
Bem-aventurados os pássaros,
as nuvens, as madrugadas.
Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.
Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.
Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
ali existem.
Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.
A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as acções com elas,
os pensamentos arriados.
Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda,
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.
Bem-aventurados os pássaros!
(Carlos Nejar)