É desnecessário saíres de casa
para ver flores Dentro de ti há
flores e em cada flor
milhares de lugares onde te
sentares clarões de beleza
sem fim dentro e fora do teu
corpo antes e depois do jardim
Kabir, O Nome Daquele Que Não Tem Nome
- versões de Jorge Sousa Braga; Assírio & Alvim, 2016.
7.10.16
24.9.16
20.9.16
Deixei-me achar por
quem não me buscou
(Livro do Profeta Isaías, 65, 1)
As coisas que o caminhante
vai ouvindo
na colina a mirar-se no
regato
nos muros musgosos de quando
era pequeno
do sossego da aldeia cheia de
murmúrios
o silêncio seu companheiro
muito tempo
afinou-lhe o ouvido e o olhar
a mãe que o gerou era quem o
iluminara
e era o silêncio que o tinha
conduzido
o que sabe o princípio e o
fim das pessoas
e distingue as cores e os
sentidos
as coisas que foi ouvindo nas
viagens
os murmúrios da sua aldeia
pacificam-lhe as entranhas.
Mas ainda não sabe onde
passar a noite.
29.8.16
Deixei-me achar por quem não me buscou
(Livro do Profeta Isaías, 65, 1)
A luz é um silêncio subtil
a caminhar com as pessoas, e
a ouvir.
As coisas às vezes são
labirinto
desafiam-nos a atenção
e puxam-nos para dentro
delas.
O silêncio é um tabernáculo
casa luz do viajante.
Ninguém viaja sozinho
o silêncio também é companhia
e todos têm a sua luz.
As árvores têm flores
e a luz, ao passar, é uma
espécie de lira.
A criança no colo da mãe
sorri tranquila e em silêncio
na paz atenta de quem a olha.
Quem nos ouve não se anuncia.
17.7.16
16.7.16
Abraão e Isaac
(Génesis, 21 e 22)
(Génesis, 21 e 22)
1
Abraão toma seu
filho Isaac e vai encontrar-se consigo mesmo, como Deus falou na sua maneira
pouco clara de se manifestar.
Levam nas entranhas, o pai, a negrura de não entender as palavras todas;
o filho, o silêncio confiante no pai que o chamou.
Chegar a Moriá dura três dias, tempo bastante para o silêncio que desvela o invisível.
Levam nas entranhas, o pai, a negrura de não entender as palavras todas;
o filho, o silêncio confiante no pai que o chamou.
Chegar a Moriá dura três dias, tempo bastante para o silêncio que desvela o invisível.
2
Vai no peito de cada um
- Meu pai!
- Eis-me aqui, filho.
- Eis o fogo e a lenha. Onde o cordeiro do holocausto?
Seguem os dois unidos.
Três dias é medida da eternidade. Deus proverá.
3
O pai sabe o que lhe foi dito; o filho segue junto do pai;
seguem no mesmo coração.
4
A tamareira em Bersabé, pomar de frutos abundantes,
a terra de Bersabé explica os silêncios e retém o tempo.
O pai a quem foi dito: toma teu filho, aquele que tu amas
quere-o interminável.
O filho que ouvira do pai aos servos: depois voltaremos para junto de vós
sabe que aquilo que leva não é a lenha do seu sacrifício.
Depois voltaremos para junto de vós
embalava-lhes o coração, silêncio música suave.
Seguem os dois unidos.
5
Na terra de há três dias o pai tinha invocado o Deus de eternidade, e Sarai,
Sara princesa que todos queriam olhar guardava no coração os sorrisos, os seus e os de Isaac seu filho, como dissera:
Deus sorriu-me, as minhas entranhas foram riso de Deus.
E Abraão a todos clamara:
este filho rirá e já nos dá alegria. Isaac é o seu nome.
O filho segue unido ao pai. O pai sabe o que lhe foi dito.
De palavras e silêncio são os seus passos. E o respirar.
Colmeal da Torre, 15 de Julho, 2016
1.1.16
Eu não amo aquele que não dorme, diz Deus.
O sono é amigo do homem.
O sono é amigo de Deus.
O sono é talvez a mais bela das minhas criações.
Eu próprio descansei ao sétimo dia.
O que tem o coração puro, dorme. O que dorme, tem o coração puro.
É o grande segredo de ser-se infatigável como uma criança.
De ter como
uma criança força nas pernas.
Pernas novas, almas novas
E de recomeçar todas as manhãs, sempre novo,
Como a jovem, como a nova
Esperança.
