24.9.16

Deixei-me achar por quem não me buscou
(Livro do Profeta Isaías, 65, 1)

O girassol olha as aves
e têm o mesmo respirar

o silêncio vai de braço dado com a noite
como o dia a alimentar os prados.

Moradores no mesmo chão, sabem onde passar a noite.

20.9.16

Deixei-me achar por quem não me buscou
(Livro do Profeta Isaías, 65, 1)

As coisas que o caminhante vai ouvindo
na colina a mirar-se no regato
nos muros musgosos de quando era pequeno
do sossego da aldeia cheia de murmúrios

o silêncio seu companheiro muito tempo
afinou-lhe o ouvido e o olhar

a mãe que o gerou era quem o iluminara
e era o silêncio que o tinha conduzido
o que sabe o princípio e o fim das pessoas
e distingue as cores e os sentidos

as coisas que foi ouvindo nas viagens
os murmúrios da sua aldeia
pacificam-lhe as entranhas.
Mas ainda não sabe onde passar a noite.

29.8.16


Deixei-me achar por quem não me buscou
(Livro do Profeta Isaías, 65, 1)

A luz é um silêncio subtil
a caminhar com as pessoas, e a ouvir.

As coisas às vezes são labirinto
desafiam-nos a atenção
e puxam-nos para dentro delas.

O silêncio é um tabernáculo
casa  luz do viajante.

Ninguém viaja sozinho
o silêncio também é companhia
e todos têm a sua luz.

As árvores têm flores
e a luz, ao passar, é uma espécie de lira.

A criança no colo da mãe
sorri tranquila e em silêncio
na paz atenta de quem a olha.

Quem nos ouve não se anuncia.

22.7.16



O sol vai à janela.
Posso entrar? Faz falta um bocado de tristeza.
As pessoas sorriram.

17.7.16

Deus disse: Eu era um tesouro que ninguém conhecia e queria ser conhecido. Então criei o homem.

- Hugo von Hofmannsthal, O Livro dos Amigos; trad. de José A. Palma Caetano. Assírio & Alvim, 2002.

16.7.16

Abraão e Isaac
(Génesis, 21 e 22)

1
Abraão toma seu filho Isaac e vai encontrar-se consigo mesmo, como Deus falou na sua maneira pouco clara de se manifestar.
Levam nas entranhas, o pai, a negrura de não entender as palavras todas;
o filho, o silêncio confiante no pai que o chamou.

Chegar a Moriá dura três dias, tempo bastante para o silêncio que desvela o invisível.


2
Vai no peito de cada um
- Meu pai!
- Eis-me aqui, filho.
- Eis o fogo e a lenha. Onde o cordeiro do holocausto?
Seguem os dois unidos.

Três dias é medida da eternidade. Deus proverá.


3
O pai sabe o que lhe foi dito; o filho segue junto do pai;
seguem no mesmo coração.


4
A tamareira em Bersabé, pomar de frutos abundantes,
a terra de Bersabé explica os silêncios e retém o tempo.
O pai a quem foi dito: toma teu filho, aquele que tu amas
quere-o interminável.
O filho que ouvira do pai aos servos: depois voltaremos para junto de vós
sabe que aquilo que leva não é a lenha do seu sacrifício.

Depois voltaremos para junto de vós
embalava-lhes o coração, silêncio música suave.
Seguem os dois unidos.


5
Na terra de há três dias o pai tinha invocado o Deus de eternidade, e Sarai,
Sara princesa que todos queriam olhar guardava no coração os sorrisos, os seus e os de Isaac seu filho, como dissera:
Deus sorriu-me, as minhas entranhas foram riso de Deus.
E Abraão a todos clamara:
este filho rirá e já nos dá alegria. Isaac é o seu nome.

O filho segue unido ao pai. O pai sabe o que lhe foi dito.
De palavras e silêncio são os seus passos. E o respirar.


Colmeal da Torre, 15 de Julho, 2016

1.1.16


Eu não amo aquele que não dorme, diz Deus.
O sono é amigo do homem.
O sono é amigo de Deus.
O sono é talvez a mais bela das minhas criações.
Eu próprio descansei ao sétimo dia.
O que tem o coração puro, dorme. O que dorme, tem o coração puro.
É o grande segredo de ser-se infatigável como uma criança.
De ter como
uma criança força nas pernas.
Pernas novas, almas novas
E de recomeçar todas as manhãs, sempre novo,
Como a jovem, como a nova
Esperança.

