Se tudo ao menos uma vez se calasse
Rilke; O Livro de Horas - Livro Primeiro, O Livro da Vida Monástica; trad. de Paulo Quintela
É bom haver coisas a que já não queremos dar o nome. Ou que não têm nome. Sabemo-las e não precisam ser chamadas, como as flores e as cores se conhecem.
O acidental não tem modos, anda por aqui e por ali; se não lhe damos um nome, não sabemos chamá-lo ou repeli-lo. E ele é tanto luminoso como obscuro.
Não seja preciso dizer meu amor; amo-te, também não.
Desenhe-se por dentro das pálpebras a luz e a sombra, como, pequeninos, escrevíamos os dedos e as mãos da mãe e sorríamos.
O essencial é como as fontes, conhecemo-las e vemo-nos nelas. São a luz e a frescura.
Não é preciso nomeá-lo.
10.4.14
27.3.14
A horta de meu pai
Ele ampara a altura
de incontáveis plantas e rebentos
estende a cal, espera a floração
em sítios desabrigados
pergunta-se: este caminho tem coração?
quando reparo na horta desde o terreiro da casa
não me parece que esteja ali,
mas em qualquer passagem inacessível
na fronteira avançada
que me arrasta para uma verdade
as groselheiras pendem dos muros
a tudo o sol concede a exacta porção
José Tolentino Mendonça; Estação Central - Assírio & Alvim, Setembro de 2012
de incontáveis plantas e rebentos
estende a cal, espera a floração
em sítios desabrigados
pergunta-se: este caminho tem coração?
quando reparo na horta desde o terreiro da casa
não me parece que esteja ali,
mas em qualquer passagem inacessível
na fronteira avançada
que me arrasta para uma verdade
as groselheiras pendem dos muros
a tudo o sol concede a exacta porção
José Tolentino Mendonça; Estação Central - Assírio & Alvim, Setembro de 2012
21.3.14
Não são frios os silêncios
Vamos por desperdícios amorosos
tarde doce, olhos palavra
mãe sentada no balcão a ver os pássaros na cerejeira,
língua de fumo das casas antigas.
Delicados são alguns patamares da vida
e íngremes as escadas do silêncio.
Onde passa o vento de todo o lado,
o alto das árvores é de palavras lavadas.
O silêncio chama os frutos pelo nome.
Vamos por desperdícios amorosos
tarde doce, olhos palavra
mãe sentada no balcão a ver os pássaros na cerejeira,
língua de fumo das casas antigas.
Delicados são alguns patamares da vida
e íngremes as escadas do silêncio.
Onde passa o vento de todo o lado,
o alto das árvores é de palavras lavadas.
O silêncio chama os frutos pelo nome.
28.1.14
A Avó
Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando
Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela
Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro
Manuel António Pina; Os Livros; Assírio & Alvim, 2003
27.1.14
A Borboleta
(Do filme O Rapaz do Pijama às Riscas)
Contente mesmo contente
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer.
estive na vida muitas vezes
mas nunca como na Alemanha
quando me libertaram
e me pus a olhar uma borboleta
sem vontade de a comer.
Tonino Guerra; Histórias de uma Noite de Calmaria; tradução de Mário Rui de Oliveira; Assírio & Alvim; 2002
19.1.14
Tinha duas hortas para se ocupar.
Nas manhãs orvalhadas, prendia-se às margaridas que lhe lembravam a adolescência. E, aos domingos, era sempre um gosto se podia lembrar as corridas para a escola onde se perdia a olhar para a rapariga que tinha olhos de sol da manhã. A alegria dos domingos tinha uma ponta de amargura.
Era nos dias santos que lhe sobrava tempo para ter lembranças.
Os dias de trabalhar eram-lhe tempo cego; passava-os no outro quintal, trabalhava muito para não dar conta da demora dos domingos; nunca soube se havia neles pingas de orvalho.
Ao domingo saía cedo da cama. Quando as margaridas piscavam luzes de muitas cores, ficava pensativo, mas dizia sempre bom dia a quem passava por se lembrar de quando ia para a escola. As pessoas pensavam que era feliz.
Às vezes apanhava uma flor, tirava-lhe as pétalas, bem-me-quer-mal-me-quer, e levava para casa o sol da manhã. Quase contentes.
