7.3.20


O eremita

(PONHO AQUI TUDO SEGUIDINHO)


O eremita meditava no fim da tarde, as ervas a entrarem-lhe no peito. O tempo era tranquilo e o chão estava grande. E, porque nas palavras de todos os dias era sempre cuidadoso e pequeno, às vezes, antes de adormecer, dizia coisas simples com muitas palavras: o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros.

Sabia que isso era modo comprido, envergonhado, e simples, de dizer boa noite.
Ficava menos sozinho.

Fazia-lhe bem jogar com palavras como às crianças fazer desenhos no céu.

Conhecia o cheiro das flores e a maneira como os aromas andavam no bosque de mistura com as folhas. Eram pontas de luz e de cores. Se precisasse de falar, bastava olhar o vento. E os pássaros olhavam. E não era preciso brincar às palavras.
Nem dizer boa noite.

O bosque do eremita era quase divino. Não tinha árvores do bem nem os frutos eram do mal.
E já tinha esquecido a maneira como as coisas haviam aparecido. Mas sabia que tudo era bom. Tudo tinha sido bom.
Algumas dúvidas, guardava-as. Tinha razões.
Muitas vezes, ao dizer “Creio”, ficava a pensar. E baixava a voz.

Também não andava enganado ao dizer muitas palavras como as que substituíam “bom dia”, “boa noite”; sem adornos.
Poucas vezes dizia “o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros”. Sabia que isso era maneira de desritualizar um cumprimento. Conhecia ritos, mas queria-os poucos e pequenos.

Como quem reza, era assim que percebia os ritos. Sóbrios, com a solenidade necessária.
E ficava sentado em sítio sozinho. A libertar-se do que não era bom.
Gostava de estar assim, e também sorria ao pensar na morte.

Era divino o bosque do eremita. E simples como as rosas. Despreocupadas.

Sorria ao pensar na morte.

Às vezes, era visto a rezar como quem segura na mão uma flor em dia de vendaval.
As palavras não lhe fugiam, as dúvidas é que o atormentavam. Estava vestido de dúvidas. Os irmãos notavam. Olhavam-se e outras dúvidas os afligiam.
Aquele irmão sofria, isso percebiam, já tinham conversado. Do sofrimento do corpo.
Os outros sofrimentos eram sabidos. Alguns também eram de todos. Bem conhecidos e conversados.

Numa manhã marcada para se encontrarem, ao chegarem à porta da cabana do irmão, viram-no sentado na pedra de musgo. Olhava como quem não vê.
Parecia ser arrastado. Como a flor a fugir com os ventos.
Os olhos estavam perdidos, mas o rosto sorria. Não respondeu aos cumprimentos da chegada.

E todos se lembraram de uma conversa que tiveram: “Deus é nosso irmão. Está connosco. Não gosta de nos ver a sofrer muito".

Todos deram graças.


 * Angelus Silesius

Acabado no Colmeal da Torre, 25/Fev/20


25.2.20



“A rosa é sem porquê” *

Sorria ao pensar na morte.

Às vezes, era visto a rezar como quem segura na mão uma flor em dia de vendaval.
As palavras não lhe fugiam, as dúvidas é que o atormentavam. Estava vestido de dúvidas. Os irmãos notavam. Olhavam-se e outras dúvidas os afligiam.
Aquele irmão sofria, isso percebiam, já tinham conversado. Do sofrimento do corpo.
Os outros sofrimentos eram sabidos. Alguns também eram de todos. Bem conhecidos e conversados.

O irmão olhava como quem não vê. Parecia ser arrastado. Como a flor a fugir com os ventos.

Numa manhã marcada para se encontrarem,  ao chegarem à porta da cabana do irmão, viram-no sentado na pedra de musgo. Os olhos estavam perdidos, mas o rosto sorria. Não respondeu aos cumprimentos da chegada.
E todos se lembraram de uma conversa que tiveram: “Deus é nosso irmão. Está connosco. Não gosta de nos ver a sofrer muito.

