26.12.08

(Foto de Pedro Pedro)



Levantou-se a resmungar: há coisas que não interessam nem ao Menino Jesus.

À noite, foi à janela e gritou às nuvens que eram feias e que não interessavam nem ao Menino Jesus.

Deitou-se a resmungar e sabia que tinha sido dia de Natal.



14.12.08

Um Poema

(Foto de Marco Pedrosa)

Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos.
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.

Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim.

Minhalma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muito lindas pérolas
Jazem nas profundezas.


Heine, Tradução de Manuel Bandeira


(Hoje fui ver o mar, que estava nervoso, irrequieto. Lembrei-me disto.)

10.12.08

Paul Sérusier

Se uma vez por outra escrevo é porque certas coisas não se querem separar de mim tal como eu não quero separar-me delas. No acto de escrevê-las elas penetram em mim para sempre - através da caneta e da mão - como por osmose.

Na alegria, nós movemo-nos num elemento que está todo ele fora do tempo e do real, com presença perfeitamente real.
Incandescentes, atravessamos as paredes.

Cristina Campo: Os Imperdoáveis - Assírio & Alvim - Trad.: José Colaço Barreiros

4.12.08

TEMA E VARIAÇÕES

(Copiei este sono não sei donde)

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

Manuel Bandeira Opus 10

27.11.08

da noite e da Luz




*
de noite o tempo divide-se
metade da alma é borboleta
e o resto não sabe ser a flor

nas veredas
os olhos perdem a flor-nome
fica muito pobre


*
A aurora é espelho de água

as flores sábias lençóis do orvalho
do dormir e acordar claro.

Bendito seja o sorriso largo
jardim nítido das nossas casas
flores e frutos de nome cheio.

17.11.08

Os gritos da criança no barulho dos carrinhos de choque:
- quero a minha mãe!

Ninguém falou, mas, devagarinho, muito devagar, pegam-na ao colo.
O miúdo aconchega-se e a mãe leva-o para casa. Já dorme.

Ia cansada, mas dos dois a maneira das mãos era muito bonita.

15.11.08

Conversitas


- Há luz nas hortas e as abelhas ainda cantam na tília.
Apetece-me: vamos passear a alma!
- E que fazemos do corpo?
- Mas alguma vez ficou para trás?

- A tília é sol mel sereno ainda.
Vamos pelos campos fora?
- É isso! Vamos pelo mel...
- E pelo chão de marcela...
- Com bocas de brilho e doçura nos olhos...

27.10.08

Dedicatória

Estou triste estou triste
Estou desinfeliz
Ó maninha Ó maninha

Ó maninha te ofereço
Com muita vergonha
Um presente de pobre
Estes versos que fiz
Ó maninha Ó maninha.

(Manuel Bandeira)



Quando tenho vontade de morrer
precisado de ir embora
fito os pássaros e as nuvens
sentado no sol dormente.

Duas pancadinhas nas costas
e mãos a abraçar-me os olhos

o sol fica novo

vamos raptar a luz
Ó maninha Ó maninha.

19.10.08


Ao pôr do sol começou a levantar-se um vento que fez amotinar as areias da praia; a chuva repentinamente começou a cair e ocultou o monte Chokai. Disse para mim mesmo que, se apaisagem com chuva era formosa, sê-lo-ia também sem ela. Com esta ideia pernoitámos na cabana de um pescador, esperando que a chuva cessasse.

No dia seguinte, pela manhã, o céu estava limpo.

(Matsuo Bashô; O Caminho Estreito para o Longínquo Norte - Versão de Jorge de Sousa Braga - Fenda)

17.10.08

Conversitas



- Está-se sempre inteiro nos sítios para onde os humores nos levam.
- A janela aberta diz-nos como está o tempo.
- O sol engole o escuro e tira os cheiros a mofo.

- Está-se sempre todo nos sítios dos amores.
- O tempo julga que a janela é cega.
- Só o sol faz o dia e perfuma os vestidos e os corpos.

- Quem vai calar-se primeiro?
- Pois é! Quem?
- Os corpos já estão perfumados?

6.10.08



Deixei cair uma lágrima na alfazema.
Até onde irá o cheiro roxo grená?

O quintal todo tem ar novo. É da água nas flores, e
ai Deus, que caminho vai levar?