Charles Péguy; Os Portais do Mistério da Segunda Virtude;
Tradução de Armando Silva Carvalho - Paulinas Editora

31.12.15


Não vamos dizer nada. O resto do dia será nítido,
palavra tranquila, irmã gémea do silêncio,
do tamanho da esperança. A que não sabe mentir.
Campo bem lavrado.

27.12.15

Bilhete-postal atoleimado e fora de estação

Andamos bem. Os skates esparramam-se nos half pipe.
Levamos as cores dos Leggings tribal e os desenhos.
Andamos que ninguém nos vê. Só nos olham.

Também não vemos ninguém. Não é preciso.
Devias ver as minhas sobrancelhas. Tapam-me os olhos.
Quando as conversas não interessam, abano-as como castanholas de som seco.

Aqui é tudo intrépido. Rapidinho. Não nos comprometemos. Nem com o vento.
Conhecemos os gestos necessários. Os que aproximam e os outros quando apetece e por pouco tempo.

Andamos a voar, sempre a voar
t-shirt cinza, Lightning Bolt, ténis que prolongam a nossa delgadez,
nuvens finas nos levam e estamos a gostar.






24.12.15

Somos como as palavras: carne e luz.
E silêncio.
Amanhecemos na mesma casa.

Baltar, 24/Dez/2015

15.12.15

ONDE VAIS ?

A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi "onde vais?"
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e a minha mãe.

Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.

Tonino Guerra; Histórias para uma noite de calmaria
Tradução de Mário Rui de Oliveira - Assírio & Alvim


15.11.15

Com bênção de Tonino Guerra *

III
À colina ao lado da aldeia, para nascente, chamam-lhe o Sítio da Coitadinha.
No tempo da guerra, alguns rapazes e raparigas, acabado o trabalho nas hortas nos dias grandes, iam para lá ao minério que medrava como os rosmanos e as giestas e era só chegar, colher e lavar. As mães ficavam em casa a preparar a ceia e os pais conversavam nas tabernas.
Para onde iria ser levado o minério era coisa só sabida por uns cavalheiros que apareciam de vez em quando; levavam os sacos da colheita e deixavam dinheiro que se via, que para gente de pouco esperar o pouco costuma ser cabonde.
Escolhiam, aos pares, rapaz e rapariga, lugares afastados uns dos outros. Quando cada um ia pela barroca onde corria água, o minério era limpo da terra e lavavam-se também os suores. Às vezes, os corpos misturavam-se e a tarde era céu aberto até ao toque das Avé-Marias.
Há um casal com cerca de oitenta que vai à Coitadinha nalgumas tardes soalheiras e os filhos não percebem por que razão os pais entram em casa com sorrisos marotos.
* Histórias para uma Noite de Calmaria; Assírio & Alvim

Colmeal da Torre, 15/Nov/2015


12.11.15

Com bênção de Tonino Guerra *

II
O segundo claustro do mosteiro estava incompleto e os anciãos já não iam para lá conversar entre a ceia e o grande silêncio.
Quem ia de visita admirava a sineta do claustro perfeito, voz de Deus a acordar os monges para rezarem as laudes e perdia o olhar por entre as portas do Capítulo e o claustro inacabado, ganhando afeição àquele espaço sem portas onde podia entrar o mundo todo. Por isso, o claustro era perfeito.
Como quem busca hospedagem nos primeiros frios do Outono, uma magnólia branca entrou e deu flor no claustro abandonado e, agora, ouvem-se poemas assim:
"Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia." (1)
"...Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco." (1)
"Se acender a luz
Não morrerei sozinho" (2)
O poeta Daniel Faria não chegou a ser ancião. Foi repousar, como quem reza:
"E agora sei que oiço as coisas devagar". (3)
A magnólia anda triste, disse-me um monge numa tarde deste Outono.

1) Dos Líquidos; 2) Explicação das Árvores e de Outros Animais; 3) O Livro do Joaquim
* O Livro das Igrejas abandonadas

Colmeal da Torre, 12/Nov/2015


8.11.15


Se não tinha para onde ir, deixava-se quieto. Perguntavam-lhe o que tinha.
- Os caminhos são como o sol.
Ficava assim, rico de coisas pequenas, quietude na casa perfeita.
- As nuvens é que são migrantes. Muito jovens. sigo-as com os olhos.

Colmeal da Torre, 8 de Novembro de 2015