Todos deram graças.

 * Angelus Silesius

Colmeal da Torre, 25/Fev/20

16.2.20




Vestem lantejoulas e falam e falam.
Temos homem, temos mulher; assim é que é.

O gato anda divertido a murar as toupeiras do quintal, que das gralhas há muito se desinteressou.
Sabedores velhos são os gatos.

Colmeal, 4/Maio/2014

15.2.20



“A rosa é sem porquê” *


O eremita meditava no fim da tarde, as ervas a entrarem-lhe no peito. O tempo era tranquilo e o chão estava grande. E, porque nas palavras de todos os dias era sempre cuidadoso e pequeno, às vezes, antes de adormecer, dizia coisas simples com muitas palavras: o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros.

Sabia que isso era modo comprido, envergonhado, e simples, de dizer boa noite.
Ficava menos sozinho.

Fazia-lhe bem jogar com palavras como às crianças fazer desenhos no céu.

Conhecia o cheiro das flores e a maneira como os aromas andavam no bosque de mistura com as folhas. Eram pontas de luz e de cores. Se precisasse de falar, bastava olhar o vento. E os pássaros olhavam. E não era preciso brincar às palavras.
Nem dizer boa noite.

O bosque do eremita era quase divino. Não tinha árvores do bem nem os frutos eram do mal.
E já tinha esquecido a maneira como as coisas haviam aparecido. Mas sabia que tudo era bom. Tudo tinha sido bom.
Algumas dúvidas, guardava-as. Tinha razões.
Muitas vezes, ao dizer “Creio”, ficava a pensar. E baixava a voz.

Também não andava enganado ao dizer muitas palavras como as que substituíam “bom dia”, “boa noite”; sem adornos.
Poucas vezes dizia “o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros”. Sabia que isso era maneira de desritualizar um cumprimento. Conhecia ritos, mas queria-os poucos e pequenos.

Como quem reza, era assim que percebia os ritos. Sóbrios, com a solenidade necessária.
E ficava sentado em sítio sozinho. A libertar-se do que não era bom.
Gostava de estar assim, e também sorria ao pensar na morte.

Era divino o bosque do eremita. E simples como as rosas. Despreocupadas.

* Angelus Silesius

Carreiro da Lama, 15/Fev/20 (pedindo benevolência a quem passar por aqui).

14.2.20



O eremita (continuação)

Como quem reza, era assim que percebia os ritos. Sóbrios. Só assim tinham a solenidade necessária. Ficava sentado em sítio sozinho. A libertar-se do que não era bom.
Gostava de estar assim, e também sorria ao pensar na morte.

Era divino o bosque do eremita. E simples como as rosas. Rosas despreocupadas.

Carreiro da Lama, 14/Fev/20

13.2.20




O eremita (continuação de 29.1.20)

Conhecia o cheiro das flores e a maneira como os aromas andavam no bosque de mistura com as folhas. Eram pontas de luz de cores misturadas. Se precisasse de falar, bastava olhar o vento. E os pássaros olhavam.
E não era preciso brincar às palavras. Nem dizer boa noite.
O bosque do eremita era divino. Não tinha árvores do bem nem os frutos eram os do mal. E já tinha esquecido a maneira como as coisas haviam aparecido. Mas sabia que tudo era bom. Tudo tinha sido bom. Algumas dúvidas, guardava-as. Tinha razões.

 Muitas vezes, ao dizer “Creio”, ficava a pensar. E baixava a voz.
Também não era capaz de se iludir dizendo muitas palavras como as que substituíam qualquer “bom dia”, “boa noite”, sem adornos. Poucas vezes dizia “o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros”. Sabia que isso era maneira de desritualizar um cumprimento. Conhecia ritos, usava-os, mas queria-os poucos e pequenos.

