31.1.08

A Espera

(…)

Existe uma cenografia da espera (…)

O cenário representa o interior de um café; marcámos um encontro, estou à espera. (…).

A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer. A espera de um telefonema tece-se, assim, de pequenas proibições, que vão até ao infinito, até ao inconfessável: impeço-me de sair da sala, de ir aos lavabos, até mesmo de telefonar (para não ocupar o aparelho); sofro se me telefonam (pele mesma razão); desespero-me a pensar que, a tal hora, terei de sair, arriscando-me assim a faltar ao apelo benfazejo, ao regresso da Mãe. Todas estas diversões que me atraem seriam momentos perdidos por causa da espera, das impurezas da angústia. Pois a angústia da espera , na sua pureza, exige que eu esteja sentado num café, ao lado do telefone, sem fazer nada.

(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso; edições 70)

9 comentários:

Lis disse...

Este texto de Barthes lembrou-me certa passagem d' O Principezinho; diria mesmo a mais bela passagem d'O Principezinho...Os rituais são necessários. Enfim, alguns.

Olá!

zef disse...

Os rituais para se
"saber a que horas hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito..."
Também me lembrei do Principezinho

OláLis

Meg disse...

Amigo Zef,

Pois de rituais é feita a nossa vida... por alguns pelo menos, por enquanto.
E hoje, ao cumprir uma espécie de ritual, dei-me conta do encerramento de 3 sítios de amigo comum.
Espero que se trate de uma grande partida de Carnaval, foi esse o recado que deixei. E fiquei triste.

Um abraço amigo

rendadebilros disse...

POis lá está... não pensar em nada, não fazer nada ... afinal não é tão inútil ... enfim, sempre estamos à espera, em espera... de quê? talvez do telefonema, talvez, da chegada de alguém, talvez, da tarde, do sol , da lua, talvez à espera de ver, de sentir, de perceber, talvez da passagem do rutual de cada hora, talvez... à espera da espera... Ai onde me levou o Caeiro ( há possivelmente "resíduos " de cada um dos poetas e escritores lidos na memória, talvez, já nem inventemos nada...) o Roland Barthes e o Zef, o filósofo...
Bom fim de semana.

zef disse...

Pois é, Meg, se é pelos ritos que nos cativamos...(continua aqui a presença do Principezinho!)
Um abraço amigo. Bom domingo.

Ora viva, Renda! Somos a soma do que fomos vendo. E também do que nos vai fazendo falta?
Um abraço(cuidado, porque há muita chuva e morrinha...)

Sophiamar disse...

Quem espera, desespera, diz o ditado, mas confesso que discordo. Há esperas que fazemos com muito gosto embora nos deixem um pouco nervosos.Fazem parte da vida. E afinal quem não espera, fica bem mais triste e entregue à solidão.

Beijinhossss

zef disse...

Sophiamar, também penso que a espera não tem que ver com desespero quando se sabe o que se espera...
Beijos

Amélia disse...

Um dos livros, juntamente com o Barthes de A a Z, que mais me encantaram - ao ponto de dar a umas «coisas minhas» o mesmo título.Claro que essas coisas minhas ficaram a milhares de kms. de Barthes...Gostei,pois, de o encontrar aqui nesta visita à romãzeira

zef disse...

Amélia:...Mihi de reditu tuo gratulor...
(A "Tábula Gratulatória" de Barthes pôs-me assim!)