ONDE VAIS ?
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim
15.12.15
15.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
III
À colina ao lado da aldeia, para nascente, chamam-lhe o Sítio da Coitadinha.
No tempo da guerra, alguns rapazes e raparigas, acabado o trabalho nas hortas nos dias grandes, iam para lá ao minério que medrava como os rosmanos e as giestas e era só chegar, colher e lavar. As mães ficavam em casa a preparar a ceia e os pais conversavam nas tabernas.
Para onde iria ser levado o minério era coisa só sabida por uns cavalheiros que apareciam de vez em quando; levavam os sacos da colheita e deixavam dinheiro que se via, que para gente de pouco esperar o pouco costuma ser cabonde.
Escolhiam, aos pares, rapaz e rapariga, lugares afastados uns dos outros. Quando cada um ia pela barroca onde corria água, o minério era limpo da terra e lavavam-se também os suores. Às vezes, os corpos misturavam-se e a tarde era céu aberto até ao toque das Avé-Marias.
Há um casal com cerca de oitenta que vai à Coitadinha nalgumas tardes soalheiras e os filhos não percebem por que razão os pais entram em casa com sorrisos marotos.
* Histórias para uma Noite de Calmaria; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre, 15/Nov/2015
12.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
II
O segundo claustro do mosteiro estava incompleto e os anciãos já não iam para lá conversar entre a ceia e o grande silêncio.
Quem ia de visita admirava a sineta do claustro perfeito, voz de Deus a acordar os monges para rezarem as laudes e perdia o olhar por entre as portas do Capítulo e o claustro inacabado, ganhando afeição àquele espaço sem portas onde podia entrar o mundo todo. Por isso, o claustro era perfeito.
Como quem busca hospedagem nos primeiros frios do Outono, uma magnólia branca entrou e deu flor no claustro abandonado e, agora, ouvem-se poemas assim:
"Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
"...Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
"Se acender a luz
Não morrerei sozinho" (2)
Não morrerei sozinho" (2)
O poeta Daniel Faria não chegou a ser ancião. Foi repousar, como quem reza:
"E agora sei que oiço as coisas devagar". (3)
A magnólia anda triste, disse-me um monge numa tarde deste Outono.
1) Dos Líquidos; 2) Explicação das Árvores e de Outros Animais; 3) O Livro do Joaquim
* O Livro das Igrejas abandonadas
Colmeal da Torre, 12/Nov/2015
8.11.15
4.11.15
Com bênção de Tonino Guerra*
I
Ao Convento da Serra
da Esperança chegavam alguns dos frades de São Francisco para expiarem pecados
e atropelos, informava o guia do turismo.
Casa pequena, acima da
meia encosta, tem vista para o vale do Zêzere. O visitante que não levava
máquina fotográfica falou:
- Se do rio formos
erguendo os olhos, chega-se à Estrela passeada por aquelas nuvens e por golpes
de sol; e, repare, senhor guia, recolhendo-se a atenção ao vale, a gente fica a
pensar em como seria bom para os frades fazerem pecados.
O guia não respondeu,
o roteiro era omisso.
*O Livro das
Igrejas Abandonadas; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre,
2/Nov/15
1.11.15
24.3.15
Nascemos para o sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
27.2.15
25.2.15
No princípio é a relação.
Veja-se a linguagem dos "primitivos", isto é, dos povos que permaneceram pobres em objetos e cuja vida se edifica no interior de uma restrita esfera de atos que têm uma forte presença. Os núcleos desta linguagem, as palavras-frase [...] designam em geral a totalidade de uma relação. Nós dizemos "muito longe", mas o zulu profere uma palavra-frase que significa: " O lugar onde alguém grita: mãe, estou perdido! E o habitante da Terra do Fogo sobrepuja a nossa sabedoria analítica com uma palavra-frase de sete sílabas, cujo sentido exato é: "Olham um para o outro, cada qual espera que o outro se ofereça para fazer o que ambos desejam, mas nenhum gosta de fazer."
Martin Bubar; Eu e Tu; trad. de Artur Morão e Sofia Favila - Paulinas Editora; Outubro 2014
Veja-se a linguagem dos "primitivos", isto é, dos povos que permaneceram pobres em objetos e cuja vida se edifica no interior de uma restrita esfera de atos que têm uma forte presença. Os núcleos desta linguagem, as palavras-frase [...] designam em geral a totalidade de uma relação. Nós dizemos "muito longe", mas o zulu profere uma palavra-frase que significa: " O lugar onde alguém grita: mãe, estou perdido! E o habitante da Terra do Fogo sobrepuja a nossa sabedoria analítica com uma palavra-frase de sete sílabas, cujo sentido exato é: "Olham um para o outro, cada qual espera que o outro se ofereça para fazer o que ambos desejam, mas nenhum gosta de fazer."