Colmeal da Torre, 13/Fev/20

1.2.20


Quando morre o Sol começa outro a nascer.
São assim os dias. Do tamanho de cada Sol.
Vemo-lo a ficar grande a dar luz às palavras.
No tempo escuro, começam outras palavras.

O Sol conhece a fonte das palavras
e nunca é igual na maneira de dizer.

“Duvida da luz dos astros”, dizia o tal William
que não estava a pensar no Sol.

O tempo não vai às fontes:
come-nos as palavras.

As que eu tinha nos olhos o tempo levou-as.

Tenho palavras guardadas na arca do peito.
“Não se esgotará a panela da farinha,
nem se esvaziará a almotolia do azeite”, (1)
ao fim da tarde quando os amigos são o Sol
que nos conhece por dentro,

pelo silêncio e pelas palavras que aconcheguei.

Experimenta sentar-te ao acabar de nascer,
ainda não sabes o que são rios e o que é o mar.
Inclina o ouvido do coração:
o silêncio vai falar; notas-lhe o cheiro.
As palavras são assim. Flores.




As flores são a casa dos frutos
e os frutos também não sabem do tempo.
Todas as horas são novas no tempo certo.
E não sei o que é o tempo. E não é grave.
Os frutos não sabem. E é bom.
“Não se esgotará a panela da farinha”
por o tempo não ser preocupação dos frutos.

(1 Reis, 17, 14)

Colmeal, 23 de Novembro, 2018

29.1.20




O eremita meditava no fim da tarde, as ervas a entrarem-lhe no peito. O tempo era tranquilo e o chão grande. E, porque nas palavras de todos os dias era sempre cuidadoso e pequeno, às vezes, antes de adormecer, imaginava-se a pensar as coisas simples com muitas palavras. Assim: “o céu está calmo e ajuda as raposas a procurar o sítio do descanso, e eu tenho musgo e uma pedra para repousar o coração. Os pássaros sabem onde dormir. Durmo como os pássaros.”

Sabia que isso era modo comprido, envergonhado, e simples, de dizer “boa noite”.
Ficava menos sozinho.

Fazia-lhe bem jogar com palavras como crianças a fazer desenhos no céu.

Batalha, 27/Jan/2020

12.6.19


Existem na montanha árvores heroínas, plantadas sobre o vazio, medalhas no peito dos precipícios. Subo todos os Verões para visitar uma delas. Antes de me ir embora, encavalito-me no seu braço sobre o vazio. Os pés descalços recebem as cócegas do ar aberto a centenas de metros. Abraço-a e agradeço-lhe por resistir.

Erri de Luca; “O Peso da Borboleta” – Tradução de Simonetta Neto – Bertrand Editora.
Pág. 79.




6.11.18


(Texto anterior alterado)

Andamos a entrelaçar o silêncio e as palavras
fermento fundido na massa do pão
olhos mar sol
ausência a saber ouvir as palavras.

Quando vieres traz vinho para a refeição
rosto da tua presença palavra coradinha.

Colmeal, 6 de Novembro, 2018

30.10.18


(Fotografia do Tiago)

Por onde andas?

A entrelaçar o silêncio e as palavras
fermento fundido na massa do pão.
A olhar a ausência como ouve as palavras.

Quando vieres traz vinho para a refeição
rosto da tua presença palavra coradinha.

Colmeal, 30 de Outubro, 2018

23.6.18




A rosa é sem porquê
(Angelus Silesius)

Sou podador de roseiras
vejo as folhas
afasto-me um bocadinho
olho as rosas devagar.

Não, não sei podar as rosas
sou jardineiro de ver as árvores e os pássaros nas flores
palavras e silêncios
e sabermo-nos pela maneira de respirar.

Colmeal da Torre, 23 de Junho de 2018


8.6.18


(Picasso)

           
            Mãe!
            Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!
            Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
            Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

            Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
            Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

            Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
            Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade! 

