15.10.09

Criação

Sôbolos rios que vão

Quando não havia quase nada na terra e muito nevoeiro no céu, Deus viu que tinha tristeza nos olhos e
disse:
haja mais luz,
e as flores nasceram e as cores .

Que lindo,
disse Deus,
e recolheu-se nos aposentos.

No dia seguinte, abertas as janelas, Deus pensou na maneira como as flores deviam espalhar as sementes,
e disse:
cada flor tenha uma pétala borboleta,
e os jardins encheram-se de crianças.

Vou ficar aqui,
disse Deus,
e pôs escritos nos vidros.

As crianças não deram conta de nada.
Andaram aos saltos em terra mole e loira como papinhas de aveia, nuns sítios,
e mais morena nos de alguma sombra.

Tinham salpicos nas pernas e sardas nas bochechas.
Os cabelos iam arranjando as cores da luz.

Mas os pés de Deus abriam crateras e iam arrastados, a sujar as cores do chão.

Parou para descansar, pensou e disse:
que a água vá por caminhos seus
e deixe bocados de terra firme.

Apareceram rios grandes, ribeiros e arroios,
margens seguras por salgueiros, meruges e outras ervas.

E Deus meditou muito.

Passava uma aragem fina, de som de harpas e liras.
Deus pensou muito, nas árvores e naquela espécie de música.
Ficou triste outra vez,
e tirou os escritos das vidraças.

10.10.09

Parábola da casa

1
A espaços, fico zangado.
Gato sem casa,
bufo a quem passa.
Se alguém olha,
deixo que passe
e penso baixinho:
vai ali a minha casa.
Mas este hábito,
o de dizer não.

2
Há três crianças a brincar e um gato enrolado, um olho aberto,
outro fechado.
Os meninos não se olham, mas brincam como é dado.
Ao gato sabe bem como se estivesse em casa.

26.8.09

A Montanha Mágica

Na idade de entender a Condessa de Ségur e o Cavaleiro Andante, pus-me a ler a Montanha Mágica. Do que li lembro-me…era nas tardes de quinta-feira e nalguns domingos, junto duma presa de águas muito frias que lia.

Havia um Castorp e a demora de sete anos numa montanha, como os de Laban…Só disto, do livro.


Do resto – tempo, pardalada, passeios nas nuvens, as angústias do coração a crescer sem perceber, está cá tudo, quase tudo, para além da vaidade do dizer adolescente ando a ler A Montanha Mágica de Thomas Mann. Dito assim, com estas palavras…


É por isso que hoje vou começar a ler A Montanha. O coração já está acomodado…


Vou demorar mais que sete dias e mesmo que sete semanas.

“Sete anos é que decerto – Deus nos valha! – não serão precisos!” – Nota-se que já comecei…


Quando regressar aqui, as pessoas amigas que visitam a Romãzeira ficam a saber que acabei de ler A Montanha Mágica de Thomas Mann!


Assim vai ser e vai ser bom!



22.8.09

Os pequenos objectos

Os pequenos pormenores da casa:
o fio abandonado no tapete,
o fósforo no chão,
a cinza,
que no ladrilho põe sua frágil contextura,
a unha recortada do menino
ao lado do sapato,
dão prazer aos olhos que, alheados,
coleccionam imagens de objectos inúteis.

Ama-se mais a mãe por esse fio,
e recorda-se o pai
pelo fósforo e a cinza
e o menino pela unha e o sapato.

Os pequenos objectos que se varrem,
que já ninguém apanha,
sumamente importantes, recordam-nos
os pequenos desgostos quotidianos
e os pobres prazeres, tão pequenos.

(Ángel Crespo - Em: A Realidade Inteira, Poemas escolhidos (1949-1990)
- Selecção e tradução de José Bento - Teorema)

15.8.09

Conversitas

- Tens riso de glicínia logo de manhã. Glicínia e orvalho.
- És um vidoeiro.
- Vamos fazer de conta: trazias as flores para os meus ramos.
- E éramos a mesma coisa.
- Criança e água,
éramos do mesmo cheiro.

31.7.09

Parábola da espera

1.
O velho vai todos os dias à meia encosta da colina e deixa que o coração repouse.

Sabe que precisa da força para mais alguns passos:
quem espera há-de chegar com o esforço de quem sobe
ou a ligeireza de quem desce,

e ele precisa da distância para olhar
e poder dizer
olha como sabe bem sabermos caminhar um para o outro.

