25.12.15
24.12.15
15.12.15
ONDE VAIS ?
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim
15.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
III
À colina ao lado da aldeia, para nascente, chamam-lhe o Sítio da Coitadinha.
No tempo da guerra, alguns rapazes e raparigas, acabado o trabalho nas hortas nos dias grandes, iam para lá ao minério que medrava como os rosmanos e as giestas e era só chegar, colher e lavar. As mães ficavam em casa a preparar a ceia e os pais conversavam nas tabernas.
Para onde iria ser levado o minério era coisa só sabida por uns cavalheiros que apareciam de vez em quando; levavam os sacos da colheita e deixavam dinheiro que se via, que para gente de pouco esperar o pouco costuma ser cabonde.
Escolhiam, aos pares, rapaz e rapariga, lugares afastados uns dos outros. Quando cada um ia pela barroca onde corria água, o minério era limpo da terra e lavavam-se também os suores. Às vezes, os corpos misturavam-se e a tarde era céu aberto até ao toque das Avé-Marias.
Há um casal com cerca de oitenta que vai à Coitadinha nalgumas tardes soalheiras e os filhos não percebem por que razão os pais entram em casa com sorrisos marotos.
* Histórias para uma Noite de Calmaria; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre, 15/Nov/2015
12.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
II
O segundo claustro do mosteiro estava incompleto e os anciãos já não iam para lá conversar entre a ceia e o grande silêncio.
Quem ia de visita admirava a sineta do claustro perfeito, voz de Deus a acordar os monges para rezarem as laudes e perdia o olhar por entre as portas do Capítulo e o claustro inacabado, ganhando afeição àquele espaço sem portas onde podia entrar o mundo todo. Por isso, o claustro era perfeito.
Como quem busca hospedagem nos primeiros frios do Outono, uma magnólia branca entrou e deu flor no claustro abandonado e, agora, ouvem-se poemas assim:
"Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
"...Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
"Se acender a luz
Não morrerei sozinho" (2)
Não morrerei sozinho" (2)
O poeta Daniel Faria não chegou a ser ancião. Foi repousar, como quem reza:
"E agora sei que oiço as coisas devagar". (3)
A magnólia anda triste, disse-me um monge numa tarde deste Outono.
1) Dos Líquidos; 2) Explicação das Árvores e de Outros Animais; 3) O Livro do Joaquim
* O Livro das Igrejas abandonadas
Colmeal da Torre, 12/Nov/2015
8.11.15
4.11.15
Com bênção de Tonino Guerra*
I
Ao Convento da Serra
da Esperança chegavam alguns dos frades de São Francisco para expiarem pecados
e atropelos, informava o guia do turismo.
Casa pequena, acima da
meia encosta, tem vista para o vale do Zêzere. O visitante que não levava
máquina fotográfica falou:
- Se do rio formos
erguendo os olhos, chega-se à Estrela passeada por aquelas nuvens e por golpes
de sol; e, repare, senhor guia, recolhendo-se a atenção ao vale, a gente fica a
pensar em como seria bom para os frades fazerem pecados.
O guia não respondeu,
o roteiro era omisso.
*O Livro das
Igrejas Abandonadas; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre,
2/Nov/15
1.11.15
24.3.15
Nascemos para o sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
27.2.15
25.2.15
No princípio é a relação.
Veja-se a linguagem dos "primitivos", isto é, dos povos que permaneceram pobres em objetos e cuja vida se edifica no interior de uma restrita esfera de atos que têm uma forte presença. Os núcleos desta linguagem, as palavras-frase [...] designam em geral a totalidade de uma relação. Nós dizemos "muito longe", mas o zulu profere uma palavra-frase que significa: " O lugar onde alguém grita: mãe, estou perdido! E o habitante da Terra do Fogo sobrepuja a nossa sabedoria analítica com uma palavra-frase de sete sílabas, cujo sentido exato é: "Olham um para o outro, cada qual espera que o outro se ofereça para fazer o que ambos desejam, mas nenhum gosta de fazer."
