fechar os olhos,
joga ao faz de conta:
estás a ver a casa
ela vai indo atrás das palavras
cada vez mais pequena
quase chão
só vês as janelas.

O poema é a nossa casa.

Faz ainda de conta:
chega o dia de ir embora
o silêncio vai abrindo as janelas
uma a uma vais vendo as palavras
abelhas cheias de mel.

É a nossa casa. Fica mais um bocadinho.


Colmeal da Torre, 4/Novembro/2013
(a pensar nos filhos e netos)

23.10.13

As recordações olham para mim

Uma manhã de junho, quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.

Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.

Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.

E embora o gorgeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.

Tomas Tranströmer, 50 Poemas; tradução de Alexandre Pastor; Relógio D'Água,

22.10.13

São nómadas e param na meia encosta.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.

O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.

Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.

(Nota necessária:  hoje, ao abrir o livro que tinha à mão, hábito velho, reli o poema “As recordações olham para mim“ de Tomas Tranströmer. É bem possível que este meu texto seja seu devedor, dado que sei que o livro andou comigo nos finais de Setembro. Colmeal da Torre, 23/Out/13)

7.10.13

Uma palavra e algumas variações


Morrer em céu aberto

Os cisnes andavam para nascente
olhos presos nas margens
a água descia
porca

pedi aos céus nuvens lavadas
luzes de adormecer
divã de algas até ao mar

e desenhei o tempo
como as crianças sonham as flores.

Termas, 5/Outubro/2013

5.10.13

Vi
No fundo do mar
Algas salgadas
Grandes e tristes

Dói
Saber
Que há algas
Grandes e tristes
Dentro do mar

Amélia Pais
http://barcosflores.blogspot.pt/2005_01_01_archive.html

24.9.13

O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar   a erva
só com a cabeça deserta

porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.

Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.

António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980

22.9.13

VEM CHEGANDO

(Sergei Ilnitsky / EPA)

Vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar.

Sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde.

Uma ânsia qualquer detém o vento.


Soledade Santos, Sob os teus pés a Terra; Artefacto, 2010

9.9.13

Conversitas e um sítio bonito

Chamaste vamos ver as framboesas.

Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.

1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.

Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.

Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.

De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.

Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.

2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.

Assim se vestem as tardes
basta respirar

os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.

14.8.13

Para gente pragmática, raciocínio à faca. É muito prático.
Ela queria saber se, no meu caso, o início da noite
Era mais proveitoso do que o início da manhã. Passei
Sobre o proveitoso, por ignorar a taxa de câmbio, e
Respondi devagar com muito vago de permeio. Há as
Actividades do dia. As emoções perigosas. Os desatinos
Lentos. E assim por diante. Nada de muito quantificável.
 - Rigorosamente - objectou: - A noite não é melhor?
 - Melhor para quê? - quis saber.
 - Para sonhar, por exemplo.
 - Rigorosamente falando, o sonho diurno é o que
Menos esquece.
 - É impossível sonhar de dia - disse, muito mulher activa.
 - Ninguém pode ter todo o proveitoso.

Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso; Assírio & Alvim

17.7.13

Conversitas

Chamaste vamos ver as framboesas.

Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.

28.6.13

Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, meu neto,
a boa fala é mais rara que o jade

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)

Depois de falares ao teu neto,
caminha na sombra dos muros que te guardam os passos.
São pegadas legíveis
que nenhum vento soube distrair.

Fala ao teu neto,
candeia e sol maduro assim ele te vê,
e diz é bom o dia a crescer e repousar nestas sombras,
de muitos silêncios, desenhos de aprender a andar.

Se te sentares,
espera, velho a ver os meninos a sair da escola.
Trazem o sol todo. Fala baixinho
ternurento, és a luz pequenina da candeia.

 

20.6.13

Saber que não escrevo para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

Roland Barthes, Fragmentos de um Discurso Amoroso; pág. 128 ; trad. de Isabel Pascoal- Edições 70, 2006.

17.6.13

Nos bosques ouve-se o cair das pinhas como passos de monges no coro sossegado depois das Completas.
O silêncio sabe às ervas amargas, mas chega-nos pela mão das cores e do cheiro à resina a ternura dos sonos sábios.

O vento das vinhas por onde passamos traz o sol que foi tear de dias luminosos

e sabe bem dormir em lençóis de cedro
ou como quem fez a casa sobre adegas de vinho bom.

28.5.13

Redacção

As pessoas distraem-se à beira do mar a piscar os olhos quando as gaivotas passam rentes às ondas.
As gaivotas são graciosas a pairar sobre as águas e não mostram a gula que levam nos bicos.

Também há pessoas que andam pelos montes e sabem o que fazem as aves, os milhanos às voltas às voltas, os chascos a ler nos tojos, as milheirinhas a bicar as sementes.
Os passaritos sabem o que procuram, não fazem voos de espanto; volitam como os campos de trigo, serenos se o vento os penteia.
A gente olha-os de frente, à luz que não incomoda o olhar.

O mar ora é bonito ora traz à vista as furnas e cafurnas que o habitam a guerrear com os ventos de dentes arreganhados de cão furioso e as pessoas não sabem lê-lo. Ficam com sofrimento nos olhos e regressam tristes a casa.
Há sempre coisas para ajustar.

Nas cidades as casas são grandes e devem ter por dentro gente que é como os morcegos: cirandam, cirandam e não vêem os vizinhos; encheram os papos e penduram-se nas tocas, calados como baratas. As baratas são muitas, mas gostam só de sítios escuros.

O ribeiro da minha aldeia é como o céu, anda por aqui e por ali, reflecte os salgueiros e abriga os pardais. Nós olhamos para ele, os olhos riem-se e caminham pelos chãos, árvores e seus ninhos; muitas vezes param.

Na minha aldeia não há contas a ajustar. Se puderes, faz lá a tua casa.
Como diz um provérbio: que os ramos verdes morem no teu coração e sejam ninho azul.

Hoje, sentei-me no quintal.
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol.

24.5.13

Fala ao teu neto e diz-lhe,
Meu neto, no trilho do coração
assenta o teu ouvido

(Robert Bringhurst, A Beleza das Armas; poema A Canção de Ptahhotep; trad. de Júlio Henriques; Edições Antígona)

Assenta o ouvido no coração da montanha.
Deixaste lá as palavras campos de trigo
que cismaste dizer, resguardadas até ao tempo das colheitas.

São harpas antigas, sons suspensos nos salgueirais,
mistura de mar rios flautas e rebanhos,
relâmpagos desertos, sangue de que és feito.

Fala a quem deves as palavras escolhidas pelo coração.
Como quem regressa a casa.

11.5.13

O que sou roubei.
Subo à montanha sem nada nas mãos,
só com a montanha.

(Robert Bringhurst, A Beleza da Armas; poema O Canto de Jacob)


Nada guardo por nada ter para guardar.
Converto os dias na montanha que me aguarda,
nos seixos dos regatos e no miolo das maçãs
feitio dos olhos e das bocas que amaciaram,
feitos da violência e ternura,
assim é a água materna que me abençoou.

Sem nada nas mãos,
ligeiro nos dias bons, recatado se o céu é de chumbo,
vou pelo ventre de quem me espera
pequeno como quem nasce
nada tendo e sendo já coisa pouca,
que do regato nascem os seixos e a maçã amacia os lábios.