2.
A espera é um menino a respirar.

29.7.09


Os pés descalços
pedem os olhos no chão

e estou descalço
és o chão

20.7.09

Parábola do Pensador

Amor, nos brilhantes
espelhos dos teus olhos,
no escuro, voltei a
vê-lo: vi ali
o grande e anguloso
pássaro que da tua alegria se sustenta,
tal como nas montanhas se sustenta
da mágoa o pensador.

(Robert Bringhurst - A Beleza das Armas - Tradução de Júlio Henriques;
Ed. bilingue, Antígona, Lisboa, 1994)

16.7.09


Não penses a casa arrumada.
Lembra-te de como ficou quando saíste.
Lençóis engelhados
uma peça de roupa aqui
outra ali.
Sabes quais são.
O sítio, olha,
não te esforces,
foram sempre muitos,

mas
a mesa está posta.
A toalha branca,
talheres do costume
e nos sítios que sabes.

A árvore está ali
e guarda o nome que lhe demos,
o último.

Pensa nisto.
Arrumamos desarrumamos a casa
nascemos outra vez
e acrescentamos um bocadinho o verão.

13.7.09



Gostei disto. Da devoção e dos seus dizeres.
O aloquete não me pareceu ser coisa genuína e de quem tem fé.
As flores são de plástico, mas paciência. Tanta como a que pedem os caminhos da Serra entre Videmonte e a Senhora de Assedasse.
Hei-de voltar e levo-Lhe o cacho de uvas mais doces. Já estão a crescer no quintal e são para aquela Senhora: ninguém lhes vai tocar. Só Ela.



1.7.09

Bilhete aos filhos com as palavras de adormecer



A pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos

a andorinha bicou-a

sei um ninho
e é azul


Há palavras também azuis
doidas como os sonhos.
Sorriem-nos à noite
e dormem connosco
sonhos sábios

Ao primeiro sol,
vão indo, vão indo,
olhando de lado
a dizer o caminho do mar.

Os olhos do mar são azuis.
Como eram os vossos sonhos.


28.6.09

Cartas da tarde


Vens à casa todos os dias
ficamos a ver o pinhal
até o ar ficar mais doce?

Jura!

27.6.09


Vi-te a colher framboesas,
ai, Deus!

E era quase noitinha,
ai, Santa Maria!

Ai, Deus, os frutos vermelhos!
Santa Maria me valha!

15.6.09


Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
(Daniel Faria)


No princípio não era o Verbo.

Era assim:
o sol começou a nascer
e trazia-te pela mão
sol pequenino
e foste a primeira palavra,
a que espero o dia todo.
Não guardei a manhã.

Quando chegar,
hei-de imolar o melhor cabrito.

8.6.09


Porto, 4 Fevereiro 1993

A ausência dos meus amigos é, de todos os
desesperos, aquele que mais me aflige.
É como a erva calcada dos campos:
uma ameaça contra a respiração.

(Daniel Faria - O Livro do Joaquim - Edição e Prefácio de Francisco Saraiva Pinto - quasi)

Nota: Daniel Faria morreu no dia 9 de Junho de 1999

2.6.09

(Fotografia de Fernanda - http://matebarco.multiply.com/)

O monge que conheci tinha:
uma horta
uma tigela
um livro de versos

e uma flor.

Um dia, tiraram-lhe a flor:
a horta secou-se
e a tigela ficou bebedoiro de pardais.

O monge está no céu:
agora
põe um verso nalgumas manhãs

flor nossa de cada dia.

25.5.09

Corremos na areia
e ficas sempre para trás!

Outro modo de te ver
alga água e
lume

22.5.09

Em lembrança

Alguns permaneceram – e permanecem – católicos. Quase todos deixaram de o ser. Alguns tiveram ainda posições de relevo, como leigos, na Igreja Católica. Quase todos ficaram nas margens d'Ela. “Na expectativa” (en úpomoné, palavra grega donde o termo vem) como um dia disse estar Simone Weil, cujo luminoso ascetismo também tanto nos marcou? Não posso falar por outros. Falo apenas por mim. Agora que tanto narrei, revejo aquele de nós que mais cedo caiu – Cristovam Pavia, que se atirou para debaixo de um comboio em 1968, aos 33 anos – e releio um poema dele. Acabo como comecei com versos. E são estes:

Voltarei à penumbra fresca da igreja
Ancestral, silenciosíssima e vazia,
Aonde está pousado o teu altar:
Doce mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
Que a minha oração nada mais seja!
Basta descansar.