Charles Péguy; Os Portais do Mistério da Segunda Virtude;
Tradução de Armando Silva Carvalho - Paulinas Editora
31.12.15
27.12.15
Bilhete-postal atoleimado e fora de estação
Andamos bem. Os skates esparramam-se nos half pipe.
Levamos as cores dos Leggings tribal e os desenhos.
Andamos que ninguém nos vê. Só nos olham.
Também não vemos ninguém. Não é preciso.
Devias ver as minhas sobrancelhas. Tapam-me os olhos.
Quando as conversas não interessam, abano-as como castanholas de som seco.
Aqui é tudo intrépido. Rapidinho. Não nos comprometemos. Nem com o vento.
Conhecemos os gestos necessários. Os que aproximam e os outros quando apetece e por pouco tempo.
Andamos a voar, sempre a voar
t-shirt cinza, Lightning Bolt, ténis que prolongam a nossa delgadez,
nuvens finas nos levam e estamos a gostar.
25.12.15
24.12.15
15.12.15
ONDE VAIS ?
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim
15.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
III
À colina ao lado da aldeia, para nascente, chamam-lhe o Sítio da Coitadinha.
No tempo da guerra, alguns rapazes e raparigas, acabado o trabalho nas hortas nos dias grandes, iam para lá ao minério que medrava como os rosmanos e as giestas e era só chegar, colher e lavar. As mães ficavam em casa a preparar a ceia e os pais conversavam nas tabernas.
Para onde iria ser levado o minério era coisa só sabida por uns cavalheiros que apareciam de vez em quando; levavam os sacos da colheita e deixavam dinheiro que se via, que para gente de pouco esperar o pouco costuma ser cabonde.
Escolhiam, aos pares, rapaz e rapariga, lugares afastados uns dos outros. Quando cada um ia pela barroca onde corria água, o minério era limpo da terra e lavavam-se também os suores. Às vezes, os corpos misturavam-se e a tarde era céu aberto até ao toque das Avé-Marias.
Há um casal com cerca de oitenta que vai à Coitadinha nalgumas tardes soalheiras e os filhos não percebem por que razão os pais entram em casa com sorrisos marotos.
* Histórias para uma Noite de Calmaria; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre, 15/Nov/2015
12.11.15
Com bênção de Tonino Guerra *
II
O segundo claustro do mosteiro estava incompleto e os anciãos já não iam para lá conversar entre a ceia e o grande silêncio.
Quem ia de visita admirava a sineta do claustro perfeito, voz de Deus a acordar os monges para rezarem as laudes e perdia o olhar por entre as portas do Capítulo e o claustro inacabado, ganhando afeição àquele espaço sem portas onde podia entrar o mundo todo. Por isso, o claustro era perfeito.
Como quem busca hospedagem nos primeiros frios do Outono, uma magnólia branca entrou e deu flor no claustro abandonado e, agora, ouvem-se poemas assim:
"Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
"...Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
"Se acender a luz
Não morrerei sozinho" (2)
Não morrerei sozinho" (2)
O poeta Daniel Faria não chegou a ser ancião. Foi repousar, como quem reza:
"E agora sei que oiço as coisas devagar". (3)
A magnólia anda triste, disse-me um monge numa tarde deste Outono.
1) Dos Líquidos; 2) Explicação das Árvores e de Outros Animais; 3) O Livro do Joaquim
* O Livro das Igrejas abandonadas
Colmeal da Torre, 12/Nov/2015
8.11.15
4.11.15
Com bênção de Tonino Guerra*
I
Ao Convento da Serra
da Esperança chegavam alguns dos frades de São Francisco para expiarem pecados
e atropelos, informava o guia do turismo.
Casa pequena, acima da
meia encosta, tem vista para o vale do Zêzere. O visitante que não levava
máquina fotográfica falou:
- Se do rio formos
erguendo os olhos, chega-se à Estrela passeada por aquelas nuvens e por golpes
de sol; e, repare, senhor guia, recolhendo-se a atenção ao vale, a gente fica a
pensar em como seria bom para os frades fazerem pecados.
O guia não respondeu,
o roteiro era omisso.
*O Livro das
Igrejas Abandonadas; Assírio & Alvim
Colmeal da Torre,
2/Nov/15
1.11.15
24.3.15
Nascemos para o sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
O Bebedor Nocturno poemas mudados para português por Herberto Helder - Assírio & Alvim
(Poesia mexicana do ciclo Nauatle)
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