Colmeal da Torre, 19 de Janeiro de 2014
Nas manhãs orvalhadas, prendia-se às margaridas que lhe lembravam a adolescência. E, aos domingos, era sempre um gosto se podia lembrar as corridas para a escola onde se perdia a olhar para a rapariga que tinha olhos de sol da manhã. A alegria dos domingos tinha uma ponta de amargura.
Era nos dias santos que lhe sobrava tempo para ter lembranças.
Os dias de trabalhar eram-lhe tempo cego; passava-os no outro quintal, trabalhava muito para não dar conta da demora dos domingos; nunca soube se havia neles pingas de orvalho.
Ao domingo saía cedo da cama. Quando as margaridas piscavam luzes de muitas cores, ficava pensativo, mas dizia sempre bom dia a quem passava por se lembrar de quando ia para a escola. As pessoas pensavam que era feliz.
Às vezes apanhava uma flor, tirava-lhe as pétalas, bem-me-quer-mal-me-quer, e levava para casa o sol da manhã. Quase contentes.
Colmeal da Torre, 19 de Janeiro de 2014
21.12.13
O tesouro é então a magnólia segredada entre nós dois
É o canto que circula entre os lábios, a seiva
Entre o nosso cérebro e o seu próprio coração.
O coração do poema é a magnólia ao vento. Abro
Os braços, as veias, e digo
Tu que te abrigas fora de casa. E a minha promessa
É esta - que de pedra existe
Junto da magnólia permanece
Mesmo quando a sombra
Seca. E o pássaro parte. E a flor
Depois das chuvas não vem.
Daniel Faria; Poesia; Quasi Edições, 2003 (pág. 332)
É o canto que circula entre os lábios, a seiva
Entre o nosso cérebro e o seu próprio coração.
O coração do poema é a magnólia ao vento. Abro
Os braços, as veias, e digo
Tu que te abrigas fora de casa. E a minha promessa
É esta - que de pedra existe
Junto da magnólia permanece
Mesmo quando a sombra
Seca. E o pássaro parte. E a flor
Depois das chuvas não vem.
Daniel Faria; Poesia; Quasi Edições, 2003 (pág. 332)
16.12.13
O monge espalhava nos claustros sementes à espera dos pardais.
Disse-me que, até a rezar muito antes de nascer o sol, metia no peito o gozo das magnólias à vista dos pássaros que aparecem às primeiras luzes. E que até o chão parecia ter bocados de música. E era por isso que gostava do silêncio. Encontrava lá a fieira das palavras.
Também, se dava conta do vento fino entre as outras plantas, dizia:
fala baixo; as palavras querem-se pequenas, música de passarinhos.
Disse-me que, até a rezar muito antes de nascer o sol, metia no peito o gozo das magnólias à vista dos pássaros que aparecem às primeiras luzes. E que até o chão parecia ter bocados de música. E era por isso que gostava do silêncio. Encontrava lá a fieira das palavras.
Também, se dava conta do vento fino entre as outras plantas, dizia:
fala baixo; as palavras querem-se pequenas, música de passarinhos.
13.12.13
30.11.13
A casa dos diospiros
1.
Onde quero o olhar devia ser como os campos nas manhãs de geada, parados por causa do frio; mas,ao primeiro voo da pega azul e aos primeiros sopros do vento, as toalhas brancas aparecem pintadas de margaças, movimentos de tudo, recreio de meninos cor de papoila, confusão bonita como rebanhos de pastor benevolente. Mosto buliçoso a preparar invernos marotos.
Onde tenho o coração vejo sinais de mãos cuidadosas, de quem borda toalhas de pôr a mesa, ou prepara os jardins de gente especiosa. Mãos arquitectas de espaços rei e rainha e de princesa à espera do princês. Tudo muito certo. Arrumadinho.
A minha irmã, essência organizada sempre presente como no Livro dos Provérbios, dispõe as casas como a pentear os meninos do coro, ou a alinhavar lençóis de dormir.
2.
A nossa casa devia ser um recreio de meninos a comer diospiros, uma biblioteca com Eugénio de Andrade ao lado do Compendium Gradualis et Missalis Romani, da Montanha Mágica também, eu a olhar, e a minha irmã a rir e a cantar baixinho.