Apetece-me pensar que um dia será assim.

(João Bénard da Costa; Nós, os vencidos do catolicismo – Edições Tenacitas – É assim que se acaba o livro - O poema tem o título A Nossa Senhora e é do livro 35 Poemas)

9.5.09

Sol de Maio
cerejas no teu peito

Vem daí

2.5.09

Estou sentado à tua porta
dou-te os bons dias todas as tardes

Vais ficar de guarda à casa
e diremos bom dia um ao outro

Nunca digas
nesta casa não entrarei

Sentas-te à minha porta
e o quintal é cor do céu

À minha porta não há lama
ficaste lá e o teu cheiro
tu és a minha Sulamita

às vezes dói o pôr do sol.


26.4.09

Bilhete

(Foto de Marco Pedrosa)

Grande se vê o mundo do alto do monte.
Não quero o tamanho do que vejo
quero-o da minha medida.
Vou para casa.
Dormir.

Quando chegares, a porta está aberta.
Podes entrar.

12.4.09

Abro os olhos
a água traz desenhos que desenhámos,
pele lisa ainda
- julgava-os delidos

O mar guardou-os
está a pôr as pétalas no pé donde,
bem-me-quer-mal-me-quer,
em anos verdes,
as fomos soprando em desenhos de abandono

Se fosse de pôr flores no cabelo,
amantes,

íamos recolhê-las
bem me quer,
- e éramos luz,

lágrimas orvalho brilho nos olhos
- e tu no agasalho das minhas pálpebras



10.4.09

Pietà


(Pintura de João Alexandre - a partir da Pietà da Igreja de São Tiago, Belmonte)

Assim, Jesus, venho encontrar estes teus pés,
que outrora foram pés de adolescente,
quando eu tos descalçava e os lavava a medo;
como se emaranhavam em meu cabelo
como corça branca em moita de espinheiros.

Assim eu vejo teus membros nunca-amados
pela primeira vez nesta noite de amor.
Nós ambos nunca nos deitámos juntos,
e agora é só admirar e velar.

Mas como as tuas mãos estão laceradas - :
E não é, Amado, de eu tas ter mordido.
Teu coração está aberto, e pode-se entrar nele:
e devia ter sido só minha a entrada.

Agora estás cansado, e a tua boca cansada
não deseja a minha boca dorida - .
Jesus, Jesus, quando foi a nossa hora?
Que singularmente nos perdemos ambos!

(Rainer Maria Rilke: Poemas - As Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu. Selecção e tradução de Paulo Quintela -ASA)

9.4.09

Uma amizade é manchada assim que a necessidade leva a melhor, mesmo que por um instante, sobre o desejo de conservar, num e noutro, a faculdade de livre consentimento.
(...)
A amizade é o milagre pelo qual um ser humano aceita olhar à distância, e sem se aproximar, o próprio ser que lhe é necessário como um alimento. É a força de espírito que Eva não teve; e, contudo, ela não tinha necessidade do fruto. Se ela tivesse tido fome no momento em que olhava o fruto, e se, apesar disso, tivesse permanecido indefinidamente a olhá-lo, sem dar um passo na sua direcção, teria realizado um milagre análogo ao da perfeita amizade.

(Simone Weil - Espera de Deus ; trad. de Manuel Maria Barreiros - Assírio & Alvim)

1.4.09

Conversitas


- Mas estás linda!
- Há muito tempo que não me dizes isso...
- Quem te vê todos os dias di-lo com outros ritos.

- Foi bom teres-mo lembrado.


15.3.09



Saber que não se escreve para o outro, saber que isto que vou escrever não me fará nunca ser amado por quem amo, saber que a escrita nada compensa, nada sublima, que está precisamente aí onde tu não estás - é o começo da escrita.

(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso - trad. de Isabel Pascoal ; edições 70)

8.3.09


Olha.
Hoje de manhã vi um campo muito verde.
Tinha meruges juntinhas, assim ao meu lado esquerdo,
e as margaridas já erguiam o sol.

Escuta.
Vi um verdelhão. Tinha bocados do campo e do sol das flores.
E um melro. Vi-o por causa das cores.
E o sol estava no campo. Por causa da música.