José de Almada Negreiros, “A Invenção do Dia Claro”
Em: José de Almada Negreiros - Obras completas
4 - poesia
Editorial Estampa, 1971
(Pág. 160)

4.4.18


Cântico antigo

Tem coisas estranhas o quintal da minha amada. Ontem à noite, dormia. Esquisito. E delicado.
De manhã, viam-se meruges esquivas, verdes bonitas flores brancas. Alegres.
E algumas lágrimas.
É estranho o quintal da minha amada.

No tempo bom, todas as coisas parecem o dia a nascer. E as coisas não são estranhas.
Era estranho se fossem. Também se não tivessem lágrimas. Algumas.
Mas a noite também é tempo bom. Como o nascer do Sol. A noite não devia ser esquisita.
O Sol sabe da noite. Um sabe do outro. E é bom.

À noite, a gente começa a ler livros. E música. O que não é estranho. Não devia ser estranho.
Mas é estranho o quintal da minha amada. E lê e sabe cantar. Deve ter os olhos postos no chão. Esquecido do céu e das nuvens que distribuem a luz como lhes apraz. Como livros.
Há pessoas assim.

O tempo incerto vê-se logo que o dia começa. Olham-se as meruges. As cores que trazem.

Quando as horas nos levantam os olhos, perdemo-nos a mirar o céu, e o chão não é estranho. Não notamos. Pode ser estranho.


15.11.17


Os meus filhos, disse o mestre,
sabem duas coisas.

(Duas coisas é maneira de dizer.)

Sabem:
o mundo é grande como deve ser;
também é da nossa medida.

(E pensava com algum descanso:
há sempre tempo para saberem mais.)

Se caminhava sozinho,
o mestre ia pelos sítios de muitas árvores,
as de fruta e as que são porque são.

(Cantava-lhe sempre no peito aquilo de Silesius:
“A rosa floresce porque floresce”.)

Ia dizendo palavras soltas:
água, regresso, janelas abertas, cabana, regato…
- alguém há-de chegar, respirava muitas vezes.

(E ficava bem:
o ar é bom, enchia-lhe as entranhas.)

Caminhava sozinho
e sabia-lhe bem o que os filhos sabiam
e o tempo que lhes sobrava.

E deitou-se a descansar.
Sabia o tempo que ainda tinha.

Paredes, 15 de Novembro de 2017


4.7.17



(fotografia de Tiago Pedro Silva)


Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.

Paul Celan - “Arte Poética
O Meridiano e outros textos”
Tradução de João Barrento e Vanessa Milheiro – Pág. 25
Edições Cotovia, reimpressão em Junho de 2017

25.3.17


(Foto de Mário Nunes)

Nos dias limpos, bocadinhos de calor,
horas de dizer: que bom!
quando andava pelos céus o gosto e as vozes a dizerem: que bom!

sentava-se e tudo sabia bem;
olhar calmo e sabedor, atento.

Ficava em silêncio. Tudo límpido.
 
Perguntaram-lhe se era feliz.


Baltar, 25/Março/2017

6.3.17

tempo chato é menos chato que chato tempo.
chato tempo este!
chato!

Colmeal da Torre, 6/Março/2017

21.2.17


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado - "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993

(Vd. também: Adélia Prado, “Tudo o que Existe Louvará – Antologia”; Assírio & Alvim, 2016)

1.1.17




À ROMÃZEIRA QUE ESTÁ A SECAR

Todos os diálogos acabam no silêncio,
mesmo o murmúrio entre dedos e folhas,
quando o avesso da mão roça
a grande Natureza manifesta na árvore.

Era uma romãzeira em flor e fruto,
segura do seu reverdecer, loquaz.
Aos periquitos, na larga capoeira defronte,
respondia com o júbilo da mudez.

Mas ante mim, que a cantava e canto,
ela deixa-se estar como está um surdo
junto de um cego trovador lírico,
até que ambas aceitemos o fim.

Fiama Hasse Pais Brandão, "Obra Breve – Poesia Reunida"
(Cenas vivas – Os Louvores – Na Minha Quinta)
Assírio & Alvim, Maio 2006