3.
Hoje, ao ir ao quintal, não gostei da romãzeira, arrumadinha.
Mas parecia a minha irmã e comecei a gostar de a olhar e de poisar nela o meu coração.
Todos os dias nos pomos à janela a falar sobre a maneira de a casa ficar bonita
jardim de meninos a comer diospiros
e também como uma montanha de onde olhar as coisas, as palavras e os silêncios.
Colmeal da Torre, 28 de Novembro, 2013
Onde quero o olhar devia ser como os campos nas manhãs de geada, parados por causa do frio; mas,ao primeiro voo da pega azul e aos primeiros sopros do vento, as toalhas brancas aparecem pintadas de margaças, movimentos de tudo, recreio de meninos cor de papoila, confusão bonita como rebanhos de pastor benevolente. Mosto buliçoso a preparar invernos marotos.
Onde tenho o coração vejo sinais de mãos cuidadosas, de quem borda toalhas de pôr a mesa, ou prepara os jardins de gente especiosa. Mãos arquitectas de espaços rei e rainha e de princesa à espera do princês. Tudo muito certo. Arrumadinho.
A minha irmã, essência organizada sempre presente como no Livro dos Provérbios, dispõe as casas como a pentear os meninos do coro, ou a alinhavar lençóis de dormir.
2.
A nossa casa devia ser um recreio de meninos a comer diospiros, uma biblioteca com Eugénio de Andrade ao lado do Compendium Gradualis et Missalis Romani, da Montanha Mágica também, eu a olhar, e a minha irmã a rir e a cantar baixinho.
3.
Hoje, ao ir ao quintal, não gostei da romãzeira, arrumadinha.
Mas parecia a minha irmã e comecei a gostar de a olhar e de poisar nela o meu coração.
Todos os dias nos pomos à janela a falar sobre a maneira de a casa ficar bonita
jardim de meninos a comer diospiros
e também como uma montanha de onde olhar as coisas, as palavras e os silêncios.
Colmeal da Torre, 28 de Novembro, 2013
15.11.13
Conversitas
Há dias de boa luz
passeios vagarosos perto da água;
no entanto,
é turva a memória do que nos encheu
e para outros caminhos a bússola é desconcertada.
Mas é essa luz que tens querido
e é a importância que dás às coisas
as flores estarem no seu sítio
a água saber dos caminhos.
Somos feitos de penumbra
e o que se vê, bola breve de sabão.
O dia é semeador desajeitado.
Colmeal da Torre, 15 de Novembro, 2013
passeios vagarosos perto da água;
no entanto,
é turva a memória do que nos encheu
e para outros caminhos a bússola é desconcertada.
Mas é essa luz que tens querido
e é a importância que dás às coisas
as flores estarem no seu sítio
a água saber dos caminhos.
Somos feitos de penumbra
e o que se vê, bola breve de sabão.
O dia é semeador desajeitado.
Colmeal da Torre, 15 de Novembro, 2013
10.11.13
Dádiva
Um dia tão feliz.
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.
Czesław Miłosz, em Alguns gostam de poesia, Antologia; Selecção, intodução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, cavalo de ferro
O nevoeiro levantou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os beija-flores pairavam sobre a madressilva.
Não havia na terra coisa que eu quisesse ter.
Não conhecia ninguém digno da minha inveja.
O que houvera de mal, já tinha esquecido.
Não tinha vergonha de me lembrar que tinha sido quem fôra.
No meu corpo nada doía.
Endireitando as costas, via as velas e o mar azul.
Czesław Miłosz, em Alguns gostam de poesia, Antologia; Selecção, intodução e tradução do polaco de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, cavalo de ferro
5.11.13
Quando leres um poema que te leve a fechar os olhos,
joga ao faz de conta:
estás a ver a casa
ela vai indo atrás das palavras
cada vez mais pequena
quase chão
só vês as janelas.
O poema é a nossa casa.
Faz ainda de conta:
chega o dia de ir embora
o silêncio vai abrindo as janelas
uma a uma vais vendo as palavras
abelhas cheias de mel.
É a nossa casa. Fica mais um bocadinho.
Colmeal da Torre, 4/Novembro/2013
(a pensar nos filhos e netos)
joga ao faz de conta:
estás a ver a casa
ela vai indo atrás das palavras
cada vez mais pequena
quase chão
só vês as janelas.