Pensei assim:
o sol cresce dentro das coisas
para que a morte venha viçosa

iremos ao mesmo sítio
pelas cores e pela música

levamos a luz nossa sombra
e fazemos assobios de melro maroto

somos meninos
ainda não vale morrer.



28.2.09

(Foto de Pedro Pedro)

O rio que corre à frente da minha casa é alegre.
A gente da minha rua diz que o rio é alegre
E eu digo com eles "o rio é alegre".

Há quem murmure fórmulas.
Outros cumprem deveres bizarros.
Vencido, o mundo jaz aos seus pés.
Mas a gente da minha rua não vê as coisas assim.
Olha, diz, o rio é alegre,
E eu, é verdade, digo com eles "o rio é alegre".

Quão lento, quão lento é o tempo!
Coisa que não pára de me causar espanto.
Entretanto, o rio corre,
O rio corre, sem perguntas
E sem as grandes ideias da rua.

Nem recordação nem ilusão provocam qualquer mudança no correr do rio.
E, ora, se uma vez ou outra por ventura não correr assim,
Que lhe seja perdoado.

(Arjen Duinker, A canção sublime de um talvez; Selecção e tradução de Arie Pos - teorema)

26.2.09

bilhete

Ri chora o que corpo e alma pedem.

Se alguém te sorrir,
senta-te criança contente e
dorme.

20.2.09

Sombras escurecem o sol
o girassol chora...
Violetas perfumadas...

Cheiras às violetas ao saíres das algas.

12.2.09

É porque a beleza não contém qualquer fim que ela constitui a única finalidade neste mundo. Porque neste mundo não há, de todo, quaisquer fins. Todas essas coisas que tomamos como fins são meios.
(…)
Só a beleza não é um meio para outra coisa. Só ela é boa em si mesma, mas sem que nela encontremos qualquer bem. Parece ser ela mesma uma promessa e não um bem. Mas nada oferece senão ela própria, não oferece nunca outra coisa.

(Simone Weil – Espera de Deus- Trad. de Manuel Maria Barreiros. Assírio e Alvim)

6.2.09

A morte é uma flor que só abre uma vez.
(…)
Abre sempre que quer, e fora de estação.

(Paul Celan; trad.: João Barrento)



Morrer em casa com a mesma calma com que partíamos o pão e o púnhamos na mesa.
Os filhos à volta e o cheirinho bom de quando lhes dávamos banho e nos sentávamos à ceia.
Boas lembranças para deixar e irmos adormecendo.
E os dois ou três amigos, que gostam de nós, a dizerem-nos até já,
para que a morte não venha fora de estação.

16.1.09

Procuro um livro que tenha as palavras que aprendi.
Preciso saber as que esqueci. E pegá-las como o mágico ao lencinho: dobra, esconde, mostra, e, dos dedos, o pano branco faz-se pássaro, papéis de brilho.

As palavras esquecidas imagino-as em carruagens paradas nos montes e foram as das minhas viagens.

Quero-as e aos desenhos que fizemos.

Vou encontrá-las e seremos pássaros brilhantes a voar para onde vai o vento.

Quero as palavras que esqueci.
Ainda hão-de estar nos seus lugares.

13.1.09

Valor das Palavras

Luz-Vieira da Silva

Há palavras que fazem bater mais depressa o coração - todas as palavras - umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lugar de onde se ouvem - do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.

Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.

As palavras querem estar nos seus lugares!

Almada Negreiros - Andaimes e Vésperas


1.1.09

Nas asas duma pneumonia



Ordem do médico:

- boa alimentação e muitos líquidos; corpo descansado em bom aconchego. Vamos ter cuidado, não venha por aqui uma pneumonia!


Foi assim que fiquei , recostado numa cadeira de baloiço calmo, a olhar o lume.

Senti-me bem e com uma dormência d’alma, perto de quem sonha.

E disse a quem me ajudou a envolver-me no capote do tempo muito frio:

- deve ser engraçado ir ao céu nas asas duma pneumonia! Chegar lá e ver São Pedro “anda cá, vais ver gente de que gostas” e eu a dizer “já vejo”e a perguntar por uma Irene, aquela ‘Irene no Céu’:

-‘Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.’,

lembrado de Manuel Bandeira, e a querer saber novas dele.


Fui adormecendo, como quem chega ao céu nas asas duma pneumonia, quentinho e sem tosse.



