15.10.09

Criação

Sôbolos rios que vão

Quando não havia quase nada na terra e muito nevoeiro no céu, Deus viu que tinha tristeza nos olhos e
disse:
haja mais luz,
e as flores nasceram e as cores .

Que lindo,
disse Deus,
e recolheu-se nos aposentos.

No dia seguinte, abertas as janelas, Deus pensou na maneira como as flores deviam espalhar as sementes,
e disse:
cada flor tenha uma pétala borboleta,
e os jardins encheram-se de crianças.

Vou ficar aqui,
disse Deus,
e pôs escritos nos vidros.

As crianças não deram conta de nada.
Andaram aos saltos em terra mole e loira como papinhas de aveia, nuns sítios,
e mais morena nos de alguma sombra.

Tinham salpicos nas pernas e sardas nas bochechas.
Os cabelos iam arranjando as cores da luz.

Mas os pés de Deus abriam crateras e iam arrastados, a sujar as cores do chão.

Parou para descansar, pensou e disse:
que a água vá por caminhos seus
e deixe bocados de terra firme.

Apareceram rios grandes, ribeiros e arroios,
margens seguras por salgueiros, meruges e outras ervas.

E Deus meditou muito.

Passava uma aragem fina, de som de harpas e liras.
Deus pensou muito, nas árvores e naquela espécie de música.
Ficou triste outra vez,
e tirou os escritos das vidraças.

10.10.09

Parábola da casa

1
A espaços, fico zangado.
Gato sem casa,
bufo a quem passa.
Se alguém olha,
deixo que passe
e penso baixinho:
vai ali a minha casa.
Mas este hábito,
o de dizer não.

2
Há três crianças a brincar e um gato enrolado, um olho aberto,
outro fechado.
Os meninos não se olham, mas brincam como é dado.
Ao gato sabe bem como se estivesse em casa.

26.8.09

A Montanha Mágica

Na idade de entender a Condessa de Ségur e o Cavaleiro Andante, pus-me a ler a Montanha Mágica. Do que li lembro-me…era nas tardes de quinta-feira e nalguns domingos, junto duma presa de águas muito frias que lia.

Havia um Castorp e a demora de sete anos numa montanha, como os de Laban…Só disto, do livro.


Do resto – tempo, pardalada, passeios nas nuvens, as angústias do coração a crescer sem perceber, está cá tudo, quase tudo, para além da vaidade do dizer adolescente ando a ler A Montanha Mágica de Thomas Mann. Dito assim, com estas palavras…


É por isso que hoje vou começar a ler A Montanha. O coração já está acomodado…


Vou demorar mais que sete dias e mesmo que sete semanas.

“Sete anos é que decerto – Deus nos valha! – não serão precisos!” – Nota-se que já comecei…


Quando regressar aqui, as pessoas amigas que visitam a Romãzeira ficam a saber que acabei de ler A Montanha Mágica de Thomas Mann!


Assim vai ser e vai ser bom!



22.8.09

Os pequenos objectos

Os pequenos pormenores da casa:
o fio abandonado no tapete,
o fósforo no chão,
a cinza,
que no ladrilho põe sua frágil contextura,
a unha recortada do menino
ao lado do sapato,
dão prazer aos olhos que, alheados,
coleccionam imagens de objectos inúteis.

Ama-se mais a mãe por esse fio,
e recorda-se o pai
pelo fósforo e a cinza
e o menino pela unha e o sapato.

Os pequenos objectos que se varrem,
que já ninguém apanha,
sumamente importantes, recordam-nos
os pequenos desgostos quotidianos
e os pobres prazeres, tão pequenos.

(Ángel Crespo - Em: A Realidade Inteira, Poemas escolhidos (1949-1990)
- Selecção e tradução de José Bento - Teorema)

15.8.09

Conversitas

- Tens riso de glicínia logo de manhã. Glicínia e orvalho.
- És um vidoeiro.
- Vamos fazer de conta: trazias as flores para os meus ramos.
- E éramos a mesma coisa.
- Criança e água,
éramos do mesmo cheiro.

31.7.09

Parábola da espera

1.
O velho vai todos os dias à meia encosta da colina e deixa que o coração repouse.

Sabe que precisa da força para mais alguns passos:
quem espera há-de chegar com o esforço de quem sobe
ou a ligeireza de quem desce,

e ele precisa da distância para olhar
e poder dizer
olha como sabe bem sabermos caminhar um para o outro.

2.
A espera é um menino a respirar.

29.7.09


Os pés descalços
pedem os olhos no chão

e estou descalço
és o chão

20.7.09

Parábola do Pensador

Amor, nos brilhantes
espelhos dos teus olhos,
no escuro, voltei a
vê-lo: vi ali
o grande e anguloso
pássaro que da tua alegria se sustenta,
tal como nas montanhas se sustenta
da mágoa o pensador.