Hei-de querer a força da água, que corre da chuva, e volta à terra.
Ai Deus, e que venha cedo,

e outra lágrima cairá na alfazema, e no alecrim, e na romã,
e o tempo novo,
ai Deus, venha cedo!

3.10.08

O Sentido da Simplicidade


Escondo-me atrás de coisas simples, para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos, uma na outra.

A lua de agosto brilha na cozinha
como pote estanhado (pela razão já dita),
ilumina a casa vazia e o silêncio ajoelhado,
este silêncio sempre ajoelhado.

Cada palavra é a partida
para um encontro - muita vez anulado -
e só é verdadeira quando, para esse encontro,
ela insiste, a palavra,

(Yannis Ritsos - Trad. de Eugénio de Andrade: Trocar de Rosa)

2.10.08

FIDELIDADE


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

(Jorge de Sena)

29.9.08

(Foto de Marco Pedrosa)


Pedintes de palavras singelas
usemo-las pão de cada dia.

Basta:
- é do fundo do coração que te quero.

E:
- telefona, quando chegares.

Ou:
- vamos molhar os pés na água dos sargaços.

Palavras que nos vestiam a inocência
cândidas transparentes .

Nunca sejam difíceis.

24.9.08

Foto roubada...

Rã, olhos de água no céu.
Na próxima lua
festa nos juncos...

22.9.08


Tu me chamas ainda a tua vida -
- E a vida é só o que se escapa e corre...
Antes me chames alma: é mais exacto,
Pois que, como a alma, o meu amor não morre.

Byron - Trad de Jorge de Sena (poesia de 26 séculos; ASA)

19.9.08

Das cores


Das cores e da luz já sabes
e das plantas - crescem
amorrinham
como Deus quer.

Setenta vezes sete são as amoras
e as promessas do diospiro.

Ponho na mesa o vinho da refeição,
calculada cada coisa pelo tamanho da alegria.

As amoras estão vermelhas e as framboesas.
E o mirtilo parece garoto negro a sorrir.

A romã vai ter sorrisos vermelhos,
fogo doido, sol perdido.

E
vamos ficar lambuzados
mãos caras olhos narizes
bocas.

Como Deus quer e nós também.

14.9.08

O Riso de Deus

(Capa da 16ª edição)

Imaginei um Deus com um enorme sorriso - aquele sorriso da Rita ampliado à dimensão do tempo da história, desde o homem das cavernas até ao dia em que realizasse o tal projecto pressentido. Disse-lhe:
- Rita: eu acho que Deus tem assim um sorriso como o teu quando nos vê amargurados...
- E eu acho que ele se ri mas é daqueles que andam por aí, muito contentes e convencidos, a fazerem o mundo como está...
Depois, ainda com o mesmo sorriso, levantou a roupa da cama, deitou-se e disse-me:
- Vá. Vem para a nossa Arca de Noé...

(António Alçada Baptista; O Riso de Deus)

13.9.08

Cartas da tarde



Há cartas que são ridículas, mas gosto de cartas e não me interessa se são ridículas.
Sinto-as e depois é como estivesse a ditá-las.
Demoro porque as palavras levam muito tempo a chegar. E também, quando as leio, quero gostar das palavras tanto como mais alguém vai gostar.
Sinto-as.
Às vezes, não são bem as esperadas. São como aquelas linhas da criança a quem se pede "Desenhe uma flor".

1.9.08

"das coisas verdejantes" (Com Elytis)

(foto da Ana Assunção - http://anaassuncao.multiply.com/)

"Hei-de fazer-me monge * das coisas verdejantes",
criança que ri depois de lhe soprarem no dedo magoado.

"Humilde servirei * a ordem dos pássaros",
no voo e poiso por o espírito ainda não saber ser puro.

"Pela noite virei * às matinas dos figos",
flores-fruto, água-brilho,
frescura de noites duras, pão d'algumas manhãs.

Hei-de ser,
"Molhado de orvalho",
bolinha de sabão no alguidar da roupa branca
onde se conhece e ganha
a inocência,

"O ciano * o vermelho o roxo"
perdidos no fogo das
"meninas sem mancha".

Ele, o fogo, mais poderoso.
Eu, pouco robusto, a querer as cores das
"coisas verdejantes",

vestimenta simples dos pássaros
louvada seja.