26.12.08

(Foto de Pedro Pedro)



Levantou-se a resmungar: há coisas que não interessam nem ao Menino Jesus.

À noite, foi à janela e gritou às nuvens que eram feias e que não interessavam nem ao Menino Jesus.

Deitou-se a resmungar e sabia que tinha sido dia de Natal.



14.12.08

Um Poema

(Foto de Marco Pedrosa)

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos.
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim.

Minhalma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muito lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Heine, Tradução de Manuel Bandeira


(Hoje fui ver o mar, que estava nervoso, irrequieto. Lembrei-me disto.)

10.12.08

Paul Sérusier

Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.

Na alegria, nós movemo-nos num elemento que está todo ele fora do tempo e do real, com presença perfeitamente real.
Incandescentes, atravessamos as paredes.

Cristina Campo: Os Imperdoáveis - Assírio & Alvim - Trad.: José Colaço Barreiros

4.12.08

TEMA E VARIAÇÕES

(Copiei este sono não sei donde)

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

Manuel Bandeira Opus 10

27.11.08

da noite e da Luz




*
de noite o tempo divide-se
metade da alma é borboleta
e o resto não sabe ser a flor

nas veredas
os olhos perdem a flor-nome
fica muito pobre


*
A aurora é espelho de água

as flores sábias lençóis do orvalho
do dormir e acordar claro.

Bendito seja o sorriso largo
jardim nítido das nossas casas
flores e frutos de nome cheio.

17.11.08

Os gritos da criança no barulho dos carrinhos de choque:
- quero a minha mãe!

Ninguém falou, mas, devagarinho, muito devagar, pegam-na ao colo.
O miúdo aconchega-se e a mãe leva-o para casa. Já dorme.

Ia cansada, mas dos dois a maneira das mãos era muito bonita.

15.11.08

Conversitas


- Há luz nas hortas e as abelhas ainda cantam na tília.
Apetece-me: vamos passear a alma!
- E que fazemos do corpo?
- Mas alguma vez ficou para trás?

- A tília é sol mel sereno ainda.
Vamos pelos campos fora?
- É isso! Vamos pelo mel...
- E pelo chão de marcela...
- Com bocas de brilho e doçura nos olhos...

27.10.08

Dedicatória

Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha

Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.

(Manuel Bandeira)



Quando tenho vontade de morrer
precisado de ir embora
fito os pássaros e as nuvens
sentado no sol dormente.

Duas pancadinhas nas costas
e mãos a abraçar-me os olhos

o sol fica novo

vamos raptar a luz
Ó maninha Ó maninha.

19.10.08


Ao pôr do sol começou a levantar-se um vento que fez amotinar as areias da praia; a chuva repentinamente começou a cair e ocultou o monte Chokai. Disse para mim mesmo que, se apaisagem com chuva era formosa, sê-lo-ia também sem ela. Com esta ideia pernoitámos na cabana de um pescador, esperando que a chuva cessasse.

No dia seguinte, pela manhã, o céu estava limpo.

(Matsuo Bashô; O Caminho Estreito para o Longínquo Norte - Versão de Jorge de Sousa Braga - Fenda)

17.10.08

Conversitas



- Está-se sempre inteiro nos sítios para onde os humores nos levam.
- A janela aberta diz-nos como está o tempo.
- O sol engole o escuro e tira os cheiros a mofo.

- Está-se sempre todo nos sítios dos amores.
- O tempo julga que a janela é cega.
- Só o sol faz o dia e perfuma os vestidos e os corpos.

- Quem vai calar-se primeiro?
- Pois é! Quem?
- Os corpos já estão perfumados?

6.10.08



Deixei cair uma lágrima na alfazema.
Até onde irá o cheiro roxo grená?

O quintal todo tem ar novo. É da água nas flores, e
ai Deus, que caminho vai levar?

Hei-de querer a força da água, que corre da chuva, e volta à terra.
Ai Deus, e que venha cedo,

e outra lágrima cairá na alfazema, e no alecrim, e na romã,
e o tempo novo,
ai Deus, venha cedo!

3.10.08

O Sentido da Simplicidade


Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra,

(Yannis Ritsos - Trad. de Eugénio de Andrade: Trocar de Rosa)

2.10.08

FIDELIDADE


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

(Jorge de Sena)

29.9.08

(Foto de Marco Pedrosa)


Pedintes de palavras singelas
usemo-las pão de cada dia.

Basta:
- é do fundo do coração que te quero.