Martin Bubar; Eu e Tu; trad. de Artur Morão e Sofia Favila - Paulinas Editora; Outubro 2014
Veja-se a linguagem dos "primitivos", isto é, dos povos que permaneceram pobres em objetos e cuja vida se edifica no interior de uma restrita esfera de atos que têm uma forte presença. Os núcleos desta linguagem, as palavras-frase [...] designam em geral a totalidade de uma relação. Nós dizemos "muito longe", mas o zulu profere uma palavra-frase que significa: " O lugar onde alguém grita: mãe, estou perdido! E o habitante da Terra do Fogo sobrepuja a nossa sabedoria analítica com uma palavra-frase de sete sílabas, cujo sentido exato é: "Olham um para o outro, cada qual espera que o outro se ofereça para fazer o que ambos desejam, mas nenhum gosta de fazer."
Martin Bubar; Eu e Tu; trad. de Artur Morão e Sofia Favila - Paulinas Editora; Outubro 2014
20.2.15
15.2.15
26.12.14
23.12.14
Ele pensa nos seus três filhos que neste momento brincam junto à lareira.
Brincam, trabalham, não se sabe.
Trabalham ajudando a mãe, não se sabe.
As crianças não são como os homens.
Para as crianças, brincar, trabalhar, descansar, ficar quieto, correr, é tudo a mesma coisa.
Uma só coisa.
É tudo igual, eles não fazem diferença.
São felizes.
Divertem-se o tempo todo. Quando trabalham ou quando brincam.
Nem reparam nisso.
São felizes.
Têm as suas regras. As mesmas regras de Jesus.
Do menino Jesus.
E também a esperança é a que se diverte o tempo todo.
Ele pensa nos seus três filhos que brincam a esta hora ao canto da lareira.
Oxalá estejam felizes.
Charles Péguy, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude; tradução de Armando Silva Carvalho; Paulinas Editora, 2014
Brincam, trabalham, não se sabe.
Trabalham ajudando a mãe, não se sabe.
As crianças não são como os homens.
Para as crianças, brincar, trabalhar, descansar, ficar quieto, correr, é tudo a mesma coisa.
Uma só coisa.
É tudo igual, eles não fazem diferença.
São felizes.
Divertem-se o tempo todo. Quando trabalham ou quando brincam.
Nem reparam nisso.
São felizes.
Têm as suas regras. As mesmas regras de Jesus.
Do menino Jesus.
E também a esperança é a que se diverte o tempo todo.
Ele pensa nos seus três filhos que brincam a esta hora ao canto da lareira.
Oxalá estejam felizes.
Charles Péguy, Os Portais do Mistério da Segunda Virtude; tradução de Armando Silva Carvalho; Paulinas Editora, 2014
5.12.14
(...)
Vê que não me afastei e continua: "Quando temos uma saudade, não é falta, é presença, é uma visita, chegam pessoas, países, de longe e fazem-te alguma companhia." Com que então, dom Rafaniè, todas as vezes que sentir uma falta, terei de lhe chamar presença? "Claro, que é para dares as boas vindas a cada falta, para a receberes bem." Então depois de teres voado, eu não devo sentir a vossa falta? "Não, diz, quando calhar pensares em mim, eu estarei presente."
Erri de Luca; Montedidio - Trad. de Simonetta Neto; Bertrand Editora, Lisboa 2012
Vê que não me afastei e continua: "Quando temos uma saudade, não é falta, é presença, é uma visita, chegam pessoas, países, de longe e fazem-te alguma companhia." Com que então, dom Rafaniè, todas as vezes que sentir uma falta, terei de lhe chamar presença? "Claro, que é para dares as boas vindas a cada falta, para a receberes bem." Então depois de teres voado, eu não devo sentir a vossa falta? "Não, diz, quando calhar pensares em mim, eu estarei presente."
Erri de Luca; Montedidio - Trad. de Simonetta Neto; Bertrand Editora, Lisboa 2012
1.11.14
22.10.14
Oferenda
"Inclina o ouvido do teu coração"
a cada palavra mil silêncios
música pequenina flauta,
bicho da seda flores de macieira
isto sei oferecer
água a enlear os seixos
saudosa das nascentes das palavras todas.
"Inclina o ouvido do teu coração".
a cada palavra mil silêncios
música pequenina flauta,
bicho da seda flores de macieira
isto sei oferecer
água a enlear os seixos
saudosa das nascentes das palavras todas.
"Inclina o ouvido do teu coração".
15.7.14
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