9.8.08

É lindo o entardecer

Hei-de ter desculpa quando chegar a hora
-que passo o dia a preparar a calma do entardecer
-que saio do caminho para não perturbar as formigas; que trabalham e não sabem para quê
-que me escondo para que os pardais façam arraial na comida que lhes dou.

Quando me fizerem as perguntas do fim, hei-de ter desculpa
-que, logo de manhã, espreito o sol e o bendigo e a tudo que vai ter luz
-que tiro o chapéu diante das alminhas da aldeia pintadas na pedra e com flores de plástico à frente
-que olho para o lado para que os namorados sigam o seu caminho e verdade
-que namoro com a verdade toda inteira.

Quando me fecharem os olhos, hei-de ter desculpa
-falei de alto aos abusadores
-bati nos vendilhões dos templos
-nunca me pus de joelhos
-não me ponho de cócoras, cuspo nos hipócritas e outros exploradores.

-A água das fontes é o meu espelho, "mesmo se é noite".

E se, naquela altura, não tiver desculpa, hei-de dizer:
-vossemecê não presta
-tem a ruindade da serpe que, em tempos, pôs no tal Éden.

Está a parecer-me que vou ser respondido assim:
anda cá, rapazinho
há muito tempo que ninguém me fala assim.
Vais-me desculpar.
Eu também gosto do sol, de quem dá passeios nele e sabe Transfigurar-se.

A água das fontes é o meu espelho.

E eu vou dizer:
já sabia!

Talvez Ele diga ainda:
e é lindo o entardecer, não é?

8.8.08

Matisse


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará
(...)

(Ruy Belo - do poema A MÃO NO ARADO - O poeta morreu há trinta anos)

16.7.08

Sonhei assim:
vi alguém à porta da casa e peguei num papel e escrevi:
a minha mãe tinha um Menino Jesus no cordão que me dava as prendas na altura certa.
Pareces o menino do cordão da minha mãe.

Gostei do sonho e é por isso que o conto.

11.7.08



A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração.

(Casimiro de Brito; O Livro das Quedas)

6.7.08

BEM-AVENTURANÇAS

Bem-aventurados os pássaros,
as nuvens, as madrugadas.

Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.

Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.

Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
ali existem.

Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.

A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as acções com elas,
os pensamentos arriados.

Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda,
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.

Bem-aventurados os pássaros!

(Carlos Nejar)

28.6.08

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(José Luís Peixoto; a criança em ruínas)

20.6.08


Dormi e acordei cedo
a romãzeira estava em botão

Adormeci e acordei tarde
a romãzeira dormia

Inda fui pelos pássaros, mas já era noite.

16.6.08

Cartas da tarde



As coisas parecem quase perfeitas quando sabemos dizê-las.

Mesa virada para nascente, às primeiras aves.
Silenciosos.

Os pássaros dão ao pão a música das flores;
a tília é sol mel sereno.

É bom este silêncio. Senta-te comigo e será sagrado,
e também o pão.

Quase perfeitos?

17.5.08

(Foto de Marco Pedrosa)

Também vou pelas nascentes.
Para continuar a saber os caminhos.

Aos amigos e amigas: vou andar por fora. Quando regressar, darei conta.

14.5.08

Cartas da tarde

Árvores de Outono-Egon Schiele

Olhar o amigo e sentir que se está a ser percebido faz a tarde bonita.

7.5.08


Coimbra, 6 de Fevereiro de 1923

- Querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça. Resigna-te a ser infeliz, e serás o mais feliz que podes ser.
- Por que te ris? Nós só rimos do que não compreendemos.
- Põe compaixão no teu desprezo, se desprezares; mas não desprezo na tua compaixão, se te compadeceres.
- Se és poeta, escuta esta máxima: Que a emoção provoque a tua imaginação, não a tua imaginação a tua emoção.

José Régio; Páginas do Diário Íntimo - IN-Casa da Moeda

(A capa reproduz desenhos de Régio)

30.4.08

Et un Sourire



La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

(Paul Éluard)

25.4.08



Ponho aqui este poema no dia Vinte e Cinco de Abril de 2008

20.4.08

Girassol


O casulo da larva recebe a morrinha e o sol em silêncio igual. Vai ser voo e cor, visita da luz e das flores.

O coração conhece os cheiros e as cores e não se perde nos caminhos.

Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
(René Char)

Assim de madrugada, noite já cor de borboleta, sê casulo ainda que de borboleta nocturna e só de uma manhã.

16.4.08

A Anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

(Vinícius de Moraes)

12.4.08

- Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
- Verdes?
- Sim. Eu pensava…Pelo menos não podia pensar que não tivesses…E que não tivesses sido salva, por mim, do fogo!
- Do fogo?
- Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
- Enfermeira?

Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.

- Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo…Mas nada disso sucedeu.

Rosabianca apertou-lhe o braço com força.

- Giovanni! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
- E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
- Sim, se queres serei a tua enfermeira.
- Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado, que eu vou deitar fogo à casa.

(Augusto Abelaira; A Cidade das Flores - vigésimo nono quadro)

3.4.08

Cartas da tarde



Horas lisas de luz baça, imperturbável.
Passaram os ruídos do costume: as latas na carrinha do trolha, o camião do lixo, o padeiro.
Mal abanaram o ar calado, salto de rã na água quieta.



O sol demora e o dia já não vai pequeno. Esta coisa luz cinzenta morna cola-se dentro da gente.



É preciso escolher os gestos, que as palavras também podem ser mudas. Para que a tarde não doa,
amemos o riso, os olhos, as mãos e os passeios no regresso dos rebanhos prenhe de manhãs.

21.3.08

Introdução ao Canto

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.

(Eugénio de Andrade, Coração do Dia)

18.3.08

Na Baía de Faro (com um poema de Elytis)

“Abro a minha boca * e o mar se regozija”

(Em “Louvada Seja – Áxion Estí”)

Abro os olhos e a água sem rugas traz desenhos que lhe desenhei, de pele lisa ainda, a minha. Julgava-os delidos.

O mar guardou-os e está a pôr uma a uma as pétalas no pé donde, bem-me-quer-mal-me-quer, em anos verdes as fui soprando em desenhos de abandono.

Se fosse de pôr flores no cabelo como os amantes, ainda iria recolhê-las, bem me quer.
Eu, amante imperfeito.

Água-céu de Faro, Áxion Estí.


8.3.08

Porque procuro ser lúcido

Porque sou consciente, ligeiramente inteligente e procuro ser lúcido, desejo que a manifestação que os professores e educadores fazem hoje em Lisboa seja grande, do tamanho das nossas consciências.

5.3.08

MANHÃ, ERGO COGITO


A janela pálida reflorida
no ar cada vez mais visível.
Também o prado revive
longe, depois de ter bebido
a sua água que dá ao ar visibilidade.
Tão nítido, estendido numa colina.

(Fiama Hasse Pais Brandão - Entre os Âmagos)

24.2.08

Vou-me embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)

21.2.08

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...

(Alberto Caeiro)

20.2.08

Conversitas

- Outra vez a olhar o chão?
- Nota-se? Palavras vagas e olhos cor das nuvens de chuva?
- Isto de responder com perguntas e de viés...

- As palavras não levam a humidade materna? Vamos às fontes e examinamos a água!
- Às que te moram no peito?
- E pode-se arrumar o coração?
- Não tens emenda!

- Vou subir às nascentes e hei-de perceber as flores do meu quintal.
- Não demores!
- Estafermozinho!

13.2.08


Pois, lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar.

Mia Couto, Mar me quer

11.2.08

Cartas da Tarde


(Felice Casaroti)


No fim da tarde, ficar assim a ver o lume lento, o regresso das pessoas, o poisar do último sacho.

Não te descuides.
Sei que o lume não vai apagar-se enquanto os olhos souberem estar húmidos. Depois, não sei.

Arranja lá um bocadinho de pressa.
A música de Mertens ainda está no leitor.




4.2.08

Poema sobre a Canção da Esperança

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

Álvaro de Campos

31.1.08

A Espera

(…)

Existe uma cenografia da espera (…)

O cenário representa o interior de um café; marcámos um encontro, estou à espera. (…).

A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer. A espera de um telefonema tece-se, assim, de pequenas proibições, que vão até ao infinito, até ao inconfessável: impeço-me de sair da sala, de ir aos lavabos, até mesmo de telefonar (para não ocupar o aparelho); sofro se me telefonam (pele mesma razão); desespero-me a pensar que, a tal hora, terei de sair, arriscando-me assim a faltar ao apelo benfazejo, ao regresso da Mãe. Todas estas diversões que me atraem seriam momentos perdidos por causa da espera, das impurezas da angústia. Pois a angústia da espera , na sua pureza, exige que eu esteja sentado num café, ao lado do telefone, sem fazer nada.