E:
- telefona, quando chegares.

Ou:
- vamos molhar os pés na água dos sargaços.

Palavras que nos vestiam a inocência
cândidas transparentes .

Nunca sejam difíceis.

24.9.08

Foto roubada...

Rã, olhos de água no céu.
Na próxima lua
festa nos juncos...

22.9.08


Tu me chamas ainda a tua vida -
- E a vida é só o que se escapa e corre...
Antes me chames alma: é mais exacto,
Pois que, como a alma, o meu amor não morre.

Byron - Trad de Jorge de Sena (poesia de 26 séculos; ASA)

19.9.08

Das cores


Das cores e da luz já sabes
e das plantas - crescem
amorrinham
como Deus quer.

Setenta vezes sete são as amoras
e as promessas do diospiro.

Ponho na mesa o vinho da refeição,
calculada cada coisa pelo tamanho da alegria.

As amoras estão vermelhas e as framboesas.
E o mirtilo parece garoto negro a sorrir.

A romã vai ter sorrisos vermelhos,
fogo doido, sol perdido.

E
vamos ficar lambuzados
mãos caras olhos narizes
bocas.

Como Deus quer e nós também.

14.9.08

O Riso de Deus

(Capa da 16ª edição)

Imaginei um Deus com um enorme sorriso - aquele sorriso da Rita ampliado à dimensão do tempo da história, desde o homem das cavernas até ao dia em que realizasse o tal projecto pressentido. Disse-lhe:
- Rita: eu acho que Deus tem assim um sorriso como o teu quando nos vê amargurados...
- E eu acho que ele se ri mas é daqueles que andam por aí, muito contentes e convencidos, a fazerem o mundo como está...
Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:
- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé...

(António Alçada Baptista; O Riso de Deus)

13.9.08

Cartas da tarde



Há cartas que são ridículas, mas gosto de cartas e não me interessa se são ridículas.
Sinto-as e depois é como estivesse a ditá-las.
Demoro porque as palavras levam muito tempo a chegar. E também, quando as leio, quero gostar das palavras tanto como mais alguém vai gostar.
Sinto-as.
Às vezes, não são bem as esperadas. São como aquelas linhas da criança a quem se pede "Desenhe uma flor".

1.9.08

"das coisas verdejantes" (Com Elytis)

(foto da Ana Assunção - http://anaassuncao.multiply.com/)

"Hei-de fazer-me monge * das coisas verdejantes",
criança que ri depois de lhe soprarem no dedo magoado.

"Humilde servirei * a ordem dos pássaros",
no voo e poiso por o espírito ainda não saber ser puro.

"Pela noite virei * às matinas dos figos",
flores-fruto, água-brilho,
frescura de noites duras, pão d'algumas manhãs.

Hei-de ser,
"Molhado de orvalho",
bolinha de sabão no alguidar da roupa branca
onde se conhece e ganha
a inocência,

"O ciano * o vermelho o roxo"
perdidos no fogo das
"meninas sem mancha".

Ele, o fogo, mais poderoso.
Eu, pouco robusto, a querer as cores das
"coisas verdejantes",

vestimenta simples dos pássaros
louvada seja.

9.8.08

É lindo o entardecer

Hei-de ter desculpa quando chegar a hora
-que passo o dia a preparar a calma do entardecer
-que saio do caminho para não perturbar as formigas; que trabalham e não sabem para quê
-que me escondo para que os pardais façam arraial na comida que lhes dou.

Quando me fizerem as perguntas do fim, hei-de ter desculpa
-que, logo de manhã, espreito o sol e o bendigo e a tudo que vai ter luz
-que tiro o chapéu diante das alminhas da aldeia pintadas na pedra e com flores de plástico à frente
-que olho para o lado para que os namorados sigam o seu caminho e verdade
-que namoro com a verdade toda inteira.

Quando me fecharem os olhos, hei-de ter desculpa
-falei de alto aos abusadores
-bati nos vendilhões dos templos
-nunca me pus de joelhos
-não me ponho de cócoras, cuspo nos hipócritas e outros exploradores.

-A água das fontes é o meu espelho, "mesmo se é noite".

E se, naquela altura, não tiver desculpa, hei-de dizer:
-vossemecê não presta; tem a ruindade da serpe que, em tempos, pôs no tal Éden.

