
À Guiomar
(para quando souber ler-me nos olhos)
Subo o monte nuvem pesada.
As borboletas descem,
leves, flores ligeiras:
sabem os sítios de crescer,
auroras aladas.
Guarda-nos flores.
(20 de Março, dia de flores, 2010)


1.
Aurora
dedos de rosa vem ligeira pelos montes
e traz lençóis de linho limpo.
Luz esplêndida
a dos olhos da espera
Vinha pelos cedros e pelo orvalho na cidreira, erva-doce e hortelã-pimenta e lembrava-se de quem cheirava àquela resina e a boca era de hortelã fresca e de frutos deliciosos e de música dos cânticos mais bonitos
corça morena a arfar na montanha alta por ventos propícios
e adormecia ao relento até chegar a aurora do linho macio.
Um passinho mais
e morro no teu corpo
montanha suave
toquinha de raposa.
Sôbolos rios que vão
Na idade de entender a Condessa de Ségur e o Cavaleiro Andante, pus-me a ler a Montanha Mágica. Do que li lembro-me…era nas tardes de quinta-feira e nalguns domingos, junto duma presa de águas muito frias que lia.
Havia um Castorp e a demora de sete anos numa montanha, como os de Laban…Só disto, do livro.
Do resto – tempo, pardalada, passeios nas nuvens, as angústias do coração a crescer sem perceber, está cá tudo, quase tudo, para além da vaidade do dizer adolescente ando a ler A Montanha Mágica de Thomas Mann. Dito assim, com estas palavras…
É por isso que hoje vou começar a ler A Montanha. O coração já está acomodado…
Vou demorar mais que sete dias e mesmo que sete semanas.
“Sete anos é que decerto – Deus nos valha! – não serão precisos!” – Nota-se que já comecei…
Quando regressar aqui, as pessoas amigas que visitam a Romãzeira ficam a saber que acabei de ler A Montanha Mágica de Thomas Mann!
Assim vai ser e vai ser bom!



Há palavras que fazem bater mais depressa o coração - todas as palavras - umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lugar de onde se ouvem - do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.
Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.
As palavras querem estar nos seus lugares!
Almada Negreiros - Andaimes e Vésperas
Ordem do médico:
- boa alimentação e muitos líquidos; corpo descansado em bom aconchego. Vamos ter cuidado, não venha por aqui uma pneumonia!
Foi assim que fiquei , recostado numa cadeira de baloiço calmo, a olhar o lume.
Senti-me bem e com uma dormência d’alma, perto de quem sonha.
E disse a quem me ajudou a envolver-me no capote do tempo muito frio:
- deve ser engraçado ir ao céu nas asas duma pneumonia! Chegar lá e ver São Pedro “anda cá, vais ver gente de que gostas” e eu a dizer “já vejo”e a perguntar por uma Irene, aquela ‘Irene no Céu’:
-‘Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.’,
lembrado de Manuel Bandeira, e a querer saber novas dele.
Fui adormecendo, como quem chega ao céu nas asas duma pneumonia, quentinho e sem tosse.
(Foto de Marco Pedrosa)
Vem, linda peixeirinha,
Trégua aos anzóis e aos remos.
Senta-te aqui comigo,
Mãos dadas conversemos.
Inclina a cabecinha
E não temas assim:
Não te fias do oceano?
Pois fia-te de mim.
Minhalma, como o oceano,
Tem tufões, correntezas,
E muito lindas pérolas
Jazem nas profundezas.
Heine, Tradução de Manuel Bandeira
(Hoje fui ver o mar, que estava nervoso, irrequieto. Lembrei-me disto.)
(Copiei este sono não sei donde)