(Robert Bringhurst - A Beleza das Armas - Tradução de Júlio Henriques;
Ed. bilingue, Antígona, Lisboa, 1994)

16.7.09


Não penses a casa arrumada.
Lembra-te de como ficou quando saíste.
Lençóis engelhados
uma peça de roupa aqui
outra ali.
Sabes quais são.
O sítio, olha,
não te esforces,
foram sempre muitos,

mas
a mesa está posta.
A toalha branca,
talheres do costume
e nos sítios que sabes.

A árvore está ali
e guarda o nome que lhe demos,
o último.

Pensa nisto.
Arrumamos desarrumamos a casa
nascemos outra vez
e acrescentamos um bocadinho o verão.

13.7.09



Gostei disto. Da devoção e dos seus dizeres.
O aloquete não me pareceu ser coisa genuína e de quem tem fé.
As flores são de plástico, mas paciência. Tanta como a que pedem os caminhos da Serra entre Videmonte e a Senhora de Assedasse.
Hei-de voltar e levo-Lhe o cacho de uvas mais doces. Já estão a crescer no quintal e são para aquela Senhora: ninguém lhes vai tocar. Só Ela.



1.7.09

Bilhete aos filhos com as palavras de adormecer



A pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos

a andorinha bicou-a

sei um ninho
e é azul


Há palavras também azuis
doidas como os sonhos.
Sorriem-nos à noite
e dormem connosco
sonhos sábios

Ao primeiro sol,
vão indo, vão indo,
olhando de lado
a dizer o caminho do mar.

Os olhos do mar são azuis.
Como eram os vossos sonhos.


28.6.09

Cartas da tarde


Vens à casa todos os dias
ficamos a ver o pinhal
até o ar ficar mais doce?

Jura!

27.6.09


Vi-te a colher framboesas,
ai, Deus!

E era quase noitinha,
ai, Santa Maria!

Ai, Deus, os frutos vermelhos!
Santa Maria me valha!

15.6.09


Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
(Daniel Faria)


No princípio não era o Verbo.

Era assim:
o sol começou a nascer
e trazia-te pela mão
sol pequenino
e foste a primeira palavra,
a que espero o dia todo.
Não guardei a manhã.

Quando chegar,
hei-de imolar o melhor cabrito.

8.6.09


Porto, 4 Fevereiro 1993

A ausência dos meus amigos é, de todos os
desesperos, aquele que mais me aflige.
É como a erva calcada dos campos:
uma ameaça contra a respiração.

(Daniel Faria - O Livro do Joaquim - Edição e Prefácio de Francisco Saraiva Pinto - quasi)

Nota: Daniel Faria morreu no dia 9 de Junho de 1999

2.6.09

(Fotografia de Fernanda - http://matebarco.multiply.com/)

O monge que conheci tinha:
uma horta
uma tigela
um livro de versos

e uma flor.

Um dia, tiraram-lhe a flor:
a horta secou-se
e a tigela ficou bebedoiro de pardais.

O monge está no céu:
agora
põe um verso nalgumas manhãs

flor nossa de cada dia.

25.5.09

Corremos na areia
e ficas sempre para trás!

Outro modo de te ver
alga água e
lume

22.5.09

Em lembrança

Alguns permaneceram – e permanecem – católicos. Quase todos deixaram de o ser. Alguns tiveram ainda posições de relevo, como leigos, na Igreja Católica. Quase todos ficaram nas margens d'Ela. “Na expectativa” (en úpomoné, palavra grega donde o termo vem) como um dia disse estar Simone Weil, cujo luminoso ascetismo também tanto nos marcou? Não posso falar por outros. Falo apenas por mim. Agora que tanto narrei, revejo aquele de nós que mais cedo caiu – Cristovam Pavia, que se atirou para debaixo de um comboio em 1968, aos 33 anos – e releio um poema dele. Acabo como comecei com versos. E são estes:

Voltarei à penumbra fresca da igreja
Ancestral, silenciosíssima e vazia,
Aonde está pousado o teu altar:
Doce mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
Que a minha oração nada mais seja!
Basta descansar.

Apetece-me pensar que um dia será assim.

(João Bénard da Costa; Nós, os vencidos do catolicismo – Edições Tenacitas – É assim que se acaba o livro - O poema tem o título A Nossa Senhora e é do livro 35 Poemas)

9.5.09

Sol de Maio
cerejas no teu peito

Vem daí

2.5.09

Estou sentado à tua porta
dou-te os bons dias todas as tardes

Vais ficar de guarda à casa
e diremos bom dia um ao outro

Nunca digas
nesta casa não entrarei

Sentas-te à minha porta
e o quintal é cor do céu

À minha porta não há lama
ficaste lá e o teu cheiro
tu és a minha Sulamita

às vezes dói o pôr do sol.