(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso; edições 70)

26.1.08

Quando tenho a alma suja,
já não vou pelos padres santos do deserto que
castigavam o corpo.

(Conheci um monge que me contou que, no tempo em que castigava o corpo, se sentia todo sujo e não sabia da alma.
Que tomava um banho e até pensava que a água era a alma a morar-lhe nos olhos.)

Às vezes a alma vai suja
como sangue violentado em linho que já foi limpo.

(O monge falou-me do Cântico dos Cânticos, mas dizia sempre “sabes, deve ter sido lindo, mas foi há muito tempo. Gosto de ler, mas basta-me a água que me lava”.)

Já experimentei:
- sentar-me a comer chocolates e a metafísica gargalhou…
- ficar no banco do jardim; as aves nem me viram…
- etc.

(Recordo-me de que o monge dizia sempre o que devia e não usava etc. Não precisava: um minutinho dele a falar era do tamanho da música das estrelas.)

Vou fazer assim:
amanhã, o Sol nasce como sempre fez
vou sentar-me a olhá-lo

atrás dele vêm os pássaros.

(Aprendi isto por mim.)

E ainda vou fazer:
deixar-me voar, voar e ir com eles:
eles viram quem me falta e novas me hão-de dar.

E a alma vai ficar limpa lençol de linho.

22.1.08

A VIAGEM DEFINITIVA

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

(Juan Ramón Jiménez - Trad. de Manuel Bandeira)

17.1.08


que as casas estejam sempre inacabadas
sou de rebanho em transumância

15.1.08


De flores e esmeraldas,
Nas frescas madrugadas escolhidas,
Faremos as grinaldas,
Em teu amor floridas,
E num cabelo meu entretecidas.

S. João da Cruz - Poesias Completas (trad. de José Bento)

13.1.08


1

As manhãs andam coalhadas.

O códão é navalha a abrir a terra, mas a geada estende-se a receber o sol.

2

E também deve haver uma maneira quase matinal de fazer das palavras manto estendido onde se acorde criança a aprender a balbuciar os dias.

3

E também deve haver um banco de pedra no entardecer onde se goste de ver o dia todo, parando os olhos onde apetecer.

8.1.08

Conversitas

- Quem anda à chuva molha-se.
- E quem não anda está seco?
- Conversa mais seca!...

- Queres que vá ver se está a chover lá fora?
- Sim. E os cabelos molhados caem-te bem.

- Está mesmo de chuva!

- Vamos passear?
- E ficamos os dois com os cabelos molhados...

6.1.08

O miúdo que vende jornais naquela cidadezinha de província parada pacata patega é a primeira coisa que se vê na cidade, parada pacata patega. Quando chega o comboio da noite, a voz do pequeno ardina (que não tem pai nem mãe) corre pelas ruas e praças espanta a passarada bate nos prédios faz abrir portas e janelas fura a escuridão

saem gritos dos seus olhos a sua cara de menina pede beijos e carícias uma ternura diferente

as pessoas compram-lhe o jornal porque não podem comprar o silêncio do pequeno órfão e toda a cidade é um remorso inexplicável, inexplicável. Irás comigo, irmão, para a próxima jornada. Até ao Outro Lado, seremos dois.

(Luiz Pacheco - Os Namorados)




2.1.08

Lembro-me bem.

O Menino Jesus tinha-me dado três berlindes. Um, muito vermelho; o outro, quase verde. Gostava mais do que tinha tantas cores como o vestido que a minha mãe às vezes levava à missa.

No chão estava uma manta para eu brincar.
Lembro-me de ter brincado como vou contar.

Segurava os berlindes na mão esquerda. Depois, poisava um e dizia o pai está aqui. Com muita atenção, media três palmos e punha outro que era a mãe. Antes, deixava um sopro em cada um. O outro era eu e não tinha sítio certo. Às vezes até ficava seguro nos dedos. Depois de olhar muitas vezes, ia pondo, aos saltinhos, o pai de encosto à mãe.

E, quase a dormir, lembro-me bem, levavam-me para a cama e olhava pelo canto do olho.

Os três berlindes estavam encostadinhos.