Martin Bubar; Eu e Tu; trad. de Artur Morão e Sofia Favila - Paulinas Editora; Outubro 2014
20.2.15
15.2.15
26.12.14
23.12.14
Ele pensa nos seus três filhos que neste momento brincam junto à lareira.
Brincam, trabalham, não se sabe.
Trabalham ajudando a mãe, não se sabe.
As crianças não são como os homens.
Para as crianças, brincar, trabalhar, descansar, ficar quieto, correr, é tudo a mesma coisa.
Uma só coisa.
É tudo igual, eles não fazem diferença.
São felizes.
Divertem-se o tempo todo. Quando trabalham ou quando brincam.
Nem reparam nisso.
São felizes.
Têm as suas regras. As mesmas regras de Jesus.
Do menino Jesus.
E também a esperança é a que se diverte o tempo todo.
Ele pensa nos seus três filhos que brincam a esta hora ao canto da lareira.
Oxalá estejam felizes.
Charles Péguy, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude; tradução de Armando Silva Carvalho; Paulinas Editora, 2014
Brincam, trabalham, não se sabe.
Trabalham ajudando a mãe, não se sabe.
As crianças não são como os homens.
Para as crianças, brincar, trabalhar, descansar, ficar quieto, correr, é tudo a mesma coisa.
Uma só coisa.
É tudo igual, eles não fazem diferença.
São felizes.
Divertem-se o tempo todo. Quando trabalham ou quando brincam.
Nem reparam nisso.
São felizes.
Têm as suas regras. As mesmas regras de Jesus.
Do menino Jesus.
E também a esperança é a que se diverte o tempo todo.
Ele pensa nos seus três filhos que brincam a esta hora ao canto da lareira.
Oxalá estejam felizes.
Charles Péguy, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude; tradução de Armando Silva Carvalho; Paulinas Editora, 2014
5.12.14
(...)
Vê que não me afastei e continua: "Quando temos uma saudade, não é falta, é presença, é uma visita, chegam pessoas, países, de longe e fazem-te alguma companhia." Com que então, dom Rafaniè, todas as vezes que sentir uma falta, terei de lhe chamar presença? "Claro, que é para dares as boas vindas a cada falta, para a receberes bem." Então depois de teres voado, eu não devo sentir a vossa falta? "Não, diz, quando calhar pensares em mim, eu estarei presente."
Erri de Luca; Montedidio - Trad. de Simonetta Neto; Bertrand Editora, Lisboa 2012
Vê que não me afastei e continua: "Quando temos uma saudade, não é falta, é presença, é uma visita, chegam pessoas, países, de longe e fazem-te alguma companhia." Com que então, dom Rafaniè, todas as vezes que sentir uma falta, terei de lhe chamar presença? "Claro, que é para dares as boas vindas a cada falta, para a receberes bem." Então depois de teres voado, eu não devo sentir a vossa falta? "Não, diz, quando calhar pensares em mim, eu estarei presente."
Erri de Luca; Montedidio - Trad. de Simonetta Neto; Bertrand Editora, Lisboa 2012
1.11.14
22.10.14
Oferenda
"Inclina o ouvido do teu coração"
a cada palavra mil silêncios
música pequenina flauta,
bicho da seda flores de macieira
isto sei oferecer
água a enlear os seixos
saudosa das nascentes das palavras todas.
"Inclina o ouvido do teu coração".
a cada palavra mil silêncios
música pequenina flauta,
bicho da seda flores de macieira
isto sei oferecer
água a enlear os seixos
saudosa das nascentes das palavras todas.
"Inclina o ouvido do teu coração".
15.7.14
2.7.14
27.4.14
Apesar de muitas coisas
Hoje sentei-me a olhar o quintal.
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol. Apesar de tudo.
Colmeal da Torre, 25 de Abril de 2014
Passa um vento benigno a pentear as margaças.
Vem dos montes, traz luzes antigas, banhos de sol. Apesar de tudo.
Colmeal da Torre, 25 de Abril de 2014
20.4.14
As Flores
Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.
Sophia de Mello Breyner Andresen; No Tempo Dividido
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.
Sophia de Mello Breyner Andresen; No Tempo Dividido
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