27.11.07

Das romãs

quero pedir uma coisa
já é teu e não peças só isso
já temos duas coisas e o dia mal começou

as folhas andam a pôr o chão de muitas cores vemo-nos com as cores do chão estamos adolescentes vamos soprar leve sobre as palmas das mãos folha a folha vamos ficar da cor das romãs
e entramos ligeirinhos em casa

23.11.07

O gato


Sempre
de muito longe
é que nos olha.

Andar
sobre fumo
é arte
é gume
suspenso.

Estará
uma hora
imóvel
no tempo de si próprio.

O sol é o escravo que lhe traz incenso.

(Mário Castrim, Histórias com juízo)

14.11.07

O Silêncio


Ouve, meu filho, o silêncio.
É um silêncio ondulado,
um silêncio
donde resvalam ecos e vales
e que inclina a fronte
para o chão.

Federico García Lorca - Trad. de Eugénio de Andrade

12.11.07

Um fragmento de Safo

A noiva

Tal uma doce maçã rubra, que brilha no alto dos ramos,
mesmo no cimo de tudo, esquecida dos que andavam na colheita,
- esquecida não, é que não conseguiram atingi-la.

(leitura de Maria H. Rocha Pereira)


A maçã no ramo mais alto

Sozinha, a doce maçã enrubesce no alto ramo,
alto, altíssimo, pois esqueceram-na os apanhadores da maçã.
Na verdade, não a esqueceram: não conseguiram foi lá chegar.

(leitura de Frederico Lourenço)


No ramo alto, alta no ramo
mais alto, uma maçã
vermelha
ali ficou esquecida. Esquecida?
Não, em vão tentaram colhê-la.

(leitura de Eugénio de Andrade)

4.11.07

Tenho trato com o vento. Ele traz-me os cheiros do meu amor e leva-lhe os meus recados. E faz muito bem o que tem de fazer. Se a porta está fechada, pára e espera com muita paciência. Não vai pela janela, que não é entrada das pessoas. Quando a porta se abre, vai devagarinho e sem barulho pôr uma flor na cama do meu amor. Leva o meu cheiro e umas gotas a reluzir.
podem ser do orvalho ou gotas salgadas.

Espero com a paciência do vento.