O poema é a nossa casa.
Faz ainda de conta:
chega o dia de ir embora
o silêncio vai abrindo as janelas
uma a uma vais vendo as palavras
abelhas cheias de mel.
É a nossa casa. Fica mais um bocadinho.
Colmeal da Torre, 4/Novembro/2013
(a pensar nos filhos e netos)
23.10.13
As recordações olham para mim
Uma manhã de junho, quando ainda é cedo para acordar
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.
Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.
Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.
E embora o gorgeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.
Tomas Tranströmer, 50 Poemas; tradução de Alexandre Pastor; Relógio D'Água,
mas demasiado tarde para voltar a pegar no sono.
Embrenho-me pelo arvoredo repleto de recordações
e elas seguem-me com os seus olhares.
Autênticos camaleões, elas não se mostram,
diluem-se literalmente no cenário.
E embora o gorgeio dos pássaros seja ensurdecedor,
estão tão perto de mim que ouço como respiram.
Tomas Tranströmer, 50 Poemas; tradução de Alexandre Pastor; Relógio D'Água,
22.10.13
São nómadas e param na meia encosta.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.
O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.
Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.
Levam o pavor das terras inundadas e as bagas dos montes não lhes enfeitam os cabelos.
O mar longe põe-lhes a alma mais negra, e os nevoeiros tapam o alto da montanha;
nenhuma pomba aparece com o raminho de oliveira.
Mas olham-se uns aos outros, ouvem como respiram
e entendem que estar triste é tão bom como a alegria das águas abundantes.
(Nota necessária: hoje, ao abrir o livro que tinha à mão, hábito
velho, reli o poema “As recordações olham para mim“ de Tomas Tranströmer. É bem
possível que este meu texto seja seu devedor, dado que sei que o livro andou
comigo nos finais de Setembro. Colmeal da Torre,
23/Out/13)
7.10.13
Uma palavra e algumas variações
Morrer em céu aberto
Os cisnes andavam para nascente
olhos presos nas margens
a água descia
porca
pedi aos céus nuvens lavadas
luzes de adormecer
divã de algas até ao mar
e desenhei o tempo
como as crianças sonham as flores.
Termas, 5/Outubro/2013
5.10.13
24.9.13
O sol sobre a pedra a marca verde
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980
a resolução do ar a erva
só com a cabeça deserta
porquê? porquê e não porquê
com o sol nos cabelos com o sol
entre as árvores e sem a alegria
dos animais e a água.
Entrando na espessura sob as manchas
do silêncio sem amor mas no silêncio
das folhas eu vivo pelas pedras.
António Ramos Rosa, O Incêndio dos Aspectos; Na Regra do Jogo, 1980
22.9.13
VEM CHEGANDO
(Sergei Ilnitsky / EPA)
Vem chegando o outono
volta a fixar-se
nas cores do país solar.
Sobem do vale as neblinas
e abre rasgões o crocitar
dos corvos na tarde.
Uma ânsia qualquer detém o vento.
Soledade Santos, Sob os teus pés a Terra; Artefacto, 2010
9.9.13
Conversitas e um sítio bonito
Chamaste vamos ver as framboesas.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.
Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.
Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.
De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.
Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.
2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.
Assim se vestem as tardes
basta respirar
os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.
Delicado silêncio dentro do peito,
tão inúteis as palavras.
1.
É de coisas leves, murmuras,
que fazes o teu peito,
ribeiro sereno a reflectir nuvens ligeiras.
Flor e vento nos vidoeiros,
casa dos sonhos macios,
jardim recatado, gosto mais.
Mas no coração dos bosques, dizes,
as abelhas deslassam a quietude,
crianças impertinentes à hora da estrela da tarde.
De pés inquietos são os meninos.
Assim somos nós,
ligeirinhos como nuvens.
Parecemos carneirinhos a passear no céu,
e nos prados, coisinhas leves,
a ouvir o invisível.
2.
Sentados no tanque de pedra
os pés à tona da água
foi à tardinha, a água respirava
éramos meninos vestidos de orvalho.
Assim se vestem as tardes
basta respirar
os dedos a afagar a água
os corpos às ondas às ondas
quase líquenes à procura de repouso.
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