24.2.08

Vou-me embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

21.2.08

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

(Alberto Caeiro)

20.2.08

Conversitas

- Outra vez a olhar o chão?
- Nota-se? Palavras vagas e olhos cor das nuvens de chuva?
- Isto de responder com perguntas e de viés...

- As palavras não levam a humidade materna? Vamos às fontes e examinamos a água!
- Às que te moram no peito?
- E pode-se arrumar o coração?
- Não tens emenda!

- Vou subir às nascentes e hei-de perceber as flores do meu quintal.
- Não demores!
- Estafermozinho!

13.2.08


Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar.

Mia Couto, Mar me quer

11.2.08

Cartas da Tarde


(Felice Casaroti)


No fim da tarde, ficar assim a ver o lume lento, o regresso das pessoas, o poisar do último sacho.

Não te descuides.
Sei que o lume não vai apagar-se enquanto os olhos souberem estar húmidos. Depois, não sei.

Arranja lá um bocadinho de pressa.
A música de Mertens ainda está no leitor.




4.2.08

Poema sobre a Canção da Esperança

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

Álvaro de Campos

31.1.08

A Espera

(…)

Existe uma cenografia da espera (…)

O cenário representa o interior de um café; marcámos um encontro, estou à espera. (…).

A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer. A espera de um telefonema tece-se, assim, de pequenas proibições, que vão até ao infinito, até ao inconfessável: impeço-me de sair da sala, de ir aos lavabos, até mesmo de telefonar (para não ocupar o aparelho); sofro se me telefonam (pele mesma razão); desespero-me a pensar que, a tal hora, terei de sair, arriscando-me assim a faltar ao apelo benfazejo, ao regresso da Mãe. Todas estas diversões que me atraem seriam momentos perdidos por causa da espera, das impurezas da angústia. Pois a angústia da espera , na sua pureza, exige que eu esteja sentado num café, ao lado do telefone, sem fazer nada.

(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso; edições 70)

26.1.08

Quando tenho a alma suja,
já não vou pelos padres santos do deserto que
castigavam o corpo.

(Conheci um monge que me contou que, no tempo em que castigava o corpo, se sentia todo sujo e não sabia da alma.
Que tomava um banho e até pensava que a água era a alma a morar-lhe nos olhos.)

Às vezes a alma vai suja
como sangue violentado em linho que já foi limpo.

(O monge falou-me do Cântico dos Cânticos, mas dizia sempre “sabes, deve ter sido lindo, mas foi há muito tempo. Gosto de ler, mas basta-me a água que me lava”.)

Já experimentei:
- sentar-me a comer chocolates e a metafísica gargalhou…
- ficar no banco do jardim; as aves nem me viram…
- etc.

(Recordo-me de que o monge dizia sempre o que devia e não usava etc. Não precisava: um minutinho dele a falar era do tamanho da música das estrelas.)

Vou fazer assim:
amanhã, o Sol nasce como sempre fez
vou sentar-me a olhá-lo

atrás dele vêm os pássaros.

(Aprendi isto por mim.)

E ainda vou fazer:
deixar-me voar, voar e ir com eles:
eles viram quem me falta e novas me hão-de dar.

E a alma vai ficar limpa lençol de linho.

22.1.08

A VIAGEM DEFINITIVA

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

(Juan Ramón Jiménez - Trad. de Manuel Bandeira)

17.1.08


que as casas estejam sempre inacabadas
sou de rebanho em transumância

15.1.08


De flores e esmeraldas,
Nas frescas madrugadas escolhidas,
Faremos as grinaldas,
Em teu amor floridas,
E num cabelo meu entretecidas.

S. João da Cruz - Poesias Completas (trad. de José Bento)

13.1.08


1

As manhãs andam coalhadas.

O códão é navalha a abrir a terra, mas a geada estende-se a receber o sol.

2

E também deve haver uma maneira quase matinal de fazer das palavras manto estendido onde se acorde criança a aprender a balbuciar os dias.

3

E também deve haver um banco de pedra no entardecer onde se goste de ver o dia todo, parando os olhos onde apetecer.

8.1.08

Conversitas

- Quem anda à chuva molha-se.
- E quem não anda está seco?
- Conversa mais seca!...

- Queres que vá ver se está a chover lá fora?
- Sim. E os cabelos molhados caem-te bem.

- Está mesmo de chuva!

- Vamos passear?
- E ficamos os dois com os cabelos molhados...

6.1.08

O miúdo que vende jornais naquela cidadezinha de província parada pacata patega é a primeira coisa que se vê na cidade, parada pacata patega. Quando chega o comboio da noite, a voz do pequeno ardina (que não tem pai nem mãe) corre pelas ruas e praças espanta a passarada bate nos prédios faz abrir portas e janelas fura a escuridão

saem gritos dos seus olhos a sua cara de menina pede beijos e carícias uma ternura diferente

as pessoas compram-lhe o jornal porque não podem comprar o silêncio do pequeno órfão e toda a cidade é um remorso inexplicável, inexplicável. Irás comigo, irmão, para a próxima jornada. Até ao Outro Lado, seremos dois.

(Luiz Pacheco - Os Namorados)




2.1.08

Lembro-me bem.

O Menino Jesus tinha-me dado três berlindes. Um, muito vermelho; o outro, quase verde. Gostava mais do que tinha tantas cores como o vestido que a minha mãe às vezes levava à missa.

No chão estava uma manta para eu brincar.
Lembro-me de ter brincado como vou contar.

Segurava os berlindes na mão esquerda. Depois, poisava um e dizia o pai está aqui. Com muita atenção, media três palmos e punha outro que era a mãe. Antes, deixava um sopro em cada um. O outro era eu e não tinha sítio certo. Às vezes até ficava seguro nos dedos. Depois de olhar muitas vezes, ia pondo, aos saltinhos, o pai de encosto à mãe.

E, quase a dormir, lembro-me bem, levavam-me para a cama e olhava pelo canto do olho.

Os três berlindes estavam encostadinhos.

30.12.07

Os Amigos

(Klimt)

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,

a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria –
por mais amarga.

(Eugénio de Andrade)



24.12.07

22.12.07

20.12.07


a pétala azul soltou-se no vento
voou foi voando aos círculos aos círculos

a andorinha bicou-a

sei um ninho e é azul

17.12.07


(Senhora com o Menino Salvador do Mundo-Cerejais)

Não choreis, belo Menino,
Se de amante vos prezais,
Porque amor que chora mais
É sempre amor menos fino.
Limpai o vosso rosto divino
A quem a minh’alma adora,
Que se a vossa Mãe vos chora,
Meu Deus, com tantos rigores,
É porque ao nascer das flores
Costuma chorar a aurora.

Jerónimo Vaía (n. 1620/30; m. 1688)