Está a parecer-me que vou ser respondido assim:
anda cá, rapazinho
há muito tempo que ninguém me fala assim.
Vais-me desculpar.
Eu também gosto do sol, de quem dá passeios nele e sabe Transfigurar-se.

A água das fontes é o meu espelho.

E eu vou dizer:
já sabia!

Talvez Ele diga ainda:
e é lindo o entardecer, não é?

8.8.08

Matisse


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
(...)

(Ruy Belo - do poema A MÃO NO ARADO - O poeta morreu há trinta anos)

16.7.08

Sonhei assim:
vi alguém à porta da casa e peguei num papel e escrevi:
a minha mãe tinha um Menino Jesus no cordão que me dava as prendas na altura certa.
Pareces o menino do cordão da minha mãe.

Gostei do sonho e é por isso que o conto.

11.7.08



A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração.

(Casimiro de Brito; O Livro das Quedas)

6.7.08

BEM-AVENTURANÇAS

Bem-aventurados os pássaros,
as nuvens, as madrugadas.

Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.

Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.

Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
ali existem.

Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.

A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as acções com elas,
os pensamentos arriados.

Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda,
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.

Bem-aventurados os pássaros!

(Carlos Nejar)

28.6.08

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(José Luís Peixoto; a criança em ruínas)

20.6.08


Dormi e acordei cedo
a romãzeira estava em botão

Adormeci e acordei tarde
a romãzeira dormia

Inda fui pelos pássaros, mas já era noite.

16.6.08

Cartas da tarde



As coisas parecem quase perfeitas quando sabemos dizê-las.

Mesa virada para nascente, às primeiras aves.
Silenciosos.

Os pássaros dão ao pão a música das flores;
a tília é sol mel sereno.

É bom este silêncio. Senta-te comigo e será sagrado,
e também o pão.

Quase perfeitos?

17.5.08

(Foto de Marco Pedrosa)

Também vou pelas nascentes.
Para continuar a saber os caminhos.

Aos amigos e amigas: vou andar por fora. Quando regressar, darei conta.

14.5.08

Cartas da tarde

Árvores de Outono-Egon Schiele

Olhar o amigo e sentir que se está a ser percebido faz a tarde bonita.

7.5.08


Coimbra, 6 de Fevereiro de 1923

- Querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça. Resigna-te a ser infeliz, e serás o mais feliz que podes ser.
- Por que te ris? Nós só rimos do que não compreendemos.
- Põe compaixão no teu desprezo, se desprezares; mas não desprezo na tua compaixão, se te compadeceres.
- Se és poeta, escuta esta máxima: Que a emoção provoque a tua imaginação, não a tua imaginação a tua emoção.

José Régio; Páginas do Diário Íntimo - IN-Casa da Moeda

(A capa reproduz desenhos de Régio)

30.4.08

Et un Sourire



La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

(Paul Éluard)

25.4.08



Ponho aqui este poema no dia Vinte e Cinco de Abril de 2008

20.4.08

Girassol


O casulo da larva recebe a morrinha e o sol em silêncio igual. Vai ser voo e cor, visita da luz e das flores.

O coração conhece os cheiros e as cores e não se perde nos caminhos.

Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
(René Char)

Assim de madrugada, noite já cor de borboleta, sê casulo ainda que de borboleta nocturna e só de uma manhã.

16.4.08

A Anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

(Vinícius de Moraes)

12.4.08

- Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
- Verdes?
- Sim. Eu pensava…Pelo menos não podia pensar que não tivesses…E que não tivesses sido salva, por mim, do fogo!
- Do fogo?
- Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
- Enfermeira?

Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.

- Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo…Mas nada disso sucedeu.

Rosabianca apertou-lhe o braço com força.

- Giovanni! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
- E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
- Sim, se queres serei a tua enfermeira.
- Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado, que eu vou deitar fogo à casa.

(Augusto Abelaira; A Cidade das Flores - vigésimo nono quadro)

3.4.08

Cartas da tarde



Horas lisas de luz baça, imperturbável.
Passaram os ruídos do costume: as latas na carrinha do trolha, o camião do lixo, o padeiro.
Mal abanaram o ar calado, salto de rã na água quieta.



O sol demora e o dia já não vai pequeno. Esta coisa luz cinzenta morna cola-se dentro da gente.



É preciso escolher os gestos, que as palavras também podem ser mudas. Para que a tarde não doa,
amemos o riso, os olhos, as mãos e os passeios no regresso dos rebanhos prenhe de manhãs.