3.4.08

Cartas da tarde



Horas lisas de luz baça, imperturbável.
Passaram os ruídos do costume: as latas na carrinha do trolha, o camião do lixo, o padeiro.
Mal abanaram o ar calado, salto de rã na água quieta.



O sol demora e o dia já não vai pequeno. Esta coisa luz cinzenta morna cola-se dentro da gente.



É preciso escolher os gestos, que as palavras também podem ser mudas. Para que a tarde não doa,
amemos o riso, os olhos, as mãos e os passeios no regresso dos rebanhos prenhe de manhãs.

12 comentários:

fernanda s.m. disse...

Ora como eu gosto de cartas destas tardes! Tardes mornas, doces, complacentes, estendendo-se desde a infância para agasalhar a tarde do nosso porvir...
Uum abraço, Zef.

Amélia disse...

Outro - com o gosto de o ler hoje.Beijos

rendadebilros disse...

Que cartas maravilhosas chegam ao fim da tarde...

rendadebilros disse...

As árvores andam a gritar para quem quiser ouvir que chegou a Primavera: andam loucas de verde e flores...
Um abraço.

zef disse...

Boas tardes, Fernanda, estas e ainda as que faltam, muitas.
Um abraço

E eu,Amélia, pelo gosto de a ver, beijos.

Verdade, Renda: as tardes precisam de cuidados como a terra; para manterem a verdura possível.
Abraços

alecerosana disse...

"salto de rã na água quieta"

Faz-me lembrar a minha infância, a água coberta de pequenas plantas verdes e uma rã que salta apressada.

Abraço

zef disse...

Alece, e é sempre bom convocar as coisas da infância!
Um abraço

Meg disse...

Ainda dava tempo, uma meia hora...subi pelo portão de ferro, era cor de laranja e quando cheguei lá acima, como o espaço por cima da casa da lenha era pouco,sentei-me encolhidinha e fui debicando consolada os cachos de uvas americanas... aquele cheiro..!! E o tempo passou nem mais pensei no avô, que em silêncio mas de dedo em riste me ornenava pela milésima vez: tira os cachos todos que quiseres, mas não me debiques os cachos! E eu não percebia o porquê. Então se eu tirasse uma uva de cada cacho não se notava menos?

Hoje deu-me para estas lembranças dos 7 anos.

Um abraço

zef disse...

Meg, já tive algum mérito, o de lembrar infâncias...
Olhe que o avô sabia: o cacho de uvas, para ser sorriso perfeito, não deve ser desdentado!
Um abraço

Meg disse...

Zef, quanto à Adélia Prado tem muita razão, quanto à poesia mística. Para não tornar a leirura maçadora, faço-a assim "ralinha" tocando aqui e ali para acicatar a curiosidade. Mas também pensei que fosse mais conhecida, já que no Brasil é das mais populares. Eu gosto muito da escrita dela.

Bom fim de semana e um abraço.

rendadebilros disse...

Ah meu amigo, as suas palavras são ouro...
ando tão sem tempo para visitas e tudo... que nem sei como lhe agradecer...

E que me diz do acordo ortográfico??? Tanto insisto eu com os circunflexos de vêm e têm e agora apagam tudo ... os meus alunos hão-de concluir que sou maluca...

rendadebilros disse...

Abraços.