10.12.08
Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.
Na alegria, nós movemo-nos num elemento que está todo ele fora do tempo e do real, com presença perfeitamente real.
Incandescentes, atravessamos as paredes.
Cristina Campo: Os Imperdoáveis - Assírio & Alvim - Trad.: José Colaço Barreiros
4.12.08
TEMA E VARIAÇÕES
(Copiei este sono não sei donde)Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.
Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.
Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.
Manuel Bandeira Opus 10
27.11.08
da noite e da Luz

*
de noite o tempo divide-se
metade da alma é borboleta
e o resto não sabe ser a flor
nas veredas
os olhos perdem a flor-nome
fica muito pobre
*
A aurora é espelho de água
as flores sábias lençóis do orvalho
do dormir e acordar claro.
Bendito seja o sorriso largo
jardim nítido das nossas casas
flores e frutos de nome cheio.
17.11.08
15.11.08
Conversitas

- Há luz nas hortas e as abelhas ainda cantam na tília.
Apetece-me: vamos passear a alma!
- E que fazemos do corpo?
- Mas alguma vez ficou para trás?
- A tília é sol mel sereno ainda.
Vamos pelos campos fora?
- É isso! Vamos pelo mel...
- E pelo chão de marcela...
- Com bocas de brilho e doçura nos olhos...
27.10.08
Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha
Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.
(Manuel Bandeira)
Quando tenho vontade de morrer
precisado de ir embora
fito os pássaros e as nuvens
sentado no sol dormente.
Duas pancadinhas nas costas
e mãos a abraçar-me os olhos
o sol fica novo
vamos raptar a luz
Ó maninha Ó maninha.
19.10.08
Ao pôr do sol começou a levantar-se um vento que fez amotinar as areias da praia; a chuva repentinamente começou a cair e ocultou o monte Chokai. Disse para mim mesmo que, se apaisagem com chuva era formosa, sê-lo-ia também sem ela. Com esta ideia pernoitámos na cabana de um pescador, esperando que a chuva cessasse.
No dia seguinte, pela manhã, o céu estava limpo.
(Matsuo Bashô; O Caminho Estreito para o Longínquo Norte - Versão de Jorge de Sousa Braga - Fenda)
17.10.08
Conversitas
- Está-se sempre inteiro nos sítios para onde os humores nos levam.
- A janela aberta diz-nos como está o tempo.
- O sol engole o escuro e tira os cheiros a mofo.
- Está-se sempre todo nos sítios dos amores.
- O tempo julga que a janela é cega.
- Só o sol faz o dia e perfuma os vestidos e os corpos.
- Quem vai calar-se primeiro?
- Pois é! Quem?
- Os corpos já estão perfumados?
6.10.08

Deixei cair uma lágrima na alfazema.
Até onde irá o cheiro roxo grená?
O quintal todo tem ar novo. É da água nas flores, e
ai Deus, que caminho vai levar?
Hei-de querer a força da água, que corre da chuva, e volta à terra.
Ai Deus, e que venha cedo,
e outra lágrima cairá na alfazema, e no alecrim, e na romã,
e o tempo novo,
ai Deus, venha cedo!
3.10.08
O Sentido da Simplicidade
Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.
A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.
Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra,
(Yannis Ritsos - Trad. de Eugénio de Andrade: Trocar de Rosa)
2.10.08
FIDELIDADE

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
(Jorge de Sena)
22.9.08
19.9.08
Das cores
Das cores e da luz já sabes
e das plantas - crescem
amorrinham
como Deus quer.
Setenta vezes sete são as amoras
e as promessas do diospiro.
Ponho na mesa o vinho da refeição,
calculada cada coisa pelo tamanho da alegria.
As amoras estão vermelhas e as framboesas.
E o mirtilo parece garoto negro a sorrir.
A romã vai ter sorrisos vermelhos,
fogo doido, sol perdido.
E
vamos ficar lambuzados
mãos caras olhos narizes
bocas.
Como Deus quer e nós também.
14.9.08
O Riso de Deus
Imaginei um Deus com um enorme sorriso - aquele sorriso da Rita ampliado à dimensão do tempo da história, desde o homem das cavernas até ao dia em que realizasse o tal projecto pressentido. Disse-lhe:
- Rita: eu acho que Deus tem assim um sorriso como o teu quando nos vê amargurados...
- E eu acho que ele se ri mas é daqueles que andam por aí, muito contentes e convencidos, a fazerem o mundo como está...
Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:
- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé...
(António Alçada Baptista; O Riso de Deus)
13.9.08
Cartas da tarde
Há cartas que são ridículas, mas gosto de cartas e não me interessa se são ridículas.
Sinto-as e depois é como estivesse a ditá-las.
Demoro porque as palavras levam muito tempo a chegar. E também, quando as leio, quero gostar das palavras tanto como mais alguém vai gostar.
Sinto-as.
Às vezes, não são bem as esperadas. São como aquelas linhas da criança a quem se pede "Desenhe uma flor".
1.9.08
"das coisas verdejantes" (Com Elytis)
"Hei-de fazer-me monge * das coisas verdejantes",
criança que ri depois de lhe soprarem no dedo magoado.
"Humilde servirei * a ordem dos pássaros",
no voo e poiso por o espírito ainda não saber ser puro.
"Pela noite virei * às matinas dos figos",
flores-fruto, água-brilho,
frescura de noites duras, pão d'algumas manhãs.
Hei-de ser,
"Molhado de orvalho",
bolinha de sabão no alguidar da roupa branca
onde se conhece e ganha
a inocência,
"O ciano * o vermelho o roxo"
perdidos no fogo das
"meninas sem mancha".
Ele, o fogo, mais poderoso.
Eu, pouco robusto, a querer as cores das
"coisas verdejantes",
vestimenta simples dos pássaros
louvada seja.
9.8.08
É lindo o entardecer
-que passo o dia a preparar a calma do entardecer
-que saio do caminho para não perturbar as formigas; que trabalham e não sabem para quê
-que me escondo para que os pardais façam arraial na comida que lhes dou.
Quando me fizerem as perguntas do fim, hei-de ter desculpa
-que, logo de manhã, espreito o sol e o bendigo e a tudo que vai ter luz
-que tiro o chapéu diante das alminhas da aldeia pintadas na pedra e com flores de plástico à frente
-que olho para o lado para que os namorados sigam o seu caminho e verdade
-que namoro com a verdade toda inteira.
Quando me fecharem os olhos, hei-de ter desculpa
-falei de alto aos abusadores
-bati nos vendilhões dos templos
-nunca me pus de joelhos
-não me ponho de cócoras, cuspo nos hipócritas e outros exploradores.
-A água das fontes é o meu espelho, "mesmo se é noite".
E se, naquela altura, não tiver desculpa, hei-de dizer:
-vossemecê não presta; tem a ruindade da serpe que, em tempos, pôs no tal Éden.
Está a parecer-me que vou ser respondido assim:
anda cá, rapazinho
há muito tempo que ninguém me fala assim.
Vais-me desculpar.
E eu vou dizer:
já sabia!
e é lindo o entardecer, não é?




