16.7.08

Sonhei assim:
vi alguém à porta da casa e peguei num papel e escrevi:
a minha mãe tinha um Menino Jesus no cordão que me dava as prendas na altura certa.
Pareces o menino do cordão da minha mãe.

Gostei do sonho e é por isso que o conto.

11.7.08



A chuva pede que me cale
ou convida-me a cantar? Ainda
não entendi, vou escutar
com mais atenção, vou encostar
ao búzio delicado da chuva
o ouvido poluído
do coração.

(Casimiro de Brito; O Livro das Quedas)

6.7.08

BEM-AVENTURANÇAS

Bem-aventurados os pássaros,
as nuvens, as madrugadas.

Bem-aventurados são os pássaros.
Para eles
todos os dias
são todos os dias.
Reais, antigos, tutelares.

Nós, coitados,
não sabemos
que fazer deles.
Queremos os dias
limpos, arrumados
com cadeiras.

Felizes os pássaros.
O mar é um animal feliz
e as coisas imaginadas
ali existem.

Bem-aventurados são os pássaros:
não pensam em liberdade
porque voam nela
sem idade.
Nós, coitados,
nem sabemos
que fazer dela.

A nós, o cisco,
o mar baixo.
Arriadas velas,
as acções com elas,
os pensamentos arriados.

Jamais o ir adiante
até onde
a resistência manda,
que se ande,
até onde
perca seu comando
e vá seguindo
quando
for chegando.

Bem-aventurados os pássaros!

(Carlos Nejar)

28.6.08

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

(José Luís Peixoto; a criança em ruínas)

20.6.08


Dormi e acordei cedo
a romãzeira estava em botão

Adormeci e acordei tarde
a romãzeira dormia

Inda fui pelos pássaros, mas já era noite.

16.6.08

Cartas da tarde



As coisas parecem quase perfeitas quando sabemos dizê-las.

Mesa virada para nascente, às primeiras aves.
Silenciosos.

Os pássaros dão ao pão a música das flores;
a tília é sol mel sereno.

É bom este silêncio. Senta-te comigo e será sagrado,
e também o pão.

Quase perfeitos?

17.5.08

(Foto de Marco Pedrosa)

Também vou pelas nascentes.
Para continuar a saber os caminhos.

Aos amigos e amigas: vou andar por fora. Quando regressar, darei conta.

14.5.08

Cartas da tarde

Árvores de Outono-Egon Schiele

Olhar o amigo e sentir que se está a ser percebido faz a tarde bonita.

7.5.08


Coimbra, 6 de Fevereiro de 1923

- Querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça. Resigna-te a ser infeliz, e serás o mais feliz que podes ser.
- Por que te ris? Nós só rimos do que não compreendemos.
- Põe compaixão no teu desprezo, se desprezares; mas não desprezo na tua compaixão, se te compadeceres.
- Se és poeta, escuta esta máxima: Que a emoção provoque a tua imaginação, não a tua imaginação a tua emoção.

José Régio; Páginas do Diário Íntimo - IN-Casa da Moeda

(A capa reproduz desenhos de Régio)

30.4.08

Et un Sourire



La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.

(Paul Éluard)

25.4.08



Ponho aqui este poema no dia Vinte e Cinco de Abril de 2008

20.4.08

Girassol


O casulo da larva recebe a morrinha e o sol em silêncio igual. Vai ser voo e cor, visita da luz e das flores.

O coração conhece os cheiros e as cores e não se perde nos caminhos.

Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
(René Char)

Assim de madrugada, noite já cor de borboleta, sê casulo ainda que de borboleta nocturna e só de uma manhã.

16.4.08

A Anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlimtlim?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

(Vinícius de Moraes)

12.4.08

- Rosabianca, afinal não tens os cabelos verdes!
- Verdes?
- Sim. Eu pensava…Pelo menos não podia pensar que não tivesses…E que não tivesses sido salva, por mim, do fogo!
- Do fogo?
- Sim. Porque te admiras? Do fogo. E nunca foste enfermeira.
- Enfermeira?

Encostados a uma grade, viam quase sem ver Florença lá em baixo.

- Porque perguntas? Não posso gostar de ti, Rosabianca! Pensei que tinhas os cabelos verdes e que te salvava do fogo…Mas nada disso sucedeu.

Rosabianca apertou-lhe o braço com força.

- Giovanni! Se queres, pinto de verde os cabelos, subo para um quarto andar e deito-lhe fogo. Salvas-me?
- E fico ferido? Serás a minha enfermeira?
- Sim, se queres serei a tua enfermeira.
- Está bem, Rosabianca. Sobe lá para o telhado, que eu vou deitar fogo à casa.

(Augusto Abelaira; A Cidade das Flores - vigésimo nono quadro)

3.4.08

Cartas da tarde



Horas lisas de luz baça, imperturbável.
Passaram os ruídos do costume: as latas na carrinha do trolha, o camião do lixo, o padeiro.
Mal abanaram o ar calado, salto de rã na água quieta.



O sol demora e o dia já não vai pequeno. Esta coisa luz cinzenta morna cola-se dentro da gente.



É preciso escolher os gestos, que as palavras também podem ser mudas. Para que a tarde não doa,
amemos o riso, os olhos, as mãos e os passeios no regresso dos rebanhos prenhe de manhãs.

21.3.08

Introdução ao Canto

Ergue-te de mim,
substância pura do meu canto.
Luz terrestre, fragrância.
Ergue-te, jasmim.

Ergue-te, e aquece
a cal e a pedra,
as mãos e a alma.
Inunda, reina, amanhece.

Ao menos tu sê ave,
primavera excessiva.
Ergue-te de mim:
canta, delira, arde.

(Eugénio de Andrade, Coração do Dia)

18.3.08

Na Baía de Faro (com um poema de Elytis)

“Abro a minha boca * e o mar se regozija”

(Em “Louvada Seja – Áxion Estí”)

Abro os olhos e a água sem rugas traz desenhos que lhe desenhei, de pele lisa ainda, a minha. Julgava-os delidos.

O mar guardou-os e está a pôr uma a uma as pétalas no pé donde, bem-me-quer-mal-me-quer, em anos verdes as fui soprando em desenhos de abandono.

Se fosse de pôr flores no cabelo como os amantes, ainda iria recolhê-las, bem me quer.
Eu, amante imperfeito.

Água-céu de Faro, Áxion Estí.


8.3.08

Porque procuro ser lúcido

Porque sou consciente, ligeiramente inteligente e procuro ser lúcido, desejo que a manifestação que os professores e educadores fazem hoje em Lisboa seja grande, do tamanho das nossas consciências.

5.3.08

MANHÃ, ERGO COGITO


A janela pálida reflorida
no ar cada vez mais visível.
Também o prado revive
longe, depois de ter bebido
a sua água que dá ao ar visibilidade.
Tão nítido, estendido numa colina.

(Fiama Hasse Pais Brandão - Entre os Âmagos)

24.2.08

Vou-me embora pra Pasárgada




Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)